Esse é o recado disseminado pelas milhares de pessoas que tomaram as ruas desde o assassinato da vereadora, na semana passada, no Rio de Janeiro. Não poderia ser diferente na noite em que a sua memória foi celebrada no sétimo dia após a morte, nesta quarta-feira (21), na Escadaria do Rosário, em Florianópolis. Em ato ecumênico conduzido pelo padre Vilson Groh, Ìyá Bárbara De Ògún do Batuque (religião de matriz africana), e representantes do partido ao qual ela pertencia, o PSOL, quem tomou a palavra diante do grupo de pessoas que saiu de casa às 19h para subir as escadarias rogou que a militância de Marielle em favor dos direitos humanos não termine com a sua morte, mas que reverbere com a mesma intensidade e o mesmo brilho que ela carregava nos olhos. "Que a gente seja capaz de tomar as ruas, praças, espaços políticos e fazer com que a luta da Marielle não seja em vão", bradou Lorena Duarte, do PSOL. "Vamos continuar a luta de Marielle para que possamos honrá-la. Peço a Oyá que a acompanhe de volta, agora ela se tornou a nossa ancestral", pediu Ìyá Bárbara De Ògún. Não basta lamentar a morte ou sair de casa para participar de um ato. Não basta esbravejar contra a corrupção ou as injustiças sociais. É preciso mais do que isso se a intenção é reverberar o que Marielle agora representa para o País. Padre Vilson, que mora no Mont Serrat, no Complexo Maciço do Morro da Cruz, fez esta provocação quando convocou o público a também se fazer presente na periferia, nos morros e nas fachadas. O que ele quis dizer é que eu e você precisamos trazer o legado da Marielle para o lugar onde habitamos. É um convite a enxergar a Florianópolis além do Centro, da Beira-mar e das belas praias. As mazelas sociais estão na altura dos olhos. "A dimensão da sua morte, a explosão da sua memória agora está muito fincada no enraizamento dela dentro dos territórios, das favelas. Talvez, Marielle venha nos ajudar a reverberar esse processo. Qual é a nossa capacidade de sujar as mãos com essa realidade diária? A gente olha a juventude e diz: 'está no narcotráfico'. É um álibi para não se envolver com a realidade", despertou Groh. O crescente número de assassinatos na Capital, que na sua maioria faz vítima o jovem negro e pobre, e a política de se combater a violência por meio da repressão em vez da inclusão também emergiram no discurso do ato, na Escadaria do Rosário. Foram contadas histórias como a de Déia - moradora de rua do Centro, aidética e tuberculosa, que morreu aos 33 anos, na última semana: "Se eu morrer é lucro, ninguém me vê, ninguém me olha, eu não tenho mais oportunidade", disse ao padre no caminho para o hospital. Como também a de Tiago que sonhou ser traficante quando criança, mas foi inserido em projetos sociais na comunidade e chegou na fase adulta formado em administração: "Vocês me olharam, abriram espaço e me deram oportunidade", foi a conclusão do rapaz. Quatro dias antes de ser executada, em compaixão ao assassinato de um jovem negro, morto pela polícia do Rio, Marielle fez um pedido pelas redes sociais: "Parem de nos matar". Parem de nos matar e pare de não se importar. Desperte a Marielle que há dentro de você. Um fórum deve ser organizado pelos grupos que participaram do ato para discutir os problemas sociais que culminam no crescimento de mortes violentas em Florianópolis. "Não queremos nivelar a pobreza, queremos socializar a riqueza dessa cidade, essa tem que ser a nossa luta", finalizou Groh. O ato encerrou quase duas horas depois, com partilha de pães e sementes, brilho de velas, e mensagens ecoadas de quem emprestou a voz para dividir experiências pessoais e reluzir o que aprendeu com a militância de Marielle, mesmo que essa descoberta tenha vindo após a sua morte.
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