Integrante da programação de aniversário do município, o centenário de construção da Igreja Santo Estêvão foi comemorado no último sábado (16), com momentos de emoção, de saudades e de confraternização. A sessão comemorativa começou com a recepção aos convidados no Salão da Comunidade, em frente a igreja. De lá, os convidados seguiram até o local onde o Município construirá a Praça Húngara, num terreno adquirido pela Prefeitura de Jaraguá do Sul.

O prefeito de Jaraguá do Sul, Jair Franzner, reforçou que o município começou a ser colonizado naquele local e disse ser muito gratificante estar ali para comemorar o centenário da igreja com o lançamento da pedra fundamental da praça, que irá valorizar ainda mais a comunidade de Santo Estêvão.

“Essa igreja e esse bairro foram construídos por pessoas que vieram ao Brasil com esperança de ter um lar, um local para criar suas famílias, e que tiveram muita coragem, abrindo matas, construindo suas casas, suas lavouras, e nunca deixaram de lado seu compromisso com a fé”, enfatizou. “Acredito muito nos valores que regem a sociedade de Jaraguá do Sul, o voluntariado, o respeito à família, o respeito aos antepassados, a união pelo bem comum e a fé em Deus”, disse Franzner.

A secretária de Cultura, Esporte e Lazer, professora Natália Lúcia Petry, destacou que ao longo dos mais de 40 anos na vida pública, teve oportunidade de conhecer a história húngara de Jaraguá do Sul. “Não estamos comemorando apenas a história de um prédio que abriga um santuário cristão.

Comemoramos um capítulo importante na história de Jaraguá do Sul, escrito pelo imigrantes húngaros e seus descendentes que aqui estão. Um capítulo marcado pelo trabalho desta comunidade em prol da nossa cidade, pelo perfil trabalhador e honesto do seus integrantes, pelo enriquecimento da nossa cultura, com seu folclore, suas danças, seus trajes típicos, sua culinária, destacando o Strudel, cuja receita está a caminho de ser tombada como patrimônio cultural imaterial de nossa cidade”, disse ela.

HOMENAGENS

 

Divulgação/PMJS

De volta ao Salão da Comunidade, os convidados assistiram a um vídeo de aproximadamente seis minutos, contando a história da imigração húngara e o estabelecimento das famílias na região do Alto Garibaldi. Após as homenagens aos representantes das cerca de 70 famílias, aconteceu uma missa na igreja e, novamente no Salão, foi servido um café.

A história dos húngaros na região começa na última década do Século XIX, entre os anos de 1891 a 1896, quando emigraram, aproximadamente, 800 pessoas da província de Veszprém, Hungria, para o Brasil, se estabelecendo em Jaraguá, então Primeiro Distrito de Joinville. O primeiro grande grupo de imigrantes veio no navio Hannover e desembarcou no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1891. Após viagem para Blumenau, permaneceram no Barracão dos Imigrantes até a definição dos lotes de terras onde se fixariam. A região do Garibaldi foi a escolhida.

A região do Jaraguá Alto, mais conhecida por Santo Estevão, devido à comunidade católica ali existente, faz parte desse complexo do Garibaldi, junto aos diversos ribeirões que denominam as pequenas localidades.

Nessa parte mais alta é que a colonização húngara se sobressaiu, onde se instalaram comerciantes e pequenos empresários, que foram se desenvolvendo. A região tem na agricultura sua base econômica, destacando-se o cultivo da banana, aipim, milho, além de criações de animais.

Em 3 de maio de 1894, Frei Lucínio Korte benze a Capela-escola construída de madeira em terras de Georg Wolf. Ficava em frente ao cemitério e consta que a imagem de Santo Estevão veio da Hungria. Servia de escola durante a semana e aos finais de semana se transformava em Igreja. Aqui temos dois elementos essenciais na vida dos imigrantes: a escola e a Igreja.

As terras reservadas pelo Estado para construção da igreja e escola, lote 30A, foram concedidas oficialmente em dezembro de 1903, para a Comunidade Católica Jaraguá Alto.

Veja as fotos do evento:

IGREJA SANTO ESTEVÃO

No ano de 1922, construíram a Igreja de Santo Estevão e esta igreja, a mais antiga de Jaraguá do Sul, nos dias de hoje é reconhecida como patrimônio histórico edificado da cidade e é um dos símbolos da colonização húngara, sendo palco de muitas atividades religiosas e culturais.

