O número de automóveis nas ruas em Joinville aumentou 3,29% entre 2018 e 2019. Conforme dados do Detran-SC, em apenas um ano, a cidade aumentou em 8.579 o número de novos carros.

Ao todo, são 269.378 veículos para uma população de 583.144 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em Joinville, o índice é de 1,4 pessoa por carro, número menor que a cidade de São Paulo, por exemplo, que tem o índice de 1,5.

Porém, maior que Fortaleza e Recife, que tem 2,4 pessoas por carro e Londres, que tem, em média, três pessoas no veículo.

Para o secretário da Secretaria de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável (Sepud), Danilo Conti, a crescente de mais veículos pode ser traduzido no aumento dos congestionamentos e tempos de deslocamento.

"Em Joinville, no ano 2000, o indicador representava 3,14 habitantes por veículo. Esse dado é um fator importante que ajuda a explicar o aumento dos problemas de trânsito no município", comenta.

Segundo Conti, a mobilidade urbana das cidades vêm mudando drasticamente nos últimos anos, principalmente com inserção da tecnologia e aplicativos de transporte individual.

O secretário afirma que assim como a maioria das cidades de médio e grande porte, Joinville também sofre com problemas de mobilidade urbana, o que se deve ao crescimento desordenado e a falta de integração do uso do solo, além do aumento da frota dos automóveis.

Porém, para ele, os problemas da mobilidade são em horários específicos. "Considerando a extensão territorial de Joinville, os congestionamentos ocorrem prioritariamente nos horários de pico, sem maiores problemas nos outros períodos", complementa.

Os moradores da maior cidade catarinense sentem as longas filas diariamente. Em ruas como a avenida Beira Rio, no Centro, ou na Herval do Oeste, no bairro Iririú, o tráfego costuma ser caótico em determinados horários.

Longas filas são comum em horários de pico | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Danilo explica que o município possui limites físicos que não permitem o aumento da malha viária ao mesmo ritmo que se aumenta a frota de veículos.

Além disso, ele pensa que o aumento do número de ruas e faixas para carros não resolverá os problemas de mobilidade. "Muito pelo contrário, o aumento da oferta de novos espaços para transitar apenas estimula ainda mais o transporte motorizado individual", reflete.

Segundo o secretário, o município busca investir prioritariamente na ampliação e reestruturação da infraestrutura de vias utilizadas por modais de transporte ativo (não motorizado) e principalmente nas vias exclusivas do transporte público coletivo.

"A infraestrutura ciclável de Joinville se aproxima de 180 quilômetros e as faixas exclusivas para ônibus já somam 25 quilômetros, com a previsão de ampliação de mais 35 quilômetros em curto prazo", analisa.

Mesmo com projetos que priorizam o transporte coletivo, o número de usuários de ônibus caiu na cidade. Em 2000, eram 139.022 passageiros por dia, já em 2017, segundo o documento Joinville - Cidade em Dados 2018, eram 102.244.

Somados ao mês, os números ficam ainda mais alarmantes. Em 2000, o transporte coletivo tinha 4.170.671 de passageiros, em 2017, porém, apenas 3.109.929, ou seja, 1.060,742 menos passageiros.

Número de passageiros de ônibus despenca a cada ano em Joinville | Fonte: Joinville - Cidade em Dados 2018

Para Conti, são diversos os fatores que vêm causando a queda de usuários de ônibus a cada ano, como a queda dos usuários do transporte coletivo, que segundo ele, impacta diretamente no aumento da tarifa, causando novamente a busca de novos meios de transporte por parte dos usuários.

Porém, conforme o secretário, a prefeitura está propondo melhorias, com a revisão do Plano Viário da cidade.

"Vamos pensar a matriz de transportes ideal para que o município possa continuar crescendo de forma eficiente e sustentável. O atual plano viário é de 1973, é a primeira vez em 47 anos que será revisada. É um momento histórico e terá enorme reflexo na mobilidade urbana em Joinville", conta.

Danilo afirma que mais importante do que intervir no número de veículos é mudar a divisão dos modais utilizados pelos joinvilenses para se deslocarem, aumentando a participação do uso do transporte coletivo de forma ativa nos deslocamentos.

Para urbanista, transporte individual aumenta a desigualdade na cidade

Filas, estresse, paciência e poluição. Utilizar o carro pode ir muito além de tirar a carteira de motorista e aprender a dirigir.

Em Joinville, onde o cenário é mais crítico nos horários de pico, a experiência de estar dentro de um carro pode fazer da convivência humana algo tenso e cansativo.

Para o sociólogo e urbanista Charles Henrique Voos, o aumento no número de automóveis, a curto prazo, impacta na fluidez do trânsito.

Mas, a longo prazo, há uma desvalorização do transporte coletivo, insegurança para pedestres e ciclistas, e se torna prejudicial à saúde da população, pois passa a fazer menos exercícios físicos diariamente, como caminhar, por exemplo.

Segundo ele, grande parte da cidade é destinada às ruas que possuem grandes partes voltadas aos carros, que já dominam a mobilidade urbana. "Quanto mais privilégios para os carros, mais carros teremos e sempre ficaremos com a sensação de que 'falta espaço'", explica.

Charles sugere que tarifa do ônibus seja subsidiada pelo Estado | Foto: Prefeitura de Joinville

O sociólogo afirma que o aumento do número de carros aumenta a desigualdade social na cidade.

"O automóvel permite controlar o tempo. Saio de casa agora, vou a tal lugar em 'x' minutos, não dependo dos horários de ônibus. Quem controla o tempo, tem acesso a mais facilidades diárias", diz.

Charles ainda diz que existem várias pesquisas no Brasil e no exterior que mostram como essas mesmas facilidades estão próximas às áreas de moradias das pessoas mais ricas.

"São as que mais se deslocam por automóvel. Quando percebemos uma grande obra no trânsito, geralmente é para dar mais fluidez a vida das pessoas mais abastadas e, consequente, valorização dos seus locais de moradia", ressalta.

Para ele, o transporte coletivo não é priorizado na cidade. "Como a prioridade ao automóvel é um projeto, todas as outras formas sentem o impacto. É impensável que o transporte coletivo será atrativo nessa junção de cenários", lamenta.

O urbanista pensa que os aplicativos de transporte, assim como os táxis, não resolvem o problema da mobilidade urbana, que servem para aumentar o número de carros a médio prazo.

"Isso reflete em menos usuários do modo coletivo. Menos investimentos, mais sucateamento e mais carros nas ruas", fala.

Para Charles, a melhora na mobilidade urbana é proporcional à diminuição de veículos nas ruas, sendo necessário controlar do uso do solo urbano, cuidar da verticalização e priorizar o adensamento urbano, que para ele, significa "pessoas mais próximas entre si e das facilidades urbanas do dia a dia".

Além disso, o sociólogo propõe maior investimento em calçadas, ciclovias e transporte coletivo, com intenso subsídio dos governos.

"O dinheiro para a tarifa isso poderia ser tirado das multas de trânsito, do IPVA, do IPTU e de outras fontes, como aumento de impostos para garagens, estacionamentos, empresas de aluguel de automóveis", afirma.

Ele afirma que a mobilidade não se resume ao trânsito. "Precisamos ter consciência de que somente o esforço em várias áreas irá resolver os nossos atuais problemas", finaliza.

 

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