Foco da campanha é apontar para crianças e adolescentes a importância de evitar pequenos atos errados cometidos no dia a dia - Foto: Eduardo Montecino
Foco da campanha é apontar para crianças e adolescentes a importância de evitar pequenos atos errados cometidos no dia a dia - Foto: Eduardo Montecino
O que você tem a ver com a corrupção? A pergunta que intitula uma campanha nacional encabeçada pelo Ministério Público não é novidade, mas continua sendo atual. A coordenação desse tema em âmbito estadual foi passada nesta semana para o promotor de Justiça Ricardo Viviani de Souza, titular da 6ª Promotoria de Justiça da Comarca de Jaraguá do Sul.
No município desde 2011, o promotor trabalha diretamente com defesa da moralidade na administração pública e controle da constitucionalidade, e afirma que aceitou fazer parte da campanha por acreditar na transformação social. “Existe um campo muito fértil para trabalhar e acredito que é preciso mostrar que vale a pena ser honesto para colher frutos individualmente ou coletivamente”, destaca.
A campanha começou no ano de 2004 em Chapecó, idealizada pelo procurador Affonso Ghizzo Neto. A ideia era atingir principalmente as crianças e os adolescentes, mas acabou sensibilizando as diferentes camadas da sociedade e ganhou corpo nacional, recebendo, inclusive, premiação da ONU (União das Nações Unidas) em 2008.
“A campanha é atemporal porque, na verdade, a ideia e o foco dela são contínuos. A ideia base é conscientizar a sociedade em geral a respeito da importância de se pautar de forma honesta e ética nos atos do dia a dia”, explica Souza.
O Correio do Povo - Como a campanha acontece na prática?
Ricardo Viviani de Souza - A campanha age basicamente através de divulgação de material, palestras e conversas. Justamente o contato direto, seja dos promotores de Justiça, seja dos parceiros da campanha, com o público alvo, muitas vezes dentro dos colégios. A campanha distribui mini gibis, cartilhas, DVDs e vamos ver agora como vamos disseminar isso para as unidades de ensino. E tem o boca a boca, por assim dizer, no sentindo de disseminar nesses ambientes a ideia. Nós temos algumas parcerias, eu assumi a campanha ontem [quarta-feira] e nós estamos analisando esses termos de cooperação para buscar eventualmente a reativação de alguma parceira.
Por que o público alvo são crianças e adolescentes?
Eu assumi agora uma ideia que foi criada com esse foco. Na cartilha, o primeiro objetivo é acabar com a impunidade e o principal é “educar e estimular as novas gerações, mediante a construção, em longo prazo, de um Brasil mais justo e sério, destacando-se o papel fundamental de nossas próprias condutas diárias a partir do seguinte princípio: é preciso dar o exemplo”. Não é que a conscientização ou a mudança de atitude da atual geração de adultos não seja importante e relevante. É extremamente importante. E me parece, sinceramente, que vem acontecendo. A gente tem exemplos práticos disso. Tem muitas verdades que a história recente vem derrubando. “Ah, porque não acontece nada com quem tem poder”. Tanto no poder econômico, quanto político, isso tem mudado. Recentemente nós vimos a prisão de um senador da República no exercício do mandato. Nem vou entrar no mérito da questão, mas isso é uma mudança de paradigma. A ideia é aproveitar justamente esse campo fértil que está se criando para fomentar nessa geração que está vindo uma mudança de atitude.
A população ainda faz a ligação da corrupção com política e poder econômico, qual a importância de estender esse debate para as pequenas ações?
Eu acho que é importante a gente entender que quem hoje, e sempre na verdade, exerce o poder político e o econômico em qualquer país, nada mais é do que um integrante da própria sociedade. Nós não podemos entender como nós e eles. Todos somos parte de uma mesma sociedade. Nós estamos acostumados a entender a corrupção, apenas e tão somente, como a corrupção de alto escalão. Mas corrupção, a palavra corrupção, se refere a tentar obter uma vantagem através de algum meio desonesto. A partir do momento que eu, ou qualquer pessoa, tenta ter uma vantagem desonestamente está praticando um ato de corrupção. É evidente que eu não estou aqui querendo comparar os atos de corrupção que hoje, por exemplo, estão em voga, judicialmente falando, em operações como a Lava Jato. É também evidente que a cultura da corrupção nas pequenas coisas é um campo fértil para o surgimento das corrupções maiores. Quanto mais a sociedade se mobiliza e cria a cultura da honestidade e da ética nos atos do dia a dia, menos provável é que dentro dessa sociedade surjam pessoas que, quando ocupantes de algum cargo político, venham praticar atos de corrupção.
Por isso o foco é a conscientização?
A conscientização é importante para mostrar que vale a pena ser honesto. O corrupto pode até ter uma vantagem imediata, mas mais cedo ou mais tarde, seja em um processo judicial, seja socialmente, e até individualmente falando, ele vai ter a resposta negativa referente a esse tipo de atitude. Hoje a gente vê muito judicialmente, mas mesmo socialmente o corrupto colhe os frutos dessa atitude. E outro ponto nessa história é: para que nós, enquanto sociedade, tenhamos legitimidade para cobrar de quem está fazendo errado, temos primeiro que dar o exemplo. Eu tenho legitimidade para cobrar aquilo que eu pratico. Mas tudo isso num âmbito de conscientizar para buscar a mudança dessa cultura. Porque são esses atos, essas atitudes que podem nos trazer resultados.
A conduta de corrupção pode estar ligada a uma sensação de impunidade?
Eu acho que é um dos fatores, mas não é exclusivamente fruto disso. Mas há essa sensação de impunidade e uma aceitação de coisas pequenas que, caso não fossem aceitas, não criariam um campo fértil para as grandes acontecerem. Vai deixar de existir a corrupção? Esse até é o foco da campanha, acabar com impunidade, e eu não vejo isso como utopia. Vou dar um exemplo prático: a própria campanha. Tudo isso nasceu de uma ideia do doutor Affonso [Ghizzo Neto] em 2004, em Chapecó, e ele foi plantando. Não posso falar em nome dele, mas não sei se ele imaginava que aquela ideia fosse atingir o que atingiu. Porque sem dúvida essa campanha faz parte de um sistema de circunstâncias e de inciativas que, inclusive, nos auxiliaram a debater muitos temas e a provocar muita coisa que hoje está acontecendo em termos de combate à impunidade. Não vejo como utopia a gente buscar mudar isso, no sentido de buscar o fim dessa cultura de corrupção dentro da sociedade brasileira.