Quem passa pela Getúlio Vargas deve se questionar ao ver o monumento de cerca de 6 metros de altura, próximo ao Mercado Municipal.

Levantar uma interrogação a respeito do propósito dos conflitos armados foi uma das intenções da artista plástica Denyse Zimermann da Silva, isso em 2005, quando foi inaugurada a instalação homenageando os jaraguaenses que atuaram na crise do Suez entre os anos 1950 e 1960.

Com o passar dos anos e o pouco conhecimento da atuação dos “boinas azuis” durante esse episódio histórico, a peça de arte abstrata se fundiu à paisagem, mas segue indagando quem passa - apesar de que uma breve parada para conferir o memorial e seu descritivo resolveria a questão.

Monumento marca a atuação dos jaraguaenses. Foto: Fábio Junkes/OCP News

Ao longo de dez anos, entre 1957 e 1967, o Brasil enviou em torno de 600 soldados ao Oriente Médio para ajudar a manter a paz. A região estava tomada por conflitos bélicos impulsionados pela nacionalização do Canal do Suez pelo Egito - que criou restrições à passagem de um dos pontos estratégicos para a economia mundial: a ligação marítima entre Ásia, Europa e África.

Nesse efetivo brasileiro, estiveram 20 soldados jaraguaenses, que integraram a Primeira Força de Emergência da Organização das Nações Unidas (ONU).

Um deles foi Pedro Araújo, hoje com 81 anos. Ele esteve durante todo ano de 1962 em missão juntamente com outros jaraguaenses, como José Pradi, João Soares e Miro Bayer, relembra. Em média, os militares passavam uma temporada de um ano em missão.

Araújo conta que trabalhava em Joinville, na Tupi, quando foi chamado para atuar no conflito. Ele, que tinha apenas 21 anos, lembra que ia diariamente de trem à cidade vizinha e foi abordado por um dos oficiais do exército.

Uma bateria rigorosa de exames foi feita durante três dias em Joinville. Depois tiveram mais exames e treinamentos em Curitiba e no Rio de Janeiro.

Pedro partiu em outubro de 1961 e voltou para casa em março de 1963. O que mais lembra desse período é das diferenças climáticas, o calor intenso durante o dia, o frio rigoroso a noite e as tempestade de areia que duravam dias.

Em entrevista ao O Correio do Povo em 2003, os boinas azuis Mario Marinho Rubini e José Ferdinando Pradi contaram também das dificuldades de estar em um país estranho, do medo de um possível agravamento do conflito e de contrair doenças como lepra e tuberculose.

Os integrantes do chamado “Batalhão do Suez” chegaram a receber uma das principais condecorações mundiais: o Prêmio Nobel da Paz, em 1988. Mas para muitos deles, faltou reconhecimento em relação ao importante trabalho feito por eles aqui no Brasil.

O Monumento do Suez surgiu justamente da própria motivação dos ex-militares, que na época buscaram o vereador Ronaldo Raulino para marcar essa história. A ideia foi encampada pela Prefeitura.

Inauguração em 2005, reunindo os "boinas azuis", em referência ao uniforme usado pelas Forças da Paz da ONU. Foto: Divulgação/PMJS

Denyse conta que ouviu pessoalmente os relatos de alguns desses jaraguaenses para entender o que esse momento histórico havia significado na vida deles.

Os relatos, segundo a artista, trouxeram uma realidade de dificuldades no trabalho e a sensação do trabalho ter sido em vão, de não ter recebido o devido reconhecimento.

A interrogação, que também evoca ao “S” de Suez e a uma onda do mar, permanece. E em vermelho diante das vidas perdidas nesse e em tantos conflitos econômicos. “Até onde o dinheiro é mais importante que as pessoas?”, questiona Denyse.

Quem foram os jaraguaenses que foram para a missão de paz: Alcido Thiem; Ataliba Eleuterio; Avelino Alberton; Elias Luis Dias; Gerhard Ender; Hartwig Hackbarth; Henrique Reimer; João Lima de Araújo; João Soares; José Fernando Pradi; José Garcia; José Nicoletti; Luis Fusile; Mario Marinho Rubini; Orival Vergini; Pedro de Araújo; Rolf Marquardt; Valdemiro Bayer; Valdemiro Mohr Wilfred Muller e Wilson Antônio Rebelo.

O que é o Canal do Suez?

Inaugurado em 17 de novembro de 1869, o canal é uma via marítima. Ele permite que navios viagem entre a Europa e a Ásia Meridional sem precisar contornar a África, reduzindo assim a distância da viagem marítima entre o continente europeu e a Índia em cerca de 7 mil quilômetros.

O Canal de Suez, com 170 quilômetros, situava-se em território egípcio, onde navios de todas as nações podiam utilizá-lo livremente.

Em 1956, o Egito nacionalizou a Companhia do Canal de Suez, responsável pela administração e utilização do Canal, gerando uma série de conflitos. Esse é um dos canais mais importantes do mundo, sendo o petróleo um dos principais produtos escoados por ele.

 

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