Por Dyovana Koiwaski | Foto Divulgação Uma onda de notícias sobre casos de tentativas e suicídios ligados ao jogo “Baleia Azul” vem preocupando pais de crianças e adolescentes em todo o Brasil nos últimos dias. Apenas em uma madrugada na semana passada, a Prefeitura de Curitiba teria registrado cinco casos de jovens que tentaram tirar a própria vida por estarem participando do jogo de desafios. Em Santa Catarina, três tentativas são investigadas. Oito Estados já emitiram alertas policiais e de saúde. Tanta repercussão fez com que a Câmara de Deputados aprovasse indicação para que o tema seja discutido em uma reunião na Comissão de Ciência e Tecnologia. Apesar do nome não aparentar riscos, o “Baleia Azul” se caracteriza por lançar 50 desafios ao jogador, como assistir a filmes de terror, acordar de madrugada, desenhar baleias pelo corpo com objetos cortantes, criar inimizades, cortar os lábios, ficar doente e se suicidar na 50ª e última missão. Os jogadores são convidados pelas redes sociais a participar de grupos fechados para receber os comandos do jogo e, caso não os cumpram, costumam sofrer ameaças que se estendem para suas famílias e amigos. Há informações também de que há muitos jovens procurando por conta própria tais organizações para dar início aos desafios. O assunto também ganhou visibilidade pelos casos relacionados à série “13 Reasons Why”, produzida pela Netflix, em que Hannah Baker, uma adolescente de 17 anos, se suicida, mas deixa gravações relatando os motivos e quais as pessoas que de certa forma a mataram. Somente a exibição desta série que relata o mundo adolescente e as violências, veladas ou não, que os mesmos enfrentam, culminou no aumento de 445% na procura pelo Centro de Valorização à Vida (CVV) no país. Dados nacionais levantados pelo Centro de Estudos Sobre Tecnologias da Informação e Comunicação (Cetic) mostram que um em cada dez adolescentes com idade entre 11 e 17 anos acessa conteúdo na internet pesquisandio formas de se ferir e, a cada 20, um procura saber sobre como se suicidar. Para a psiquiatra Luísa Caropreso, os últimos acontecimentos demonstram a necessidade de se conversar com responsabilidade sobre suicídio, oferecendo ajuda e orientando. “Dificilmente, uma criança ou adolescente saudável irá se submeter a esses desafios. Na maioria das vezes, são pessoas que apresentam transtornos psicológicos, sem uma base familiar, com histórico de abuso, abandono, negligência, com pais presos ou doenças que podem motivar a busca pelo suicídio”, ressalta Luísa. Os distúrbios mentais, salienta a psiquiatra, são as maiores causas do atentado contra a própria vida. Mesmo assim, ainda há muitas dúvidas e preconceito em torno do tema que dificultam a procura por auxílio profissional. “Para quem sofre com esses pensamentos, é fundamental recorrer a tratamentos que desenvolvam uma mudança de comportamento psicológico e melhorem a qualidade de vida”, observa. Em relação ao “Baleia Azul”, ela orienta os pais e familiares a impor limites nos seus filhos, principalmente nos conteúdos acessados na internet, monitorar o que eles procuram e fazem nas redes sociais e também acompanhar suas amizades, que podem influenciar nas suas atitudes. Pais devem manter relação aberta e próxima com filhos Com origem nas redes sociais da Rússia, o jogo “Baleia Azul” ganha atenção especial da Comissão da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Jaraguá do Sul. Segundo o presidente Cesar Aguiar, a primeira medida é a prevenção, considerando que a parcela mais suscetível da população com potencial para participar do jogo são os adolescentes que apresentam vulnerabilidade por causa dos transtornos psicológicos. “Trata-se de um problema de saúde pública. Muitas pessoas, infelizmente, ainda não entendem que depressão não é brincadeira. Vivemos em uma sociedade de cobranças, onde os adolescentes se sentem fragilizados e por isso se tornam alvos mais fáceis desses tipos de desafios”, considera o presidente.  
