Em dois anos, cerca de 30 agências dos Correios fecharam as portas em Santa Catarina, afirma o secretário geral do Sintect (Sindicato dos Trabalhadores na Empresa de Correios e Telégrafos e Similares de Santa Catarina), Giovani Zodoli. E este número pode e deve aumentar. A informação é de que os Correios devem fechar 513 agências próprias nos próximos meses. A medida, que teria sido aprovada durante reunião sigilosa da diretoria em fevereiro, deve atingir mais de 5 mil funcionários, que devem ser demitidos.

Embora não se manifeste oficialmente e nem confirme os números, os Correios esclarecem, por meio de nota, que a empresa “vem realizando estudos pormenorizados sobre a sua rede física de atendimento, assim como novos canais digitais e outras formas de autosserviços”.

A nota afirma ainda que as medidas têm o objetivo de melhorar a qualidade e a experiência do cliente, mas além disso, busca maior eficiência na cobertura de mercado e “a necessária racionalização de custos”. A empresa afirma ainda que os resultados desses estudos só serão divulgados oficialmente após a avaliação interna que ainda está ocorrendo. Os Correios ressaltam também que ainda não há previsão no número de unidades que serão fechadas em Santa Catarina e que também não pode prever possíveis casos de demissão.

Apesar do posicionamento da empresa, o Sintect já percebe a mudança há pelo menos dois anos, quando as agências catarinenses começaram a ser fechadas. Para Zodoli, a ação tem um objetivo claro e não é o divulgado pelos Correios. “Na prática, o que eles querem é acabar com tudo. São medidas que estão sendo tomadas porque a política central é fechar tudo e privatizar o serviço”, avalia.

E a visão de que as medidas tomadas visam a privatização é compartilhada pela Fentect (Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos e Similares). O diretor Moisés Silva acredita que todas as ações foram criadas para enxugar o quadro de funcionários e a estrutura da empresa com o objetivo de manchar a credibilidade dos Correios diante da população. “A empresa vem sendo precarizada e sucateada grandemente. A empresa não está quebrada como se fala, ela se sustenta por si só. Ano após ano tem ganhos, mas querem colocar na cabeça das pessoas que ela está mal, tendo prejuízos e de que a empresa precisa ser privatizada. Criaram um sistema para enxugar a empresa, sucatear e para que a população se revolte com os Correios”, reclama.

O fechamento das agências próprias e a iminente demissão de trabalhadores são, tanto para a Fentect quando para o Sintect, indícios claros de um processo gradativo que deve culminar na privatização do serviço. Para as entidades, isso significa um impacto direto sobre a população brasileira, especialmente para as classes sociais mais baixas e para a população de municípios pequenos cravados no interior do país. “Querem privatizar tudo e isso vai impactar ainda mais as cidades pequenas. No planalto catarinense, por exemplo, tem agências que estão abrindo em dias alternados. Além disso, os preços não são regulados quando ocorre a privatização. Ou seja, quem vai sofrer é a população”, diz Zodoli.

Segundo entidades da categoria, Correios teve estrutura e número de funcionários reduzidos | Foto Eduardo Montecino/OCP

Governo deveria focar em melhorias, defende categoria

Para Silva, o governo federal deveria ter uma política de contratação e não o contrário. Ele ressalta que as condições de trabalho já são precárias há bastante tempo e que a tendência é ficar ainda pior. Ele chama a atenção para o redirecionamento de postos de trabalho com o fechamento das agências, fazendo com que os trabalhadores sejam enviados para outros locais, diversos daqueles para o qual prestaram concurso e, em muitos casos, longe de suas famílias. Além disso, o diretor da Fentect ressalta, mais uma vez, que as ações acabam por minar a visão da população em relação a um serviço que, para ele, é uma responsabilidade social do governo. “A direção e o governo estão afundando essa empresa estatal que sempre teve muita credibilidade junto à população”, afirma.

O corte de custos é, para o secretário geral do Sintect, um argumento inválido, visto que o volume de encomendas cresceu consideravelmente nos últimos anos. Na avaliação de Zodoli, o aumento tem ligação direta com o hábito de compras na internet e, descarta uma queda no número de usuários do serviço, embora admita que as tradicionais cartas não sejam mais tão utilizadas. “Eles dizem que as cartas diminuíram e diminuíram mesmo, mas as encomendas aumentaram muito, o volume triplicou”, relata.

Além disso, ele afirma que uma empresa que gasta milhões em patrocínios esportivos não pode afirmar que está cortando agências e funcionários para reduzir custos, alegando queda no faturamento. “É uma empresa que faturou 21 bilhões de reais e injeta patrocínio em tudo quanto é coisa, mas para os trabalhadores não conseguem sequer comprar uma moto?”, indaga.

Ainda de acordo com a Federação e com o Sintect, a possibilidade de paralisação é grande e deve ser discutida entre os dias 31 de maio e 2 de junho, no Congresso da categoria. “O que nós menos queremos é uma paralisação que afete a população, mas não podemos deixar que o trabalhador seja massacrado”, finaliza o diretor da Fentect.