A Escola Básica Municipal de Florianópolis, Adotiva Liberato Valentim, foi parar na Zootaxa, a revista mais famosa do mundo sobre taxonomia, ciência que busca descrever, identificar e classificar os seres vivos. É que a unidade educacional foi homenageada com o nome de um inseto descoberto na Amazônia pelo professor Luiz Carlos Pinho, do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). No periódico, o professor relata todo o caminho percorrido: da descoberta até o batismo do animal: “Aedokritus adotivae”. Quer receber as notícias no WhatsApp? Clique aqui Tudo começou quando Luiz Carlos Pinho foi convidado pela escola para assessorar uma turma de terceiro ano do ensino fundamental, a 34, sobre “Novas espécies de animais na Amazônia em 2013”. Anualmente, todas as classes do estabelecimento trabalham um tema dentro do projeto global “Aprender a conhecer, pesquisa de corpo inteiro”. A ideia é que um especialista ajude a criançada, que já possui igualmente dois profissionais orientadores da escola-, no caso desta turma, a professora Joseane Maria Aguiar Amorim e a bibliotecária Adriana Kuhn-, a responder as dúvidas que motivaram a escolha do tema, como “Qual a rotina de um cientista na floresta?”, “As novas espécies evoluem de outras?” e “Como uma nova espécie é identificada pelos cientistas?”. No processo de assessoramento do trabalho, o professor tinha descoberto e estava descrevendo um novo inseto. Assim, presenteou as crianças com a oportunidade de escolherem um nome científico para ele. Obedecendo a todas as características necessárias, a turma chegou a três nomes: “Aedokritus adotivae”, “Aedokritus amazonicus” e “Aedokritus plumosus”. No dia da Feira de Ciências da escola, a comunidade pôde votar e o selecionado foi o nome em homenagem à unidade de ensino. O artigo do professor Luiz Carlos Pinho foi publicado na Zootaxa no dia 23 de março, data de aniversário de Florianópolis. A revista científica é semanal e foi criada em 2001. Mais de 26 mil novas espécies já foram descritas no periódico. Taxonomistas natos De acordo com o professor, as crianças da Escola Adotiva Liberato Valentim são taxonomistas natos, ou seja, biólogos, e envolvê-las no processo foi uma experiência que ele recomenda. “Ao mesmo tempo em que temos crianças fascinadas pela biodiversidade, temos os estudos sobre a biodiversidade majoritariamente sendo feito pela e para a comunidade científica. É possível aproximarmos esses públicos”, afirma. No artigo, ele escreve que popularizar a entomologia, estudo dos insetos, entre as crianças pode não ser tão difícil, já que elas são naturalmente fascinadas pela natureza desde muito jovens. O desafio é evitar que sua fascinação pela natureza se torne aversão. É aí que acadêmicos como os taxonomistas podem agir. O inseto O Aedokritus adotivae é bem menor que os outros de sua espécie. Ele não suga sangue e é parente próximo de insetos que são bem comuns nas cidades, formando grandes enxames ao entardecer. Segundo o professor Pinho, não foi ele quem coletou o animal. “O inseto foi coletado em 1972 e estava no museu de zoologia de São Paulo desde então. Nenhum especialista no grupo havia tentado identificá-lo.” Os protagonistas: estudantes e professores O trabalho com a metodologia de pesquisa nasceu na Adotiva Liberato Valentim no ano 2014, a partir de uma sugestão na reunião do Conselho Deliberativo Escolar. “Fomos aprimorando, estudando. Sabemos que o projeto não está pronto, pois é um processo de construção que tem os estudantes e os professores como protagonistas”, diz a diretora da unidade, Karla Christine Hermans Lima. Com o trabalho, houve uma mudança de postura, declara. “Passamos a autores, mais comprometidos com a aprendizagem, com cada etapa de um processo de pesquisa e com a coletividade”. Assim como na educação, no projeto “Aprender a Conhecer: pesquisar de corpo inteiro”, ninguém faz nada sozinho, adverte. “Construiremos o caminho de cada turma juntos. Nenhum professor está sozinho, ele tem um parceiro da escola na coordenação dos trabalhos, o apoio da coordenação dos projetos e da direção da escola e um especialista, que buscamos nas universidades, entidades e setores da sociedade civil para dar o suporte necessário”. O secretário de Educação, Maurício Fernandes Pereira, lembra que na rede municipal de ensino de Florianópolis é incentivado que os professores desenvolvam atividades com os estudantes tendo como referência o mundo real. “Torna-se mais interessante, as crianças se dedicam mais às tarefas, às pesquisas”.