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Presidente de Comissão da OAB, Cesar Aguiar afirma que o jogo também chama a atenção para problemas enfrentados pelos jovens na internet, como bullying e pedofilia | Foto Eduardo Montecino
A comissão busca junto às secretarias de Educação e Saúde do município uma forma de alertar e orientar efetivamente os jovens e os pais, que são os principais agentes neste momento, devendo estar atentos às mudanças de comportamento dos seus filhos. “São eles que devem ter essa aproximação com os jovens para identificar o que está ocorrendo. Se houver continuidade no comportamento mesmo após esse contato, é preciso buscar ajuda na rede de proteção do município”, explica Aguiar. Incitar, induzir ou auxiliar um suicídio é crime previsto por lei. E, no caso do jogo “Baleia Azul”, de acordo com o especialista em direito digital, Raphael Lopes, detectar os mentores do jogo é uma tarefa complicada, já que as mensagens passam por um sistema de comunicação entre vários países. “Além dos responsáveis originais, existem outros adolescentes participando e provocando outros usuários. Esses são identificados mais facilmente através do perfil no Facebook, e-mails ou mensagens via celular”, destaca Lopes. Os procedimentos a serem aplicados primeiramente envolvem uma conversa franca entre os pais da possível vítima do agenciador. Mas, se a situação for além, com ameaças ou exposição pública, a recomendação é procurar uma delegacia para registrar um boletim de ocorrência. O judiciário também pode encontrar o responsável pelo IP do computador de onde os comandos são distribuídos.   Leia mais: Jogo, série, vida real: é preciso falar sobre o suicídio Leia mais: [VÍDEO] Papo aberto com o CVV de Jaraguá do Sul sobre suicídio     As ameaças que os jogadores recebem se não cumprirem os desafios é outro ponto importante. De acordo com Lopes, os administradores acessam os computadores dos adolescentes e coletam dados confidenciais para coagi-los, dizendo que vão mostrar para os seus pais ou expor nas redes sociais. “Eles já estão debilitados e isso se torna apavorante, ainda mais se os mesmos não possuem um relacionamento próximo com os pais. O jovem se vê sem saída e acaba cedendo”, observa o especialista. Para Cesar Aguiar, o “Baleia Azul” também serve para chamar a atenção da sociedade a outros problemas que os jovens enfrentam na internet, como pedofilia, sequestro e bullying. “A questão reforça a consciência que os pais devem ter em relação às atitudes do filho, verificando o que ele compartilha e com quem conversa para manter a sua segurança. Estes atos também facilitam os pais a não ficarem paranoicos achando que os filhos estão participando do jogo só porque estão na internet, o acompanhamento deve ser contínuo”, avalia Lopes. Veja algumas dicas para ter um bom relacionamento com seu filho: • Respeite seu filho sempre • Não bata • Não humilhe em casa nem na frente de outras pessoas • Não fique repetindo seus defeitos • Não grite, converse • Não seja tirano • Não seja ditador • Acompanhe a vida dele. Conheça e receba bem os seus amigos • Sejam amigos nas redes sociais. Mas não o faça pagar mico • Incentive a prática de esportes, sempre • Acompanhe a rotina escolar. Converse com professores. Vá às reuniões, sempre. O auxilie nas dificuldades. Não subestime e nem cobre perfeição • Adolescentes se afastam de pais que brigam o tempo todo, xingam e só criticam. E procuram as ruas, e o que as ruas oferecem? Se a relação com seu filho está desgastada, comece com uma boa conversa. Peçam perdão e permitam-se recomeçar uma nova relação Como procurar ajuda • CVV (Centro de Valorização à Vida) Telefones: (47) 3275-1144 (Jaraguá do Sul) / 141 (telefone 24 horas para todo o país) pelo Site ou pelo Facebook: CVV – Centro de Valorização à Vida • Capsi (Centro de Atenção Psicossocial) O Capsi (Centro de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil) fica na rua José Emmendoerfer, 1.837, bairro Jaraguá Esquerdo. Telefone: 3370-6595 • Caps 2 (Centro de Atenção Psicossocial) O Caps 2 fica na rua Araquari, 287, no bairro Ilha da Figueira. Telefone: 3276-0604