A vida da família mudou lá em meados de outubro, quando de repente, até o nome da companheira começou a ficar escondido em algum lugar da memória de Argemiro Sérgio de Oliveira. O nome da companheira já não saía mais com aquela naturalidade de anos e anos de convivência e, um dos nomes mais comuns no Brasil, começou a sumir da cabeça sem mais nem menos. Aos 51 anos e depois de constatar que os lapsos de memória estavam cada vez mais comuns e inexplicáveis, o diagnóstico abriu o chão da família: Argemiro estava com câncer.

Ela, a companheira, não se importava com a memória que se esvaía e já não permitia que o Teresinha Prusok fosse pronunciado com naturalidade pelo companheiro. Mas, a descoberta da doença sim importava. Ela conta que foi tudo de repente e, em menos de 10 dias, ele já estava na mesa de cirurgia, no Hospital São José, em Jaraguá do Sul. Distante da casa da família, em Três Barras, foi na Casa São José que os dois encontraram apoio para uma batalha que iniciou no final de 2017 e segue até hoje.

Há trinta dias consecutivos hospedados na Casa, o casal vê na iniciativa um alento em meio ao tratamento dolorido e desgastante do câncer. Agora, prestes a terminar as sessões de radioterapia, Argemiro e Teresinha se preparam para dar adeus aos voluntários e companheiros que enfrentam também o dia a dia do hospital. Encerrado o ciclo de radioterapia, ele passa a fazer consultas de rotina e sessões de quimioterapia que não exigem uma mudança tão drástica na rotina, permitindo que eles fiquem em casa, na cidade do planalto norte.

O “se sentir em casa” fez toda a diferença nesse período, garante Teresinha, que aos 62 anos, acompanha o companheiro diariamente. “É a mesma coisa que você estar em casa, se sente em casa mesmo. Eles são muito bons e fazem com que a gente se sinta melhor até do que em casa. Além disso, o hospital é muito bom. Essa Casa é uma bênção de Deus porque os de longe ficariam aonde? E é tudo de graça, não é nada pago. Se fosse para pagar não teríamos condições, tanto que a cirurgia e o tratamento dele, foi tudo pelo SUS”, diz. “Não tenho muitas palavras para descrever e agradecer. E nós acabamos nos tornando uma família”, completa Argemiro.

Foi na casa que o casal conheceu Inês Gomes Hotz, de 59 anos. Ela chegou de Rio Negrinho na madrugada de segunda-feira (9), acompanhando o marido, que está internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital São José. Aos 64 anos, Vitor foi diagnosticado com câncer no pâncreas há pouco tempo e, de acordo com Inês, está com metástase.

Para ela, que chegou durante a madrugada e sem lugar para ficar, a Casa São José pode ser considerada um “porto seguro”. “Essa casa vale ouro e eu espero que nunca acabe. Deveria ter uma casa assim perto de cada hospital para que a família possa ser acolhida. Nós queremos ficar perto dos nossos familiares. Além disso, aqui você troca, ouve, conta, parece que alivia, que faz bem. Se a gente não tem essa força, ela vem dos outros e da fé. Parece que você não vai conseguir, mas com essa força a gente consegue ficar em pé”, ressalta.

Lugar de alento e abrigo para momentos difíceis em que a batalha pela vida é travada por familiares no hospital, a Casa São José completa um ano de existência. Nesta terça-feira (10), um café oferecido no local simbolizou o primeiro ano de trabalho de mais de 180 voluntários que se dividem para manter o espaço e oferecer o tratamento tão elogiado pelos hóspedes. Neste período, foram mais de 240 pessoas que passaram e fizeram da Casa São José, abrigo em momentos difíceis. Neste primeiro ano, foram 2.924 refeições servidas graças a doação de 2.834 quilos de alimentos.

Para o presidente da AVSJ (Associação de Voluntários do Hospital São José), Joe Giesler, os números apenas tentam mensurar a importância do local na vida de quem passa por ali. “A gente não consegue mensurar, até olhamos números, mas tem muito sentimento por trás”, enfatiza.

A Casa, que recebe principalmente moradores de cidades do planalto Norte é mantida graças a doações da comunidade e ações organizadas para levantar recursos, como bazares e pedágios. O próximo pedágio solidário já está agendado para acontecer no dia 12 de maio. Além disso, a comunidade doa alimentos diretamente na residência, que fica na rua Guilherme Weege, 114, no Centro de Jaraguá do Sul.

O presidente explica que existem uma série de projetos e ideias sendo pensadas e desenhadas e adianta que uma delas é a criação do Bazar São José, que irá promover oficinas e confecção de artesanato tanto para que as famílias tenham uma atividade na casa, como forma de arrecadação de recursos, com a venda do que for produzido.

Com o desejo de que a Casa seja sempre um lugar de abrigo físico e também emocional, Giesler comemora o primeiro ano de atividades e afirma que as portas estão sempre abertas à comunidade. “A gente espera que o máximo de pessoas possa usufruir. Nosso desejo é minimizar o sofrimento e dar alento a essas pessoas”, finaliza.