O Hospital São José tem sido o coração do tratamento dos pacientes graves de Covid-19 em Jaraguá do Sul e região.

Diariamente, 160 profissionais se dedicam a amenizar as dores, desconfortos e medos que atingem os pacientes que passam pelas alas de enfermaria e UTIs (Unidade de Tratamento Intensivo).

Desde o início da pandemia, foram quase 600 internações na unidade.

A médica e coordenadora da UTI, Renata de Oliveira Alberini, especialista em terapia intensiva, conta que o trabalho tem exigido superar os próprios receios e o sentimento de impotência diante de uma doença tão nova, e ainda lidar com a exaustão física e mental.

“Toda a equipe da UTI está fadigada ao extremo, vários foram contaminados, foram afastados e retornaram, férias foram canceladas, trabalhamos com número reduzido de profissionais da saúde em muitos plantões”, desabafa.

Renata praticamente abriu mão da rotina familiar para poder se dedicar ao tratamento dos pacientes com Covid-19 | Foto: Natália Trentini/OCP News

Conforme o gerente executivo assistencial do hospital, Renan Urack Sagrilo, a unidade chegou a ter 70 profissionais afastados ao mesmo tempo - o que gerou aumento de jornada e sobrecarga.

Renata, por exemplo, cumpre o plantão de oito horas de segunda a sexta, mas fora do horário segue assessorando os plantonistas sempre que necessário, estudando e se atualizando sobre a doença diariamente.

“A rotina pessoal também foi muito abalada, tive que colocar minha profissão acima da minha família e amigos, meu esposo e filha sentem minha falta, mesmo estando em casa fico muito tempo no telefone resolvendo problemas, mas acho que eles se orgulham de mim, e me apoiam muito nesse momento”, comenta Renata.

Conforme Sagrilo, o prolongamento da pandemia e o atual pico vivido na cidade colabora para o sentimento de exaustão entre os profissionais.

Ele ressalta que em muitos momentos o medo aparece para todos, mas que mesmo assim, as equipes seguem em frente. "Vamos com medo mesmo", diz.

Gerente do hospital ressalta que equipes entendem a importância de estarem na linha de frente | Foto: Natália Trentini/OCP News

“A sorte é que em nossa área os profissionais trabalham por missão e sabem que nesse momento nossa comunidade precisa deles e estão aqui dando o seu melhor e atendendo de forma digna e de qualidade para todos que estão precisando de atendimento. Muitos dessa equipe deixaram suas famílias, privaram-se de muitas coisas para poder salvar vidas”, ressalta o gerente.

Mudanças dentro do hospital

A fisioterapeuta, Cassia Toledo dos Santos, assumiu a missão de coordenadora de equipe multidisciplinar do hospital um mês antes do início da pandemia, o que exigiu dela estar a frente de uma grande equipe de profissionais durante esses meses.

“Com a pandemia, todo hospital e equipes sofreram mudanças em suas rotinas de trabalho. Foram necessários planos de contingência, abertura de novos setores, principalmente UTIs, o que levou inclusive a novos processos de contratação e ampliação de equipes”, conta.

Só na equipe coordenada por ela, seis fisioterapeutas foram contratados para suprir a demanda das internações por Covid-19, com ampliação do horário de cobertura nas UTIs.

Contratação, criação de protocolos e grande volume de pacientes na UTI são desafios, segundo Cassia | Foto: Natália Trentini/OCP News

A médica Renata, que atua desde 2008 na UTI do São José, comenta que além de todos os novos protocolos de atendimento, uma das mudanças foi a perda de contato humano.

“Além do medo de ficarmos doentes, perdemos o contato com os familiares dos pacientes, fornecendo boletim médico por telefone, não podendo mais oferecer um abraço no momento de uma notícia ruim", lamenta.

"Há dois anos iniciamos um projeto de humanização na UTI, com visitas prolongadas, musicoterapia, e tudo teve que ser interrompido com a pandemia, o que nos deixa muitos frustrados”, revela a médica.

