O Carnaval está aí e, com ele, além da alegria, sonoridade e toda a folia, surgem também críticas e discussões sobre esse gênero de expressão popular. Entre toda a especulação em volta da data, que promove festas de diversos estilos em todas as regiões do país, chama a atenção o grande número de críticas relacionadas ao evento. Seja pela falta de investimento, ou pela destinação de verba incentivando desfiles, pelas fantasias usadas e pela “pouca” roupa, a polêmica sempre aparece. Tendo sua história difundida entre a Grécia antiga, passando pela Europa e chegando ao Brasil, com grande influência das atividades europeias, o Carnaval tornou-se uma representação popular autêntica da cultura brasileira. Para compreender um pouco mais da carga histórica e cultural da data, além de entender o fundamento de algumas dessas críticas, o jornal OCP entrevistou o mestre em Patrimônio Cultural e Sociedade, que também pesquisa cultura popular, Aldair Nascimento Carvalho. Carvalho explica que o Carnaval como conhecemos hoje em dia não foi o que surgiu no país. Nos primórdios, a festividade seguia mais os moldes dos blocos que desfilam pelas ruas, tendo origem no entrudo português, em que as pessoas jogavam, uma nas outras, água, ovos e farinha. O entrudo, que acontecia antes da Quaresma, tinha seu significado ligado à liberdade, sentido esse que permanece até hoje. “Se formos observar, no Nordeste ainda é feito esse tipo de Carnaval de rua. No Rio de Janeiro e São Paulo, o modelo é grandioso, as escolas vão para a avenida e o Carnaval é uma indústria. E esse é um modelo trazido para cá”, diz, ressaltando que esse é o resultado de uma comunicação de massa. “Hoje os desfiles são o modelo a ser seguido e a forma como eles ocorrem formam uma verdadeira cadeia produtiva. É muito comum cidades grandes exportarem produtos para as cidades pequenas como se aquele fosse o modelo ideal do Carnaval”, enfatiza. Carvalho explica que a irreverência e a extravagância exibida no Carnaval, que ele entende como uma libertação artística em que a pessoa usa o corpo como sua arte, acabam dando a impressão de que tudo é permitido. “Com isso criam a ideia de que há um desperdício de dinheiro público porque se pressupõe que tudo é subsidiado pelo dinheiro público”, diz, relacionando às críticas com o investimento. Entendendo a complexidade do tema, e até concordando com as opiniões distintas de muitos que não foram criados na tradição carnavalesca, Carvalho enfatiza a importância de entender que a festa é parte da cultura popular brasileira, não sendo específica de grupos ou etnias. OCP - O Carnaval é uma data de luta pela promoção da igualdade cultural? Aldair Nascimento Carvalho - Não penso que seja um momento de igualdade cultural. É uma grande produção, mas não como igualdade. Promove uma expressão artística no cotidiano das pessoas, insere a arte no cotidiano comum das pessoas. Associam o Carnaval apenas à cultura negra, ela é extremamente importante nesse contexto, mas muitos que estão lá não estão pensando nisso. Quando penso em samba, penso mais relacionado à cultura negra do que quando penso em Carnaval. Porque vejo mais o Carnaval como extravasar, utilizar a linguagem artística para fazer a minha expressão. Por que o senhor acredita que a massa tem essa visão? Nós produzimos um Carnaval como indústria econômica, e ele é. Só que nós falamos sobre os erros da indústria econômica do Carnaval e não os acertos. Boa parte disso vem do que a imprensa nos mostra, ela traz apenas os números negativos, deixando os positivos - de aluguéis de casa e dinheiro deixado nas cidades litorâneas, por exemplo - de lado. As pessoas que estão de fora e quem não tem uma relação com o Carnaval tem a impressão de descontrole social. A arte nesse momento não pode ser entendida como pão e circo. A expressão genuína do Carnaval é expressão artística das pessoas. Aqui na região, a que o senhor credita tal preconceito? Quando você olha para uma atividade que não é comum ao dia a dia, as pessoas criticam. Se pensou em dizer e se atribuiu o Carnaval apenas aos negros e isso é ruim porque o Carnaval não é só dos negros. O Carnaval é identidade cultural nossa, brasileira. Assim como a Schützenfest é uma festa brasileira com tradições germânicas, o Carnaval também é brasileiro e de todos. Uma das ideias para que essa situação se reverta é transformar o Carnaval em algo da cidade, não assumindo um modelo praticado em outros lugares. Transformar o evento em um elemento cultural e artístico da cidade.