O mês de abril é dedicado à conscientização sobre o autismo e uma série de ações são promovidas com o intuito de disseminar informações. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) impacta muitas famílias, e algumas começam a buscar auxílio bem antes de obter um diagnóstico preciso. Embora cada caso apresente suas especificidades, com suporte e atendimento especializado é possível socializar e desenvolver o autista,em um trabalho constante e que depende de toda a sociedade. Mãe de uma menina de nove anos e professora da educação infantil, Jane Dziecinny não demorou a perceber que o filho, Gabriel, apresentava diferenças em relação à irmã. Ela conta que notou as dificuldades quando o menino estava com apenas nove meses. Ele não tinha o olhar fixo e chorava muito por estranhar as pessoas ou mudar de rotina.
“Minha filha mais velha tinha nove anos na época e eu observava as diferenças. O Gabriel ficava olhando muito tempo para um lugar fixo sem nada (vazio) e não falava. E a menina falou muito cedo, então eu fui percebendo por essas coisas”, revela.
Embora trabalhasse com crianças, até então Jane não conhecia o TEA. Quando o filho tinha três anos, ela assistiu à palestra com neurologista de Blumenau, que falou sobre as características do autismo.
“E aquilo juntou todos os traços que o meu filho tinha. Cheguei aqui e falei com a creche sobre isso, mas não havia nada a ser feito, porque a educação infantil não faz esse acompanhamento. E é desde pequeno que o transtorno deve ser trabalhado”, destaca.
Mesmo sem um diagnóstico, a mãe levou Gabriel para psicóloga e fonoaudióloga. Após os quatro anos, ele começou a falar. Desde então, a família vem lutando pela sua inclusão na sociedade e para que leve a vida como qualquer criança. O laudo só veio aos cinco anos, autismo no nível 1 (o mais leve), mas os pais não esperaram um parecer médico para buscar o suporte necessário ao desenvolvimento do filho. Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Francisco Solamon, no bairro Santo Antônio, Gabriel Dziecinny Ferreira, hoje com 12 anos, frequenta o sétimo ano. As dificuldades iniciais de concentração e para entender que uma ordem dada em sala de aula para a turma deveria também ser atendida por ele foram superadas. Os ruídos que tornam o cérebro de um autista barulhento e caótico foram dando espaço para pensamentos organizados, para a aprendizagem e para o convívio com colegas, professores e quem mais se aproximar. O TEA não impede que o menino tire notas altas, realize belíssimos trabalhos de artes plásticas e toque acordeon. “Eu toco acordeon e fiz aulas no Femusquinho. Lá eu toquei viola. Também já fiz umas pinturas”, revela Gabriel, que também adora pesquisas na internet e é muito dedicado aos estudos. Ele considera a escola e a turma legais e diz que tem boa relação com colegas e professores. O adolescente conta que no quinto ano havia muito barulho na sala e não conseguia se concentrar, mas que essa fase já passou. Desde a infância, o aluno teve acompanhamento fonoterapêutico, psicólogo e neurológico.

Pequenas mudanças geraram grandes conquistas em sala de aula

Conforme a pedagoga especializada em educação especial, Marilu Schiessl, a escola possui dois alunos com TEA, níveis 1 e 2 (moderado). Ela explica que há, ainda, o autismo nível 3, o mais severo. Na escola também funciona o polo de Atendimento Educacional Especializado (AEE) da região, que promove acompanhamento aos alunos no contra turno escolar. “O Gabriel vem uma vez por semana à minha sala para fazer a complementação de alguma coisa que está faltando. Na sala de aula, muitas vezes, eles (os autistas) não conseguem aprender tudo, devido à estrutura, ao ambiente, ao barulho”, revela a professora. Marilu ressalta que no início, algumas adaptações foram feitas para que o aluno conseguisse aprender o conteúdo. Hoje, ela garante que ele aprendeu a lidar com questões que tinha dificuldade.
“Ele veio para cá com dez anos, no quinto ano. Na escola em que ele estudava, havia ruídos demais, a turma era agitada. Algumas adaptações tiveram que ser feitas naquela época. Por exemplo, a professora tinha que direcionar a fala para ele de forma objetiva, porque quando ela falava para o grupo, ele achava que não era com ele. Outra questão envolvia as provas, que ele não conseguia realizar na sala. Um mínimo ruído ou movimento desconcentrava-o, aí as notas eram baixas. A partir do momento que a gente tirou ele da sala para fazer as provas, ele passou a tirar notas 9/10. Então, era uma coisa simples, mas teve que ser identificada e adaptada”, salienta a especialista.
Com o suporte necessário, o aluno autista pode se desenvolver melhor. Esse apoio vai desde o olhar do professor para identificar alguma dificuldade, até o atendimento especializado. Hoje, Gabriel consegue fazer as provas em sala de aula. Ele aprendeu a lidar com o ambiente, além de melhorar significativamente a interação social.

