Se seguissem pelas estradas do país, o grupo de bailarinos que saiu de Paulista, no Pernambuco, demoraria cerca de 42 horas para chegar a Joinville, no Norte de Santa Catarina.

Mais de 3,2 mil quilômetros separavam Júlia Beatriz, Rute Vitória, Duany Evellyn, Ianne Clara, Davi Renan, Camilly, Isis, Larissa Maria, Rebeka e Heloísa dos grandes palcos do Festival de Dança de Joinville.

Separavam. Porque hoje essa distância não apenas não existe mais como diariamente os 10 bailarinos sobem aos palcos espalhados pela Cidade da Dança para mostrar aos joinvilenses e aos milhares de visitantes de todo o país sua “Pernambucanidade”.

A coreografia escolhida pela companhia Nosso Espaço de Dança traz aos palcos do maior festival de dança do mundo, uma mistura de ritmos genuinamente pernambucanos, e toda essa efervescência da cultura pernambucana, dos “leões do Norte”, fluem com naturalidade dos corpos dos pequenos bailarinos.

Com leveza e ao mesmo tempo energia e força, o grupo formado por bailarinos de sete a 19 anos, trazem aos palcos abertos do Festival de Dança, a alma pernambucana através da rica cultura que vai muito além do frevo.

Bailarinos de uma comunidade do município pernambucano, o grupo, ao lado da professora Élide Alves Leal, trabalhou desde dezembro na coreografia e, desde janeiro, as moedas e trocos estavam automaticamente comprometidos com a viagem.

Élide conta que o investimento para participar do festival girou em média entre R$ 800 e R$ 1.000 individualmente para passagens, cerca de R$ 60 para a estadia e ainda há a soma com alimentação e produção de figurino. O grupo, que chegou a Joinville na segunda-feira (16) participará dos 10 dias de festival.

Grupo se prepara para apresentação em palcos abertos do Festival de Dança de Joinville

Mais experiente do grupo, Larissa Maria de Caldas Pinheiro ainda é uma jovem e, aos 19 anos, vê a companhia não como um grupo de bailarinos que ensaia e sobe ao palco juntos, mas como uma família que se conecta quando a música começa a tocar e os corpos começam a se transformar.

“A gente cria algo junto e quando isso acontece, não somos pessoas separadas, é um corpo só dançando”, explica.

Para a bailarina, poder trazer a dança popular pernambucana para a terra do balé clássico faz com que o público tenha uma resposta diferente, sinta o impacto de ver no palco a cultura do Pernambuco que, como ressalta Élide, abriga o Brasil inteiro.

A professora destaca a diversidade cultural do estado e afirma que a coreografia pretendia, desde o começo, mostrar justamente o Pernambuco multicultural, com mistura de ritmos.

“Mostramos que somos, de fato, leões do Norte, que o pernambucano é um povo que sofre muito, mas que tem orgulho do que tem, e o que tem de mais rico é a cultura. Eles [bailarinos] vêm representando esse povo que sofre com a seca, que tem toda sua superação, mas é um povo que canta, dança, festeja e tem orgulho de ser pernambucano”, enfatiza.

A viagem de mais de 3 mil quilômetros trouxe o grupo para se apresentar nos palcos abertos do festival e vir até o festival sem competir não é incômodo para o grupo que vê nas apresentações a oportunidade de mostrar a cultura pernambucana, mas também vê a experiência de toda a vivência dos próximos dias.

Para Isis Cordeiro Alves, de 15 anos, existe uma troca entre um público que quer assistir as apresentações a arte no palco e um grupo que tem orgulho de sua cultura.

“A nossa alegria de dançar em um palco aberto continua a mesma de dançar em um palco fechado. É querer expor, colocar pra fora. É expressividade, é dança, é arte”, diz.

Para o grupo, os dias tem corrido depressa e, apesar de aproveitar cada minuto, os bailarinos desejariam poder parar o relógio e fazer com que o dia se arrastasse lentamente para conseguir sugar ainda mais.

Aos 12 anos e o único menino do grupo, Davi Renan de Almeida e Silva vive o dilema de contar as horas para a audição da Escola Bolshoi, na próxima segunda-feira (23) e o desejo de esticar ao máximo cada minuto.

