No bairro Rio da Luz, em Jaraguá do Sul, duas realidades distintas lutam para dividir o mesmo espaço. De um lado, as tradições, as memórias e as construções históricas. Do outro, a modernidade, o crescimento eminente e os anseios das novas gerações. Em meio a esta mistura de culturas e perspectivas, um debate: como o tombamento da região, em 2007, influencia a realidade das pessoas que vivem na localidade. Foi para levantar esta e outras questões que a produtora Escritório de Cinema lança, no próximo dia cinco, terça-feira, o documentário “Vale Tombado”, que aborda o tombamento dos bairros Rio da Luz, em Jaraguá do Sul, e Testo Alto, em Pomerode. Produzido com recursos do Fundo Municipal de Cultura, o documentário levanta a discussão a cerca dos limites entre os interesses público e privado, dando voz a moradores e especialistas afetados pelo processo de preservação histórica dos bairros. Sete meses de imersão histórica Para construir o documentário, foram necessários sete meses trabalho e imersão na história das comunidades. As primeiras entrevistas começaram a ser rodadas em dezembro, logo após a etapa de pesquisa, que traçou um perfil prévio dos personagens e suas histórias. Cerca de 12 profissionais se envolveram no processo. “O roteiro prévio nos permite saber mais ou menos o que vamos abordar, mas quando realizamos a entrevista o material sempre surpreende. Existe uma resistência natural do ser humano com a câmera, mas uma vez quebrada esta primeira barreira, começam a surgir os momentos que você não esperaria, alguém sempre fala algo que você não imaginava”, descreve o roteirista e diretor Carlos Daniel Reichel. O diretor conta que dois aspectos chamaram a atenção: o primeiro é a resistência de alguns moradores, que Reichel também descreve como “um cansaço” diante de todo o cenário dos últimos anos. Já o segundo é justamente a receptividade de muitas famílias, que ainda se interessam em contar suas histórias e abrir as casas de forma calorosa. “No Rio da Luz, tudo é contado em primeira pessoa. Quando conversamos com os moradores, é comum ouvir ‘foi meu avô quem construiu’ ou ‘meu bisavô que fez”. Esta noção de propriedade familiar ainda é forte”, comenta. 2016-02-11 - Casa Rux revitalização rio da luz - piero ragazzi-9 (4)

Além das edificações, Rio da Luz e Testo Alto também tiveram suas paisagens tombadas, com o intuito de preservar a configuração natural das localidades

Aprofundando o debate

De acordo com Reichel, existiu o desafio de ser um outsider, uma espécie de estrangeiro, tentando retratar uma realidade que não lhe é familiar. “Sempre há quem diga que é fácil falar quando não se vive lá. Por isso, tentamos trabalhar sobre a ótica do contraste, que é algo interessante no cinema. Você vai de um ponto ao outro e no fim chega a algo totalmente diferente”, ressalta.

O diretor destaca que uma das maiores preocupações da equipe foi não tornar a discussão rasa. Segundo ele, o documentário busca explicar o tombamento de uma maneira clara e transparente, e ao mesmo tempo fazer justiça às pessoas que estão lidando com as consequências da medida.

“Tem uma frase do diretor Kurosawa que é meio lugar comum no cinema, que fala que um filme é um cristal de múltiplas facetas. Cada pessoa enxerga o reflexo de onde ela está e vai ver o filme de forma diferente. Esse é o poder da obra de arte. É um filme que trata desta região com beleza, ao mesmo tempo em que tenta elevar um pouco o nível do debate. Queremos mostrar a situação pelos dois lados, com pesos iguais. O objetivo é levantar várias questões, sobre o bairro, sobre a preservação histórica, o passado, mas com um cuidado cinematográfico”, avalia.

Para o produtor executivo do documentário, Gilmar Moretti, a ideia é trazer provocações e o filme vai muito além de mostrar as belezas do Rio da Luz e do Testo Alto.

“Cada um tem uma história com a cidade, independente do tempo que está aqui. Trazemos esse link, no sentido da memória, da preservação. Este é o primeiro caso oficial desta magnitude de tombamento da paisagem. Temos que ter orgulho, mas saber que é preciso dinheiro para investir. A cidade não se resolve nas suas memórias”, diz.

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Um documentário para o mundo

Para garantir que o documentário alcance o maior número de pessoas possível, a equipe do Escritório de Cinema apostou em uma ideia arrojada e inovadora. Invertendo a ordem tradicional, o lançamento será feito primeiramente no ambiente online, por meio da página da produtora no Youtube. A estreia está marcada para próxima terça-feira, 5 de julho, às 20h.

“É uma estratégia para que as pessoas possam acessar o documentário de maneira simples e rápida, em qualquer lugar. Afinal, é um filme feito de gente para gente. O que segura o projeto são as pessoas, com seus dramas, suas alegrias, perspectivas. É uma reflexão que vem a somar muito e a ideia é que todos possam participar”, explica Moretti.

Já no dia 14 de julho, será feita uma sessão especial na Scar, às 19h, com a presença de alguns dos moradores e especialistas que participaram do projeto. “A proposta é exibir o documentário e na sequência promover um debate sobre o filme e sobre a questão da preservação histórica. Queremos instigar as pessoas a darem sua opinião, saber o que elas pensam e como entendem a situação”, comenta Reichel.

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