O Dia da Consciência Negra, celebrado nesta segunda-feira (20), reacende anualmente o debate em torno do racismo e das dificuldades enfrentadas para conquistar direitos no Brasil. A data recorda a importância da reflexão sobre a posição dos negros na sociedade, que gerações pós-escravidão ainda enfrentam muitos preconceitos. Segundo o IBGE, entre a população mais pobre do Brasil, três em cada quatro pessoas são negras e, embora mais da metade da população brasileira (54%) seja formada por negros ou pardos, os índices demonstram que a desigualdade em relação às oportunidades é elevada. Para a professora Cleonice de Oliveira Lorencini, 29 anos, autora do projeto de conscientização direcionado à educação infantil, esta deveria ser uma data especial, com foco na celebração da contribuição do negro para o país. No entanto, ainda é necessário aproveitar o momento para debater a importância de promover a igualdade racial e avaliar o cenário atual. A educadora acredita que o tema africanidade, nome dado ao trabalho realizado com crianças, precisa ser discutido por todos, pois não é só uma questão de cor, mas de contribuição em todas as esferas. LEIA MAIS: Pedagoga da Heleodoro Borges desenvolve projeto inédito sobre africanidade com alunas do magistério Para isso, no entanto, é preciso se despir do preconceito primeiro. “Muitas pessoas afirmam: eu não tenho preconceito. Mas, no fundo, ele existe, sim. E para combatê-lo é necessário se posicionar, mostrar autoestima. Durante muito tempo eu alisei meu cabelo. Então, eu também passei por esse processo de aceitação e valorização, até me assumir de verdade. Não sou morena, sou negra. Vejo poucas pessoas tomarem frente nesse assunto”, ressalta. Pedagoga com especialização em supervisão, orientação e gestão escolar, Cleonice acredita que, para haver igualdade, as diferenças precisam se complementar e é preciso oportunizar crescimento a todos. Na sua turma na faculdade, durante os quatro anos de graduação, foi a única aluna negra. Ao dar continuidade aos estudos, havia apenas duas alunas negras no curso de pós-graduação, contando com ela. “Nunca me escondi, busquei o que queria, sou alegre, sou uma negra feliz. Quero que outros negros se sintam assim”, ressalta. Além da falta de oportunidades educacionais — ampliadas por meio do polêmico sistema de quotas —, os negros enfrentam um mercado excludente, como mostra pesquisa IBGE. Os dados, compilados entre 2005 e 2015 e divulgados no ano passado, revelam que o percentual de afrodescendentes universitários saltou de 5,5% para 12,8%. Entretanto, esse crescimento positivo não é igual quando a análise é a ocupação de vagas no mercado formal de trabalho. Mesmo mais graduados, os negros continuam com baixa representatividade nas empresas. Cleonice destaca que se não houvesse racismo e preconceito, as pessoas negras estariam mais incluídas, em todas as camadas sociais . “Onde estão essas pessoas negras que buscam qualificação? Estão escondidas? Se você questionar, as empresas dirão que naquele ambiente não há preconceito, no entanto, em certos locais praticamente não existem funcionários negros”, diz. Nas organizações, a desigualdade entre brancos e negros é enorme. Dados de um estudo do Instituto Ethos, realizado no último ano, indicam que pessoas negras ocupam apenas 6,3% de cargos na gerência e 4,7% no quadro executivo, embora representem mais da metade da população brasileira. Neste cenário, a presença de mulheres negras, em comparação aos homens, é ainda mais desfavorável: elas preenchem apenas 1,6% das posições na gerência e 0,4% no quadro executivo. A situação só se inverte nas vagas de início de carreira ou com baixa exigência de profissional, como em nível de aprendizes (57,5%) e trainees (58,2%). Outro desafio é a disparidade salarial. Ainda que tenha diminuído nos últimos anos, os dados sobre desigualdade de renda continuam a registrar um desequilíbrio considerável entre brancos e negros no Brasil. A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE indica isso. No início de sua série histórica, em 2003, um negro não ganhava nem metade do salário de um branco (48%). Atualmente, pouca coisa melhorou. Os dados atualizados mostram que o número se elevou para 55, 53%. DISSEMINAR A CULTURA NEGRA É DESAFIO PARA PEDAGOGA O projeto Africanidade, desenvolvido por Cleonice de Oliveira Lorencini junto às alunas do 3º ano do magistério da escola Heleodoro Borges, é voltado à educação infantil, mas a professora acredita que deverá se disseminar e atingir também a sociedade. Ao implantá-lo, Cleonice pôde observar, entre outras coisas, o tamanho do preconceito. “Meu pensamento é: vou semear para todos, porque quero que as futuras gerações negras sejam bem-aceitas pela sociedade. Tenho recebido olhares, sorrisos e abraços de crianças negras que se sentiram representadas por esse trabalho. Isso não tem preço”, afirma, emocionada. LEIA MAIS: Para combater preconceito e levar a cultura afro, “Vovó Mafalda” vai percorrer escolas em Jaraguá Um fato que reforça a existência do preconceito, conforme a professora, é que a boneca negra utilizada na contação de histórias do projeto causa medo em algumas crianças. “Por que ter medo de uma boneca negra?”, questiona a educadora.
