O casarão redondo no Morro do Carvão ocupa um lugar de destaque na história de Jaraguá do Sul pela irreverente e imponente arquitetura, considerada ousada para a época em que foi construída. Com estrutura arredondada, ladeada por mata verde, nos áureos tempos composta também por um florido jardim, a casa de Berta e Heinz Kohlbach, já falecidos, está localizada no coração da cidade e provoca até hoje o imaginário do jaraguaense. Construída entre 1972 e 1974, a Casa Kohlbach ou “casa redonda”, como também é conhecida, tem 1.526,80 metros quadrados. Desde que foi feita, chamou a atenção da população. Seu valor histórico está sendo reconhecido por meio de tombamento do patrimônio histórico, pedido voluntariamente pelos herdeiros.
Casa Kohlbach se diferencia pelo tamanho e formato | Foto Rafael Verch 
Encarada pela família como a “casa da oma”, o imóvel de quatro andares se diferencia pelo tamanho e formato, tendo sido considerada até “giratória” em uma dessas lendas urbanas criadas por quem desconhecia a impossibilidade de a estrutura se mover. “Para nós até é engraçado isso, porque sempre vimos como uma casa normal, a casa da oma. Entendemos o contexto histórico e a curiosidade do pessoal sobre, mas é a casa onde aconteciam as festas de família, onde todos se divertiam com eles”, lembra a neta Kátia Kohlbach, hoje responsável pelo imóvel ao lado dos irmãos Rodolfo e Tissiane.
Kátia Kohlbach, neta do casal que construiu o imóvel, é responsável pela "casa da oma" | Foto Eduardo Montecino/OCP
Foi esse interesse da população, aliado à vontade de preservar o imóvel, que levaram os herdeiros a procurarem o tombamento histórico. “Também pela possibilidade de ver essa casa realmente servindo à comunidade, contando uma história de família e também de Jaraguá do Sul”, acrescenta Kátia. Sem moradores desde 2003, quando a "oma" Berta morreu, a casa ainda hoje é utilizada, principalmente a área de festas. Porém, necessita de reforma, principalmente pela infiltração que já danificou algumas paredes e partes do teto. A ideia dos herdeiros é que, no futuro, o local seja transformado em um museu. “Desta forma, conseguimos fazer dela uma memória histórica para Jaraguá do Sul. Só que, claro, para isso seria necessário um investimento alto”, revela. Por enquanto, esse é só um forte desejo da família.
Sem moradores desde 2003, a casa ainda hoje é utilizada, principalmente a área de festas | Foto Eduardo Montecino/OCP
Gosto por imóveis redondos levou à construção A paixão por imóveis redondos era algo antigo para o casal Kohlbach. A neta Katia Kohlbach conta que soube que uma das primeiras casas em que os avós moraram em Jaraguá do Sul já era redonda. Depois, quando construíram uma nova, fizeram no formato tradicional, mas com a estrutura arredondada no meio. Quando compraram o terreno no Morro do Carvão, chamaram o engenheiro Heino Willy Kude, que assina o projeto da estrutura. Segundo a análise arquitetônica do Patrimônio Histórico de Jaraguá do Sul, a casa possui características comuns de edificações modernistas, entretanto, com um formato fora do convencional. Ela representa um exemplar desse movimento, com características relativas à Alemanha e ao Brasil.
Casa possui características comuns de edificações modernistas, mas com formato fora do convencional | Foto Eduardo Montecino/OCP
Kátia conta que só depois de crescidos os netos perceberam que a casa era diferente das demais. “Para a gente sempre foi só a casa da oma, mas com o passar do tempo fomos ouvindo e vendo que ela era muito diferente e à frente de sua época”, conta. Tudo isso está bem nítido em detalhes como a cozinha, ainda mantida original, com um design futurista – chamada por Kátia na infância de “cozinha dos Jetsons” – e outros elementos como lustres e luminárias. A casa ainda conta com uma lareira no primeiro andar e um chafariz, hoje desativado, no segundo.
Cozinha ainda é mantida original, com um design futurista | Foto Eduardo Montecino/OCP
Outro item muito à frente da época e que chama a atenção é o elevador. Kátia conta que ele foi feito sob medida, para apenas duas pessoas. Atualmente, está desativado. Em cada andar, a porta de acesso era decorada com um papel diferente. “Os dois primeiros eram paisagens e, no terceiro, no salão de festas, havia a pintura de um garçom. Chamávamos ele de Jarbas. Ele segurava uma bandeja, tinha uma cara sisuda, mas simpática, e virou ‘amigo’ da família”, conta ela, rindo das brincadeiras que as crianças faziam. Quatro andares de muitas histórias Basta entrar no imóvel, construído em cima de rochas - uma delas exposta na área da piscina - para perceber sua grandiosidade. São quatro andares formados por mais de 20 cômodos, todos muito bem iluminados pelos janelões de vidro que refletem, a todo o momento, a identidade do casal Kohlbach. Com apenas três quartos, dois de hóspedes e a suíte do casal, a casa foi construída para receber familiares e amigos, como bem lembra a neta, e uma das responsáveis pelo imóvel, Kátia Kohlbach. “Quando eles construíram a casa, os filhos já eram casados. Então era uma casa para duas pessoas. Eles gostavam mesmo de receber as pessoas, por isso todos os cômodos são amplos e com muitos espaços sociais”, conta.
