Por Dyovana Koiwaski No portão já era possível sentir cheiro de comida caseira sendo preparada no fogão. O horário, antes das 11 horas, pode ser cedo para o almoço, mas havia uma explicação. Os primeiros abrigados pela Casa São José precisam estar ao meio-dia no hospital para visitar familiares que estão internados. O tempo para visita na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital São José, em Jaraguá do Sul, é curto e dividido em três períodos: ao meio-dia, durante a tarde e no começo da noite. Neste meio tempo, resta um longo intervalo para os acompanhantes passarem o dia. Essas horas, que costumam ser de angústia e preocupação, estão ganhando ares mais aconchegantes com a casa de passagem, que começou o atendimento na segunda-feira (10) desta semana. Rosa Ribeiro da Cruz, de 59 anos, e Gilberto Kowalski, 27, chegaram ao local no primeiro dia de funcionamento. Ambos são do município de Três Barras, no Norte catarinense. Rosa acompanha o filho de 26 anos que sofreu uma tentativa de homicídio e foi atingido com um tiro no peito. Ele está internado há 26 dias e não tem expectativa de alta.
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Rosa e Gilberto se conheceram nos corredores do Hospital São José onde compartilham a experiência de acompanhar um parente na UTI | Foto Eduardo Montecino
A situação é parecida para Kowalski, que está cuidando de um primo de 23 anos que sofreu um acidente de moto e teve traumatismo craniano em fevereiro. Até então, eles estavam hospedados em casas de amigos que cederam abrigo. Ao longo desses dias, ambos já dormiram nos corredores do hospital entre os horários de visita por não terem para onde ir. “O pouco dinheiro que tínhamos para se manter também estava acabando. Não sabíamos onde pedir ajuda, até que a assistente social entrou em contato conosco”, conta Rosa. A Casa São José veio como sopro de esperança para eles e para o casal recém instalado no local, Márcia Cristina Siqueira, 51 anos, e Renato Soares Ribeiro, 49. Os pais aguardam a melhora do filho de 17 anos, que estava em um acidente ocorrido no dia 4 deste mês em Campo do Tenente, no Paraná, envolvendo um ônibus escolar e um caminhão. O adolescente teve traumatismo craniano e foi transferido para o Hospital São José por ser referência na área neurocirúrgica.
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Renato Ribeiro e Márcia Siqueira encontram na casa abrigo o apoio que precisam enquanto acompanham o tratamento do filho | Foto Euardo Montecino
A família é natural de Agudos do Sul, também no Paraná, e desde o episódio estava hospedada em hotel. “A cidade é pequena e todo mundo se conhece. Nossos amigos se sensibilizaram e juntaram um valor para nos ajudar com as despesas. Ficar aqui na casa está sendo melhor para nós, porque antes só dormíamos no hotel, não tinha o que fazer lá e passávamos o dia no hospital”, ressalta Márcia. Um ambiente para dividir histórias É com acompanhantes de diferentes lugares que carregam dores semelhantes que a Casa São José está se tornando uma verdadeira residência familiar. Os moradores cozinham, lavam suas roupas, limpam os cômodos e compartilham histórias. Para trazer um pouco de suas casas para Jaraguá, eles também tomam chimarrão e vão à igreja, atividades comuns no dia a dia dos quatro paranaenses. “O lugar ficou muito bom e nos ajuda a distrair e a descansar”, observa Kowalski. Na celebração de Páscoa, que reunirá essas famílias antes desconhecidas, o pensamento estará focado na recuperação de seus parentes. “Estamos o tempo todo na espera de uma notícia positiva, fica difícil até de dormir devido à preocupação”, comenta Rosa. Segundo a assistente operacional da Casa, Gilmara Budaz, a interação entre as famílias está ótima, com conversas e trocas de experiências. A equipe de funcionários, formada por dois homens e duas mulheres que se revezam durante o dia e a noite, está avaliando a demanda de necessidades nessa semana inicial. “Conseguir passar tranquilidade e conforto para essas pessoas é maravilhoso”, frisa Gilmara.  
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Assistente Gilmara Budaz destaca a interação entre as famílias e apoio em um momento de dor e expectativa em relação à saúde de um parente | Foto Eduardo Montecino
Casa de Passagem pode abrigar até 24 pessoas A Casa São José, inaugurada no fim de março, iniciou na segunda-feira (10) o atendimento em Jaraguá do Sul. O espaço, cedido pela família do empresário Pedro Donini, irá receber acompanhantes de pacientes da unidade que vêm de outras cidades e não têm condições financeiras para bancar os custos de hospedagem durante o tratamento. O local oferece assistência gratuita, do abrigo à alimentação, aos acompanhantes de pacientes internados na UTI do Hospital São José, bem como àqueles em situação de revezamento de pacientes internados pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e que necessitam de permanência próxima ao hospital. A iniciativa nasceu da mobilização feita pela Comissão de Voluntários do hospital. A casa fica na rua Guilherme Weege, 114, no Centro da cidade e nas imediações do hospital, e conta com 24 leitos, sendo 16 femininos e oito masculinos. O encaminhamento para o local ocorre por meio de triagem feita pela assistência social do hospital, por busca ativa ou levantamento socioeconômico. A demanda mensal por acolhimento durante a noite é de cerca de 20 pessoas. A intenção da Comissão de Voluntários é que a casa de passagem seja autossustentável e não dependa de investimentos do hospital, necessitando do apoio da comunidade. Para manutenção mensal, é estimado o valor de R$ 20 mil.