“Graças a tia Élide estamos mais tranquilos, essa é uma experiência que eu vou levar pra vida, mas cada dia está sendo tipo ‘ah, passa muito rápido’”, lamenta.

O grupo segue se apresentando nos palcos abertos espalhados pela cidade. Neste ano, as apresentações abertas acontecem na Feira da Sapatilha, Praça Nereu Ramos, Shopping Mueller, Garten Shopping, Shopping Cidade das Flores, Hiper Condor, CEU Aventureiro – somente neste sábado (21), das 17h às 18h30 – e em Barra Velha, na Praça Lauro Carneiro de Loyola – neste caso o palco recebe apresentações somente no sábado (21), das 16h às 17h30.

O sonho do Festival de Dança de Joinville

A curiosidade e a vivacidade do olhar da pequena Júlia Beatriz Ramos, de 10 anos, poderia facilmente serem confundidos com a mesma curiosidade e vida dos olhares de todas as outras crianças da idade dela.

Mas, no olhar da bailarina pernambucana que exibe com orgulho o rosto coberto pelo vermelho e amarelo que representam o “leão do Norte”, há mais do que curiosidade, há um sonho que passa diante dos seus olhos.

Aos 10 anos, Júlia Beatriz persegue o sonho de ser bailarina e faz aulas de segunda a sábado, em Paulista (PE)

Com uma década de vida e poucos anos de balé, ela participa, pela primeira vez do Festival de Dança de Joinville, o maior do mundo. E chegar até os palcos e ser aplaudida por milhares de pessoas a cada apresentação não foi fácil.

A dificuldade para viver o sonho foi tanta que nas primeiras palavras que usa para contar a breve história, o olhar curioso se enche de lágrimas enquanto as palavras agradecem e exaltam a força e determinação da mãe, que ficou em Pernambuco, mas que batalhou para que a filha conseguisse embarcar em um avião e desembarcar em Joinville.

Para conseguir levantar o dinheiro das passagens, hospedagem e dos custos com alimentação e figurino, ela vendeu rifas, picolés, geladinhos, laços de cabelo e salada de fruta, conta Júlia que deixa as lágrimas borrarem a maquiagem enquanto lembra dos sacrifícios da mãe.

“Nossas mães são muito fortes e conseguiram realizar esse sonho pra gente porque eu nunca tive ideia de vir pra Joinville e ela disse: filha, você vai, eu consegui isso pra você. Eu sei que ela está com o coração apertado lá, mas muito emocionada e feliz por realizar um sonho meu”, diz.

Amigas e com histórias semelhantes, Rute Vitória e Júlia Beatriz contam com o apoio incondicional das mães na realização do sonho

Ao seu lado, a amiga Rute Vitória Ferreira Silva, de 12 anos, também permite que o choro corra livre enquanto conta que a mãe também teve que trabalhar mais do que o normal para garantir a presença da filha no festival e, mais do que isso, na audição pela qual Rute irá passar na próxima segunda-feira (23) para a Escola Bolshoi.

A matriarca da família, além do trabalho rotineiro, vendeu pano de chão para levantar o valor necessário.

Caçula da casa, Rute não esconde o orgulho da mãe. “Minha mãe se esforça muito, às vezes eu vejo ela chorando e pergunto: por que você está chorando? E ela diz: porque eu fico muito emocionada com você conquistando várias coisas. A minha mãe é uma mulher muito batalhadora, ela é muito forte”, fala.

As duas meninas, que moram na região do conjunto Beira-Mar, no bairro de Janga, em Paulista, seguem as aulas graças a bolsas que permitem as aulas diárias das garotas.

A professora Élide Alves Leal conta que, de segunda a sábado, as meninas passam em torno de quatro horas na academia e, pelo menos duas horas são dedicadas ao ensaio das coreografias.

“Elas são exemplos de que a gente pode tornar um sonho real. Hoje, trazendo as crianças, a gente vê que realiza sonhos e isso faz valer a pena, muito”, ressalta.

Rute Vitória passará por audição para a Escola Bolshoi

Para Rute e Júlia, a experiência do festival será lembrada pelo resto da vida e, com ela, a oportunidade de mostrar a raiz pernambucana ao joinvilense. “Nós somos leões do Norte, é a nossa cultura, a nossa raiz, o que somos”, finaliza Rute.

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