"Estou atrasando as minhas contas por causa da ‘babaquice’ desse povo aqui. Eu estou há 38 anos na frente de um caminhão. Se você fica parado dois dias, é prejuízo. Eu estou há oito dias carregado. Era para eu ter descarregado, voltado e carregado de novo. É um prejuízo de R$ 300 a R$ 400 por dia. Faz a conta dos dias que eu tô aqui pra ver quanto dá?”, lamentava na tarde desta terça-feira (29) o motorista Vilmar Webber, 63 anos, de Ituporanga, no Vale do Itajaí.

Webber está parado contra sua vontade em um dos piquetes de caminhoneiros na microrregião do Vale do Itapocu há seis dias. Ele pegou uma carga de máquinas em Jaraguá do Sul para ir para Brasília, mas não conseguiu ir muito longe.

“Eu vim para cá no domingo e fui parado na quarta-feira de manhã. Ontem (segunda-feira) falaram que já tinham resolvido lá em Brasília, mas agora parece que tem político envolvido no meio e que não aceita a turma sair. Se baixarem o preço do combustível, quem realmente vai ganhar é o dono do posto, não é o dono do caminhão e nem a empresa que vão ganhar”, reclama o caminhoneiro.

O caminhoneiro explica que os postos de combustíveis praticam dois preços, um na placa (à vista) e outro na bomba (a prazo). Segundo ele, o preço a ser baixado seria o da bomba, não representando uma queda real no preço.

Alguns parados por vontade própria, outros contra, profissionais dividem opiniões a respeito da mobilização nacional | Foto Arquivo OCP News
Alguns parados por vontade própria, outros contra, profissionais dividem opiniões a respeito da mobilização nacional | Foto Arquivo OCP News

“O negócio é deixar a gente trabalhar. Deixar a gente 20, 30 dias parado aqui não vai resolver nada. Eu era para ter descarregado em Brasília na semana passada. Estou com boleto do pneu vencido para pagar", conta.

A paralisação dos caminhoneiros entrou no seu nono dia nesta terça-feira (29). Nos piquetes em Jaraguá do Sul e em Guaramirim, há dezenas de caminhões parados.

Apesar de o governo federal ter anunciado um acordo com dois dos maiores sindicatos da categoria, os participantes da manifestação – alguns deles que, como Webber, reclamam de terem sido coagidos a participar do movimento – aguardam às margens na BR-280, no posto Mime localizado nas proximidades do posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF), e na avenida Prefeito Waldemar Grubba, no posto Zandoná, ao lado do antigo Portal de Jaraguá.

Prejuízo de R$ 500 por dia

Há sete dias parado na barreira, o motorista Ubiraci Rodrigues da Fonseca, 50 anos, carrega uma carga de ferramentas para Piçarras, no Litoral Norte de Santa Catarina. Ele diz que está perdendo cerca de R$ 500 por dia, mas apoia o movimento organizado pelos colegas.

“O pessoal é tudo companheiro, bacana. Todo mundo está se ajudando e contribuindo com um pouco. Se a gente não se ajudar, não vai ter continuação. Do jeito que está, ou a gente se abraça ou para tudo”, enfatiza.

Ubiraci conta que se pudesse sair do piquete iria voltar para a estrada. Mas a sua saída é complicada e pode causar “confusão”.

“Se a gente sair, vai ter que parar em outro lugar. Não adianta sair daqui para parar em outro lugar. Quando cheguei aqui, fui surpreendido. Tanto que eu estou com a roupa do corpo, duas mudas de roupa há uma semana. Não tem muita opção. Se você quiser sair, muita gente vai querer sair. Para não causar confusão, a gente concorda”, explica, ao ressaltar que a roupa dele é lavada e que está recebendo alimentação da organização da manifestação.

A organização confirma o esforço concentrado em oferecer água e alimentação aos caminhoneiros, e para isso tem recebido doações da comunidade. Uma das regras, para evitar ânimos mais exaltados, é a proibição de consumo de bebidas alcoólicas na concentração.

Caminhoneiros esperam mais concessões

Participante ativo do movimento em Jaraguá do Sul, o caminhoneiro Deonosio Klem, 40, está desde o início no piquete formado no posto da avenida Prefeito Waldemar Grubba. Para ele, o governo federal nunca levou a sério o movimento formado pelos caminhoneiros.

Klem lamenta que o governo federal não tenha levado movimento a sério | Foto Arquivo OCP News

Klem concorda com a ideia de que o que foi acertado com os sindicatos em Brasília não representa as reais demandas dos caminhoneiros que estão nas rodovias.

“O rodado levantado não está isento no pedágio. O preço do combustível? Quantos aumentos a gente não teve até agora? Se ele baixar esses R$ 0,46 nem vai voltar ao preço que valia antes”, aponta, ao contar que o preço perdido no frete durante o protesto deve ser recuperado no futuro com os pedidos da categoria.

Deonosio descarta uma trégua no movimento até que os caminhoneiros ganhem cortes reais nos custos do transporte de carga.

“Pagamos quase R$ 4 no litro do diesel S10 e mais de R$ 15 por eixo no pedágio. Se a gente parar pelo que ele nos prometeu, não vai ter valido a pena todo esse esforço. Ele (o presidente Temer) vai ter que ceder porque não tem condições. Muitas vezes, o frete que você ganha na ida não dá para voltar pra casa. O frete está há quantos anos com o mesmo preço? A gente precisa de uma tabela de frete apontando quanto vamos ganhar por Km rodado. Daí, se subir o diesel, sobe o frete também”, pondera.

Fazendo um churrasco com os colegas, o caminhoneiro Rodrigo Ferreira, 32 anos, já contabilizava o décimo dia parado. Ele também acredita que o que o que foi prometido pelo presidente Michel Temer é pouco comparado com as reais necessidades dos motoristas de caminhão.

“Virou bagunça depois da migalha que ele propôs. Ele vai diminuir temporariamente o preço do diesel, mas não viu o quanto ele aumento há dois meses atrás. Aumentou R$ 0,60 e abaixou R$ 0,46. É como naquela história da mulher que apanha do marido. O cara fala que não vai fazer mais por 60 dias e depois vai bater apenas uma vez por mês?”, relativiza.

O motorista acha que após alguns meses o preço do diesel vai voltar ao preço atual e que o governo federal está enrolando os caminhoneiros.

“Eu vim de Minas Gerais com um frete de R$ 1.600. Me adiantaram R$ 1.200. A sorte é que tinha o (cartão) Via Fácil. Senão, iria ter que tirar o dinheiro do bolso. Eu teria que tirar do bolso para vir embora. Você ganha só na ida e o preço do frete não acompanha o gasto. Hoje, o cara só trabalha para comer. E a gente tem que ter uma vida digna”, finaliza.