Sua construção tem influência da arquitetura trazida pelos imigrantes húngaros, caracterizada pelas abóbadas do altar a nave, pela fachada principal e pelos arcos ogivais das janelas que simbolizam as mãos juntas, elevadas em oração ou ainda indicando o céu. O forro da igreja foi feito com a técnica de estuque, que são madeiras trançadas, amarradas com cipó, nas quais é jogado barro por cima e por baixo. Sobre o seu altar está a estátua de Santo Estevão, vestindo um manto com as cores da Hungria ( verde, vermelho e branco), “os membros dessa comunidade atestam que a imagem do padroeiro veio da Hungria, encomendada por Georg Wolf”.

Por ocasião do restauro da Igreja de Santo Estevão, no ano de 1998, foram encontrados em uma de suas colunas de sustentação documentos escritos em latim com os seguintes dizeres: “ Ao Deus ótimo e máximo, em honra de Santo Estevão, glorioso rei dos Húngaros” e nestes documento também constam a data da colocação da pedra fundamental, 22 de setembro de 1922, e um lista com aproximadamente setenta nomes de imigrantes húngaros e seus descendentes, denominados “fundadores da nova igreja “. Festas em prol da construção da igreja foram realizadas, conhecidas como Kyritag, o Dia da Igreja. A solidariedade, o respeito e a ajuda mútua, conceitos básicos do cristianismo, eram vivenciados no dia a dia e contribuíram para o bom andamento da comunidade húngara do Garibaldi.

Em 5 de dezembro de 1933 o Padre Henrique Meller fez a benção da via-sacra. A Igreja foi finalizada em 1937. Com o passar dos anos passou por algumas reformas. A comunidade celebra seu padroeiro no dia 2 de setembro. Diversos eventos religiosos foram realizados até o momento na Igreja Santo Estevão: primeira eucaristia, crisma, casamentos. Recebeu a visita de autoridades húngaras a partir de 1940, estreitando os laços da comunidade local com o país de origem.

A Igreja Santo Estevão se constitui como um legado do imigrante húngaro e patrimônio cultural da Comunidade de Jaraguá Alto, Garibaldi, permitindo aos seus descendentes o convívio e continuidade desta tradição.

MENSAGEM DO CONSULADO HÚNGARO

Não podendo comparecer ao evento, conforme estava previsto, devido a problemas no voo, a Consul Geral da Hungria, Zsuzsanna Lasló, enviou uma mensagem alusiva ao evento.

Leia na íntegra:

Prezado Senhor Prefeito,
Estimados Jaraguaenses,
Caros Compatriotas,
Caros Amigos da Hungria,

É uma grande satisfação comemorar – mesmo sem poder estar presente – o centenário da Igreja Santo Estêvão e se alegrar com o lançamento da pedra fundamental da Praça Húngara.
Para mim, trata-se de uma ocasião muito especial. É a primeira vez que tenho a honra de saudar – com o gentil auxílio do nosso querido cônsul honorário Amauri Steinmacher - todos os Jaraguaenses na minha qualidade de cônsul-geral.

Jaraguá do Sul comemora hoje cem anos de sua igreja mais antiga, que tem o nome do primeiro rei húngaro, fundador de um estado milenar. Nosso Santo Rei Estevão, bem como os primeiros Húngaros do Jaraguá partilharam a mesma visão. Sabiam que a fé tem força criadora e só uma comunidade cristã pode desenvolver raízes fortes em terras recém-conquistadas. E tinham razão.

Hoje, um milênio mais tarde, o Estado Húngaro criado pela longevidente percepção de Santo Estevão, continua oferecendo um porto seguro para todos os Húngaros. Serve de âncora em tempos de crise pandêmica e econômica. Continua firme - com fé e voz própria - no centro da Europa.

Hoje, cem anos depois da fundação da igreja, a comunidade húngara do Jaraguá também continua, já com apreço conquistado desta cidade acolhedora e a admiração de muitos na Hungria.
Sabemos o que, no Evangelho, o Mestre diz aos discípulos: „Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou no meio deles”.

O mesmo ocorre com a pátria: onde dois ou três húngaros se reunem, aí está presente toda a Hungria, com suas cores, sabores e virtudes.

Foi com esta rica hungaridade que a comunidade do Jaraguá do Sul me brindou há 6 anos, na ocasião da minha primeira viagem oficial. E é esta hungaridade que queremos preservar.
Desejo, por fim que este lindíssimo canto do Brasil nunca deixe de ser o prolongamento simbólico de nossa pátria a mais de 10 mil quilômetros de distância.
Glória aos antepassados!

Deus proteja os Jaraguaenses!