Encontros de senhoras e do clube de bolonistas Az de Ouro aconteceram nas dependências do imóvel | Foto Eduardo Montecino/OCP
Tanto é que muitos encontros de senhoras e do clube de bolonistas Az de Ouro, ligado ao Clube Atlético Baependi, além de inúmeras festas entre amigos e familiares, aconteceram nas dependências do imóvel. A casa também já foi cenário para fotos no centenário de Jaraguá do Sul e integrou o folder turístico em 1976. Kátia lembra que quando os avós eram vivos, a casa passou por uma reforma. O quarto andar foi construído para abrigar a área da piscina aquecida, uma nova cozinha e área social, e a antiga piscina, que ficava nos fundos do imóvel, foi desativada. “Antes a casa aparecia muito porque Jaraguá do Sul era baixa. Hoje já está bem diferente a vista do imóvel e para ele”, diz. Toda a parte da frente do imóvel é arredondada e a parte dos fundos segue como uma casa tradicional. A parte de trás também comporta a garagem e um canil. Realmente, hoje a casa já não pode ser observada como o era há alguns anos, mas continua a ser um ícone de uma época. Na parte interna, praticamente todas as paredes da casa são revestidas por papéis de parede e todos os cômodos contam com itens de decoração originalmente colocados pelo engenheiro e outros trazidos de viagens pelo casal. Além disso, ainda há móveis antigos espalhados e pertences que ajudam a contar a história de Berta e Heinz, que passaram os últimos dias de suas vidas ali dentro. Quando o pai de Kátia herdou o imóvel, decidiu deixá-lo como estava. Apenas retirou alguns móveis. “Algumas coisas também foram mudadas ao longo dos anos, como o carpete de um dos quartos, a banheira da suíte do casal e alguns detalhes de decoração”, diz.
Papéis de parede revestem a parte interna | Foto Eduardo Montecino/OCP
Misturas de referências integram decoração Um projeto arquitetônico assinado por um profissional e elementos que marcam a década de 70 com um “que” moderno. Mas, nos detalhes, a casa Kolbach também mostra muitas referências da família. A cada viagem que faziam, Berta e Heinz Kohlbach traziam quadros, souveniers e outros itens que completavam a decoração do ambiente. Por isso, cada um deles tem particularidades, como um papiro do Egito ao lado de outra versão esculpida em madeira, provavelmente trazido do Rio Grande do Sul.
A cada viagem que faziam, Berta e Heinz Kohlbach  traziam  itens que completavam a decoração do ambiente | Foto Eduardo Montecino/OCP
“Na época, quando foi feita, ela era totalmente coisa de arquiteto. Mas com o decorrer dos anos foram imprimindo a personalidade deles em cada ambiente. Todas as coisas que eles gostavam iam colocando aqui. Deixavam florescer o lado brega, o moderno, não se importavam em misturar tudo isso dentro da casa”, lembra a neta Kátia Kohlbach. Também presente em quase todos os cômodos da casa são os trabalhos manuais feitos pela avó. Quadros bordados com paisagens ocupam algumas paredes e crochês decoram almofadas e até cadeiras. Casal Kohlbach exerceu papel importante na indústria local Naturais da Alemanha no início do século 20, Heinz Rodolfo Kohlbach e Berta Gertrudes Ilse Goetzke Kohlbach casaram em Curitiba e resolveram mudar para Jaraguá do Sul para formar a família. Vieram para cá por volta de 1948, com o primeiro filho, Milton “Neco” Kohlbach. No ano seguinte, tiveram o segundo, Wilson “Bibi” Kohlbach, e iniciaram um pequeno negócio de venda e conserto de rádios, que depois seguiu para a fabricação de dínamos e pequenos geradores. O empreendedorismo do casal ficou conhecido na cidade com a abertura da Kohlbach Motores Elétricos, na década de 1960, considerada uma das principais fabricantes de motores elétricos da América Latina. Heinz era o responsável por atuar na parte técnica e comercial. Ilse, como Berta era chamada pela família, comandava o setor administrativo. Quando o casal decidiu se aposentar, quem assumiu foram os filhos até 1996, quando a empresa foi vendida.
Parte da frente do imóvel é arredondada e a parte dos fundos segue como uma casa tradicional | Foto Rafael Verch/OCP