Professor e filho do casal Brosowsky analisam os grãos de café / Foto Adilson Amorim
Professor e filho do casal Brosowsky analisam os grãos de café / Foto Adilson Amorim

O solo fértil de Corupá, aliado ao relevo e às condições climáticas favoráveis, não produz apenas a banana mais doce do Brasil. Entre muitas famílias que se dedicam ao cultivo da fruta na cidade, existe outra tradição que pode se tornar mais uma fonte de renda e atrativo turístico: a cafeicultura.

A descoberta aconteceu durante uma pesquisa do Instituto Federal Catarinense (IFC), campus Araquari, sobre o cultivo do grão no Estado. Em Corupá, cerca de 30 famílias ainda mantêm dezenas de pés de café em suas terras. A cultura, feita em pequena escala para o abastecimento próprio, foi trazida pelos imigrantes que colonizaram a região e atravessou gerações.

O professor de produção vegetal do IFC, Fernando Prates Disso, foi quem coletou amostras do café cultivado na cidade e enviou para um Instituto Federal no Sul de Minas Gerais, especialista em cafeicultura. De lá, veio mais uma boa notícia.

De acordo com as análises, o café produzido pelos agricultores de Corupá se encaixa na classificação especial porque ultrapassou os 80 pontos em uma escala de avaliação que vai até 100. O professor explica que a qualidade foi comprovada em pés que foram plantados no IFC com mudas retiradas na cidade.

Professor enviou amostras do café para instituto especializado na cultura cafeeira | Foto Adilson Amorim

"Eu vim para Santa Catarina em 2010 e fiquei curioso pelo fato de ter um ramo de café na bandeira do Estado, mas não vermos o cultivo do grão por aqui. A partir daí comecei uma pesquisa para saber qual era a relação do produto com o estado", relata.

Disso comenta que a cafeicultura foi uma atividade de expressão econômica importante para Santa Catarina em séculos passados, iniciada por volta de 1786. A produção se perdeu após políticas do governo que desmotivaram o cultivo do item como forma regular o preço de venda.

"O Estado não retomou esse plantio, mas na época o café catarinense era muito bom, com qualidade superior do conhecido até então pelo país. Parte disso se deve ao clima, que é um pouco mais frio. Aqui a colheita é feita aos poucos, conforme os grãos amadurecem, e não de uma vez só", observa o professor.

Atualmente, a planta pode ser encontrada isolada ou em pequenos grupamentos, dispersa em áreas rurais e urbanas na região do Litoral Norte catarinense.

A história do café na família Brosowsky

Espalhados pelas terras da família Brosowsky e em alguns pontos dividindo espaço com as bananeiras, o café produzido pelos agricultores Lone e Bernardo Brosowsky, ambos com 78 anos, abastece toda a família há muito tempo e é elogiado por todos que experimentam.

"Nunca precisamos comprar café no mercado. Plantamos para o consumo familiar. Os parentes que vêm de fora dizem que o nosso é melhor, diferente dos outros. Agora sabemos o motivo", comenta Bernardo ao saber da classificação especial do grão cultivado em Corupá.

Café após o processo de secagem | Foto Divulgação

Segundo ele, alguns pés de café na sua propriedade chegam a ter 80 anos porque foram plantados pelos pais e avós. A esposa Lone também semeou cerca de 60 mudas no local há uns 30 anos, garantindo a produção do grão ao longo das décadas.

Atualmente, é o casal que cuida dos cafeeiros. O trabalho mais pesado com a bananicultura ficou para os filhos. A colheita é feita manualmente apenas com os grãos que já estão maduros. "Os verdes nós deixamos. Quando está quente, toda semana colhemos um pouco, mas se está mais fresco deixamos para pegar a cada 14 dias", aponta Lone.

Casal manteve pés plantados pelas antigas gerações e também passou tradição para os filhos | Foto Adilson Amorim

O processo de retirada dos grãos na plantação da família começou em dezembro e agora está na fase final. Depois de colher o produto, o casal deixa o café secando no sótão feito em um rancho por quase um ano. As próximas etapas são descascar, torrar e moer o grão.

 

Desenvolvimento da cultura cafeeira na cidade

A existência da cultura cafeeira em Corupá abre espaço para o desenvolvimento de mais uma atividade econômica. Segundo a diretora executiva da Associação dos Bananicultores de Corupá, Eliane Muller, o cultivo da banana é uma monocultura no município e isso preocupa os agricultores, que agora poderão ter uma segunda opção.

"Nós já temos o café especial e os agricultores sabem como fazer, isso torna mais fácil implantar políticas públicas de incentivo a produção. Vamos resgatar essa cultura da cidade. A mão de obra do café é mais leve e a colheita não coincide com a da banana, então há um grande potencial de produtividade", aponta a diretora.

O professor do IFC Fernando Prates Disso, destaca que como o café corupaense foi classificado "especial", ele terá um valor agregado maior, com ênfase no produtor e processo de fabricação. O próximo passo do estudo que está sendo pelo Instituto Federal é fazer um micro lote de produto para a comercialização e desenvolver uma cadeia produtiva, investindo em tecnologias para melhorar ainda mais a qualidade do grão.

Eliane também pontua que um dos objetivos da Asbanco, juntamente com o IFC, é sensibilizar o governo estadual para colocar a cafeicultura novamente no zoneamento agrícola de Santa Catarina, o que irá possibilitar investimentos na produção.

"As pessoas não vão vir pra Corupá só para conhecer a banana, cachoeiras e plantas ornamentais, haverá mais uma cultura aqui. Os turistas poderão visitar as lavouras e experimentar o café corupaense, esse ambiente proporciona uma condição especial para a cidade", completa.

 

 

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