A história de Dona Maria, mãe de três filhos, natural de Criciúma, começa no estado de Rondônia, onde ela morou por 30 anos. Junto com o falecido marido, José de Andrade, Maria Moraes de Andrade trabalhava no campo, como agricultora. Aos 58 anos de idade ainda era analfabeta.

Dona Maria voltou aos estudos incentivada por José, que sabia do amor da esposa pelos poemas. “Ele disse para mim que estava na hora de trocar a enxada pelo lápis”, conta, orgulhosa.

Maria cultiva os traços de poetisa desde criança, quando seu sonho era escrever versos. “Minhas poesias são autodidatas, tenho influência nas letras de músicas de raiz sertaneja.”

Entre a fazenda e a escola

A trilha dos estudos começou em Rondônia. Maria precisava ajudar o marido na fazenda, pois o sonho de José era ser proprietário de uma terra. Em um acordo com a professora, a poetisa conseguiu conciliar os dois mundos. Uma semana ela sentava no banco escolar e na outra ajudava o marido na lavoura.

Após seu José falecer por conta de um câncer, Maria mudou-se para Florianópolis. Na Capital catarinense, conheceu a Educação de Jovens, Adultos e Idosos, a EJA, ligada à Prefeitura.

Dona Maria se formou no EJA de Florianópolis | Foto PMF/Divulgação

Graças à modalidade de ensino, Maria reacendeu seu antigo sonho de menina: escrever poemas. Esse sonho vem dos pais, que assim como ela, faziam da vida inspiração para os versos.

“Minha mãe, Antônia, contava histórias para que eu e meus irmãos caíssemos no sono. Um dia, ela disse que estava na hora de nós aprendermos a contá-las sozinhos. O conto do bauzinho - que falava sobre as noivas que preparavam o enxoval - foi inspiração para a minha primeira poesia cantada, pois não sabia escrever.”

Um novo aprendizado

Em 2011, munida com a vontade de aprender, entrou na EJA, no Núcleo de Estudos da Terceira Idade (Neti), localizado na Universidade Federal de Santa Catarina. Lá, ela conquistou seu certificado e partiu rumo a mais uma etapa.

Em 2017, Maria deu outro passo para a realização de seu objetivo, ela conseguiu concluir o ensino médio no Centro de Educação de Jovens e Adultos - Ceja.

“Com a minha alfabetização, já na idade adulta, decidi que queria escrever, a EJA foi um trampolim”

Aos 78 anos de idade, a senhora obteve muitas conquistas através da Educação. Maria é membra da Academia de Letras do Centro de Estudos do Núcleo de Estudo da Terceira Idade – Ceneti.

Maria vira escritora

No dia em que completou seus 78 anos bem vividos, a senhora, com olhar meigo e delicado, lançou seu primeiro livro de poesias, no Sesc Prainha, acompanhada dos filhos, netos, amigos e colegas orgulhosos pelo sucesso de sua trajetória. “Da enxada pro lápis” é recheado com 124 versos, de temas variados que abordam o dia a dia de uma longa vida.

Alguns têm como tema sobre a infância da escritora. Produzido pela editora Papa-livros, a obra custa trinta reais, e conta com 142 páginas. A poesia preferida de Maria é a primeira do livro:

"O poeta cantador".

Eu conheci um poeta

Que cantava suas poesias na janela do seu amor

Que sorrindo ela abria a janela

Para o Poeta cantador

Esse poeta

Ele via o mundo de tal beleza e amor

Que tudo que ele via

Ele era um poeta cantador

Esse poeta que eu falo

Eu conheci ele

Sim, senhor

Ele é o meu pai

O poeta cantador

Com o auxílio da EJA, a taxa de analfabetismo em Florianópolis foi reduzida pela metade | Foto PMF/Divulgação

Eventos

Agora, dona Maria segue com uma agenda recheada de eventos relacionados ao seu livro. No dia 26 de outubro, participou do Festival da Primavera, promovido pela EJA de Florianópolis.

O evento ocorreu na Escola Básica Municipal Herondina Medeiros Zeferino, no bairro Ingleses, onde declamou seus poemas e realizou uma exposição da obra. Já no dia 6 de novembro, a poetisa passou uma tarde no polo NETI, na Universidade Federal de Santa Catarina, dando autógrafos.

Matrículas sempre abertas

A Educação de Jovens, Adultos e Idosos tem um diferencial. É possível efetuar a matrícula a qualquer período do ano.

Os interessados em ingressarem na EJA, a partir de 15 anos, podem ligar para a Secretaria de Educação, nos telefones 3212-0925 e 3251-6102, ou efetuar a matrícula diretamente em algum polo. Há 25 locais para quem quer alfabetizar-se e concluir o ensino fundamental.

O ensino é voltado para a pesquisa com conteúdos ligados ao cotidiano do estudante.

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