A esquizofrenia está presente em mais de 1% da população mundial e em 2020, este transtorno psiquiátrico foi o tema que norteou as atividades do 18º Simpósio de Psiquiatria na Interface Cérebro e Mente da Unesc, que ocorreu nesta sexta-feira e sábado (25 e 26/10). De modo 100% virtual, o evento promoveu a troca de informações e a ampliação do conhecimento sobre a temática "Esquizofrenia e Transtornos Psicóticos", com a participação de profissionais e pesquisadores de renome nacional e internacional na área. Promovido pelo Laboratório de Psiquiatria Translacional da Universidade, o Simpósio foi transmitido pelo canal da Unesc TV no Youtube (www.youtube.com/unesctv), onde as palestras ficarão disponíveis.

Ao longo do evento, foram abordados temas como: "Uso de Drogas e Esquizofrenia: Realmente aumenta o risco?"; "Comorbidades Clínicas: Como manejar os efeitos indesejados das medicações antipsicóticas"; "Atualizações em Esquizofrenia Resistente ao Tratamento"; "Diagnóstico Diferencias: Mas é esquizofrenia mesmo?"; "Esquizofrenia Resistente: O papel da neuromodulação" e "Possibilidades de Reabilitação Cognitiva na Esquizofrenia"

A professora Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGSCol) da Unesc e pesquisadora do Laboratório de Psiquiatria Translacional, Alexandra Ioppi Zugno, afirma que objetivo do evento é trazer esclarecimentos à sociedade e promover discussões acadêmicas que vão de estudos em pesquisa básica até as práticas clínicas e de tratamento. Segundo ela, ao longo dos dois dias foram fomentadas discussões e reflexões a assuntos em evidência sobre a doença, a manifestação, a epidemiologia, o tratamento, a relação familiar e os achados científicos mais recentes.

Pela primeira vez na modalidade 100% virtual, o evento superou as expectativas da organização, composta por professores, pesquisadores e estudantes da Unesc. Segundo Alexandra, o evento que tradicionalmente possui características de participação de profissionais e estudantes da região teve uma ampliação do número de participantes. "O Simpósio sempre foi mais regional, apesar de ter palestrantes de diversos estados. Neste ano tivemos mais de 1,3 mil inscritos, com adesão das pessoas de estados mais distantes do nosso, como o Acre e o Rio de Janeiro. Conseguimos também trazer palestrantes de todo o Brasil. Tivemos muitos feedbacks positivos e uma interação bem interessante do público. O ambiente virtual permitiu uma aproximação bem interessante".

Psiquiatria forense e como diagnosticar a esquizofrenia em debate

O segundo dia da programação do evento iniciou às 8h30, com a palestra "Paciente esquizofrênico responde por seus atos? Responsabilidade penal e capacidade civil do portador de transtorno mental", com a médica psiquiatra, doutora em Medicina, professora do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Lisieux Elaine de Borba Telles.

A palestrante explica que a psiquiatria tem uma interface próxima com o Direito. "A psiquiatria forense é a psiquiatria em função da Justiça. Seu objeto de estudo é o homem doente mental, seja ele transgressor da norma jurídica ou esteja necessitando de proteção jurídica. E quando o paciente é portador de transtornos mentais mais graves ou até beirando a incapacidade, é muito frequente que o psiquiatra tenha que lançar mão de algumas ações para proteção desta pessoa e, eventualmente, também da sociedade", explica.

Segundo ela, a psiquiatria forense nasceu em 1835, quando o francês Pierre Rivière assassinou três membros de sua família e pela primeira vez, um caso desse tipo foi avaliado por psiquiatras. "Os pacientes psicóticos podem praticar ou ser vítima de atos criminosos em função da vulnerabilidade a que estão expostos. A comorbidade com álcool e drogas e presença de traços de personalidade antissocial vão contribuir muitas vezes para essa conduta violenta e delitiva. A adesão ao tratamento tem se mostrado como um fator protetor da eclosão desses sintomas agressivos Por isso eventos como este simpósio que tratam da patologia de uma maneira mais global, levando em consideração vários aspectos que se relacionam à esquizofrenia", comenta.

Na segunda palestra da manhã deste sábado, a médica psiquiatra, doutora em Medicina/Ciências Médicas e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Ciências do Comportamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Clarissa Gama, abordou o tem "Como se trata o primeiro episódio psicótico". Clarissa apresentou casos reais de pacientes com transtornos psiquiátricos, trouxe reflexões sobre a atuação do psiquiatra e abordou a importância de um trabalho criterioso na elaboração do diagnóstico de esquizofrenia após o primeiro episódio psicótico. "Quando se fala em diagnóstico de esquizofrenia, pelo preconceito e estigma, o que atrapalha muito no tratamento, se pensa numa pessoa deteriorada, cronificada, o que nem sempre condiz com a realidade. Por isso a importância de se fazer um diagnóstico correto para estabelecer o tratamento. E só podemos tratar se conhecermos de fato a doença".

A palestrante ainda salienta que a maioria das doenças crônicas, se não forem tratadas, acabam tendo prognósticos ruins. "Os tratamentos são necessários e eles mudam os cursos da doença".