Sensações de um autista são amplificadas

Gabriel frequenta o ensino regular, é sociável e tem noção de seu diagnóstico | Foto OCP
Marilu Schiessl explica o porquê de um autista precisar de um ambiente mais tranquilo para aprender e socializar. De acordo com a especialista, o cérebro do autista é superexcitado, portanto, as informações do ambiente chegam a ele de forma amplificada.
“Nós conseguimos filtrar os outros ruídos. Por exemplo, você está prestado atenção na minha fala e não está prestando atenção no barulho do computador, nem do ar condicionado, nem no movimento das árvores ou no ruído das cadeiras... Para o autista, essas informações ocorrem ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, muitas vezes eles se desorganizam”, destaca.
Para a mãe do menino, a principal barreira em relação ao TEA é a falta de informação, que impede que muitas famílias auxiliem no desenvolvimento dos filhos desde a primeira infância. “Sei que ele tem condições de, no futuro, ser um engenheiro ou estar na profissão que ele escolher. O Gabriel é ótimo em matemática, desenha bem e está acompanhando a turma. Acho que se não tivéssemos consciência de que ele precisava desse estímulo desde pequeno, buscado dicas de como trabalhar ele em casa, no dia a dia, sempre procurando a socialização – na escola, no mercado, no futebol – talvez ele não estivesse onde está agora”, diz. Segundo Jane, o esposo, Arilson Ferreira, comprou dois acordeons para incentivar o filho a tocar e há três anos os dois praticam juntos, com aulas na Scar. Emocionada, ela conta que no ano passado os pais colocaram um vídeo para explicar ao menino o que é autismo. “Ao final, ele disse ‘é isso que eu tenho’, e foi assim que ele soube e entendeu.”

Dificuldades superadas com rede de apoio

Na rede municipal de ensino, conforme dados obtidos junto à Secretaria de Educação, existem 61 alunos autistas frequentando a escola e 17 frequentando os centros de educação infantil, totalizando 78 estudantes com TEA. Questionada pelo OCP a respeito de qual seria a escola mais indicada ao autista, Marilu Schiessl ressalta que muitos fatores devem ser avaliados, mas é preciso que a unidade se prepare para receber a criança.
Atividades escolares ajudam Gabriel em seu desenvolvimento social | Foto OCP
Além de buscar profissionais capacitados, a família também precisa levar em conta as características do ambiente escolar. “Os pais geralmente buscam para o filho a escola mais próxima a sua residência, mas já existiram casos em que estas instituições estavam muito lotadas. Por esse motivo, a família optou por uma escola menor, com menos alunos, para que não houvesse muito ruído e a criança permanecesse mais tempo tranquila e organizada. Até que eles aprendam a lidar com o ambiente, o ideal é um local mais tranquilo”, orienta, acrescentando que é importante que os professores tenham apoio para lidar com o autista, com informação e suporte. “O Gabriel teve dificuldades, mas superou, com a ajuda da família, de profissionais especializados, da escola, então, existe esperança”, complementa.

Atendimento especializado e gratuito em Jaraguá do Sul

Em Jaraguá do Sul, a AMA (Associação dos Amigos do Autista) presta um atendimento especializado ao autista, através de uma equipe multiprofissional, formada por psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudióloga, assistente social, psicopedagoga, pedagogas e administrativa. Todos os atendimentos oferecidos são gratuitos. Para diretora da entidade, Tania Krause, embora o autismo já esteja mais conhecido, ainda surpreende pela diversidade, pelas características que apresentam e pelo fato de, na maioria das vezes, possuírem aparência totalmente normal e harmoniosa e ao mesmo tempo, um perfil irregular de desenvolvimento, com habilidades impressionantes em algumas áreas, enquanto outras se encontram bastante comprometidas. Segundo a diretora, o Abril Azul chama a atenção sobre o tema, trazendo a consciência da necessidade de políticas públicas voltadas para os autistas. “Como vamos diagnosticar crianças cedo o suficiente para que tenham a intervenção precoce, que é tão importante? Como vamos qualificar profissionais da saúde e da educação? Como vamos alertar os pais para que fiquem atentos aos sintomas? Como vamos acolher e cuidar dos autistas mais velhos, cujos pais já estão idosos? Como recebê-los neste processo de inclusão?”, questiona Tania. Ela explica que esta é uma reflexão que a AMA busca levar para toda sociedade, através do movimento Abril Azul. A entidade procura meios para ser referência no atendimento especializado às pessoas com TEA e suas famílias, contribuindo para lhes assegurar o pleno exercício da cidadania, bem como a difusão do conhecimento sobre o transtorno.

Ações do Abril Azul

Neste ano, a abertura da programação aconteceu no dia 22, com a inauguração do espaço temporário da AMA no Jaraguá do Sul Park Shopping. No local, que funcionará diariamente, os visitantes poderão garantir camisetas, bonés, guarda-chuvas, cartões e convites para o happy hour da campanha. Conforme a presidente da AMA, Leila Modro, a renda ajudará a financiar recursos humanos, atendimentos e o projeto de uma nova sede para a instituição. No dia 7, acontece o 2º Pedágio Azul nas principais ruas jaraguaenses e também, pela primeira vez, em Schroeder e Corupá. Já no domingo, 8, às 8h30, ocorre o Treinão Solidário, na Praça Ângelo Piazera, no Centro. À noite, às 19h, na Igreja Matriz São Sebastião, haverá missa em ação de graças aos autistas. E, na quarta-feira, 18, encerrando a programação, a população é convidada a participar, a partir das 17h, do tradicional Happy Hour da AMA, no Clube Atlético Baependi.