Desafios até agora

O coronavírus chegou a Jaraguá do Sul poucos meses após o primeiro caso ser diagnosticado na China. Havia muita dúvida sobre contágio, sobre a forma com que o vírus age e sobre como realizar o tratamento.

Renata comenta que foram necessárias inúmeras reuniões para estabelecer esse protocolo de tratamento, baseado nos estudos que haviam, visando sempre risco e benefícios das medicações.

Os casos mais graves são sempre discutidos em grupo.

Para Cassia, a chegada do primeiro paciente com Covid-19 a Jaraguá do Sul, que já precisou de internação na UTI, foi extremamente desafiador por exigir colocar em prática esses novos protocolos de atendimento e cuidado, algo que mobilizou todo o hospital.

Para Cassia, primeiro paciente e o atual pico no hospital foram momentos mais desafiadores | Foto: Natália Trentini/OCP News

Mas igualmente, ela considera o momento atual igualmente complexo.

Houve necessidade de abertura de mais uma UTI, contratações, reorganização de escalas de trabalho - tudo isso enquanto o hospital estava no pico de internações por Covid-19.

“Posso dizer que com 19 anos de formação em medicina nunca passei por um momento tão difícil”, comenta Renata.

“O começo da pandemia foi difícil, pois estávamos no escuro, sem saber como seria o dia seguinte, porém esse mês de dezembro tem sido o pior momento para mim, os casos não param de crescer, o Hospital está cheio, estamos abrindo mais leitos de UTI, faltam recursos humanos; estamos literalmente matando um leão por dia”.

Uma missão

O consenso de que lidar com todos esses desafios, medos e rotinas exaustivas faz parte do compromisso de um profissional de saúde ajuda a mover todos.

O gerente Renan, que se responsabiliza por lidar e organizar com esses profissionais, ressalta que trabalhar um “time de excelência” facilita muito as tomadas de decisões diante de situações que pedem respostas rápidas.

Renan ressalta a capacidade e excelência do trabalho de todos os profissionais | Foto: Natália Trentini/OCP News

“Além disso, esse espírito cooperativo do grupo contribui para a manutenção do fator emocional. Mas, confesso que passei por momentos de extremo estresse”, diz.

Para Cássia, cada pequena vitória conquistada nas alas do hospital traz motivação para continuar: quando o paciente não precisa mais de auxílio para respirar, quando volta a sentir o sabor dos alimentos, quando consegue se levantar e caminhar.

Ela acredita que esse dom de se importar e querer cuidar do outro está presente em todos que estão nessa linha de frente.

“Costumam comparar os profissionais de saúde a 'anjos', eu não gosto dessa expressão, prefiro compará-los aos guerreiros, um exército de guerreiros muito bem treinados, capacitados, com habilidades para executar sua missão e com muita coragem. A única coisa que nos diferencia dos demais exércitos é o tamanho do amor que temos pela vida das pessoas”, define Sagrilo.

Preocupações com um novo pico

Jaraguá do Sul viu o fim de ano se aproximar com um aumento expressivo nos casos de Covid-19 dia após dia.

O cenário atual causa preocupação tendo em vista as festas de fim de ano - sendo que a aglomeração de pessoas sem distanciamento adequado e uso EPI (Equipamento de Proteção Individual) torna o contágio provável.

 

 

Cassia ressalta que a situação preocupa a todos no hospital, especialmente com um possível colapso no sistema de saúde, trazendo superlotações e até a falta de leitos hospitalares.

Para Renata, esse é o momento mais desafiador em sua trajetória de 19 anos como médica | Foto: Natália Trentini/OCP News

“Sabemos que as pessoas estão cansadas do isolamento, querem se encontrar, se divertir, mas pedimos que todos se cuidem, usem máscaras, evitem aglomerações, façam a higiene correta. Lembrem-se que ano que vem tem festas e férias de novo e precisam estar vivos e saudáveis para aproveitar”, alerta a médica Renata.

 

Quer mais notícias do Coronavírus COVID-19 no seu celular?

Mais notícias você encontra na área especial sobre o tema:

Receba as notícias do OCP no seu aplicativo de mensagens favorito:

WhatsApp

Telegram Jaraguá do Sul