Muitas crianças que participam do projeto têm medo da boneca negra usada para contação de histórias | Foto Eduardo Montecino/OCP
Os casos de preconceito acontecem de diversas formas e em diferentes esferas. Recentemente, teve grande repercussão nacional o episódio que levou o jornalista William Waack a ser afastado da bancada de um dos telejornais da maior emissora de televisão brasileira. O profissional proferiu uma frase pejorativa que, infelizmente, é muito utilizada no Brasil: “Coisa de preto!”. Estas palavras remetem a algo mal feito ou feito por pessoa inferior e revelam uma cultura passada de geração a geração. “Será que só o negro faz coisa errada? Por que estamos passando isso adiante? Que julgamento é esse?”, questiona Cleonice. Ela ressalta que esse é um dos motivos que levam o debate do Dia da Consciência Negra sempre para a questão do racismo. “Imagina uma criança vendo isso, como fica a mente dela? Isso é preocupante! E o preconceito nem sempre está escancarado, ele pode ser sentido, ele pode estar disfarçado, estar implícito”, revela. Ao longo dos anos, as “piadas de preto” foram decoradas, publicadas e disseminadas sem a menor culpa por parte das pessoas, mesmo sendo ofensivas. No entanto, tais agressões, hoje, são encaradas de outra maneira. “Eu sinto pena de uma pessoa que faz esse tipo de piada, porque ela está tentando mostrar o seu preconceito de uma maneira positiva e engraçada, mas, não é legal ser preconceituoso. Ela está ajudando a criar um trauma em outras pessoas, que pensam: eu sou preto, virei piada, eu sou incapaz... As pessoas não pensam no poder das palavras. Quando uma criança cresce ouvindo isso é nisso que ela acredita, cresce intimidada”, diz a professora. Um dos mais respeitados atores brasileiros, Lázaro Ramos respondeu ao comentário racista de William Waack reproduzindo trechos do texto de Jonathan Oliveira Raymundo em suas redes sociais. O post cita grandes nomes da música, poesia, literatura, esportes, entre outros, todos negros. Também faz alusão à contribuição dos negros nas mais diversas esferas, como matemática, arquitetura, medicina, agricultura e filosofia. “No futuro, gostaria que esse dia (20 de novembro) fosse destinado a aproveitar tudo que os negros trouxeram para o Brasil, ter realmente consciência negra, consciência daquilo que está aí, no cotidiano, mas não valorizamos”, destaca Cleonice. PRECONCEITO FOI BARREIRA AO CHEGAR EM JARAGUÁ  A aposentada Terezinha Cavalcanti, 72 anos, migrou para Jaraguá do Sul em busca de oportunidades de trabalho junto ao marido e a filha. A família veio de Lages e chegou ao município no início da década de 1970. O esposo já conhecia a cidade, pois atuava no futebol amador e, como soube do potencial industrial, resolveu morar na cidade. Ela conta que viu o município crescer, mas que não foi fácil se estabelecer.
Terezinha Cavalcanti veio para Jaraguá do Sul em busca de oportunidades | Foto Eduardo Montecino/OCP
“Quando cheguei aqui, predominava a língua alemã. Não havia imobiliária e tinha preconceito até para alugar uma casa. Fomos numa senhora que tinha um imóvel para alugar e, quando me viu, ela disse que já estava alugado. Daí ela falou para outra “schwarz nein”, que hoje eu entendo que quer dizer “negro não”. Então, a dona da pensão que estávamos, dona Nena, disse que iria tentar resolver. E para ela alugavam, porque ela era branca. Isso foi muito desagradável, porque não conhecíamos ninguém e não conseguíamos um local para morar”, conta a idosa. Mais tarde, a família foi morar na Vila Lenzi, onde, segundo dona Terezinha, havia muitas pessoas negras. Porém, eram pessoas fechadas, que não falavam sobre o preconceito que sofriam. “A gente não tem que se sentir mal, tem que se valorizar. Eu não me intimidei pela cor da minha pele. Eu tenho que buscar meus objetivos, meus sonhos. No início, trabalhava de diarista, passava roupa na pensão, manicure, tudo que conseguia. Levava minha filha junto, que ficava brincando e eu ia trabalhar. O meu sonho era estudar. E foi numa fase bem difícil da minha vida, quando tinha ficado viúva, aos 47 anos, que voltei a estudar”, recorda. Na época, ela trabalhava na escola com serviços gerais, mas sentia que tinha algo mais para passar, queria ampliar o conhecimento. “Eu tinha essa dívida comigo mesma, porque não tive chance lá atrás. Naquele tempo, os pais não gostavam que a gente estudasse. Mas aí eu pensei: agora eu vou. A Ivana (filha) já estava fazendo mestrado e eu fiquei dois anos lá na Heleodoro (Borges). Trabalhei na secretaria de uma escola e depois na biblioteca da Abdon (Batista)”, lembra. A aposentada acredita que o preconceito precisa ser combatido na infância, pois as crianças não nascem racistas. Terezinha acha que a escola tem papel fundamental nesse processo. “Elas (as crianças) já vão dizer em casa o que está errado quando aprenderem na escola, aí as famílias vão sentir que se as crianças estão preocupadas é porque eles (adultos) também devem mudar”, aponta. Hoje, dona Terezinha acredita que as pessoas negras são mais respeitadas porque se posicionam melhor, conseguindo demonstrar o seu valor e dando sua contribuição. “Não sinto obstáculo, porque sou muito franca, sou humilde, porque sem humildade a gente não vai além. E para quem é preconceituoso eu diria para repensar, né? Se não é bom para ti, por que é bom para o outro? Eu vejo assim. A gente precisa é deixar algo de bom na vida”, acredita. LEIA MAIS: - Semana da Consciência Negra abre nesta segunda-feira Coral africano oportuniza estudos culturais às comunidades negra e afrodescendente