Os detalhes em azul e vermelho destacam a ave em meio a mata verde. A bela foto feita em uma área de mata de Jaraguá do Sul seria mais uma, não fosse a espécie registrada: a jacutinga (Aburria jacutinga), uma ave rara e ameaçada de extinção.

O avistamento de duas aves dessa espécie foi feito pelas observadoras Elenice Griboski e Juliana Hiendlmayer, acompanhadas pelo biólogo Leandro Corrêa.

O grupo seguiu relatos feitos por moradores e encontrou a jacutinga em uma área de floresta bem preservada e de difícil acesso no município. A localização é mantida em segredo por conta da caça predatória ainda ser uma realidade.

Segundo o biólogo Leandro Corrêa, a espécie era abundante em toda a região e hoje está criticamente ameaçada de extinção no Estado. O declínio das populações de jacutinga se deu pela perda de habitat ao longo de décadas e principalmente pela caça desenfreada.

Jacutinga fotografada em área preservada de Jaraguá do Sul | Foto Leandro Corrêa

Cartas de Fritz Müller relatavam o abate das jacutingas

Segundo os observadores, há relatos, por exemplo, do naturalista Fritz Müller em uma de suas cartas a Charles Darwin, descrevendo o abate de aproximadamente 50 mil jacutingas nas baixadas do Rio Itajaí em poucas semanas no inverno de 1866.

O biólogo da Fujama (Fundação Jaraguaense de Meio Ambiente), Gilberto Ademar Duwe, destaca que esse avistamento é comemorado e ressalta que a jacutinga se tornou uma espécie tão rara por conta da caça.

A proibição, fiscalização e também o trabalho de conscientização ambiental, pontua, vão aos poucos abrindo espaço para que espécies possam voltar a habitar as matas da região. Ele cita também o avistamento recente de uma anta, animal que não se via mais, em Jaraguá do Sul.

A jacutinga tem importância ambiental, pois se alimenta principalmente de frutos de várias espécies nativas, especialmente do palmito-juçara. Por incluir uma grande quantidade e variedade de frutos em sua dieta, ela desempenha um importante papel na dispersão de sementes e na manutenção e renovação de florestas, completa o biólogo Leandro Correa.

Atualmente a espécie conta com uma densidade baixa e está restrita a poucos lugares bem preservados e afastados da presença humana.

O registro exalta mais do que a beleza da ave em si. “Traz esperança sobre a existência de uma população escassa na região e que precisa ser melhor conhecida para que ações possam ser tomadas no sentido de garantir a sua sobrevivência”, comentam as observadoras de aves.

Juliana (E), Elenice e Leandro, que fizeram o avistamento | Foto Leandro Corrêa

Segundo o Atlas da Mata Atlântica, produzido pela Fundação SOS Mata Atlântica, Jaraguá do Sul possui 23.185 hectares de Mata Atlântica. O município ainda mantém 43,78% da Mata Atlântica original. O biólogo da Fujama salienta que o surgimento desses animais ameaçados de extinção podem ser consideradas como um indicador de qualidade ambiental da nossa região.

A jacutinga

A beleza da ave chama muito a atenção. É de grande porte e pesa até 1,5 quilo, podendo medir pouco mais de 70 centímetros do bico até a ponta da cauda.

A jacutinga apresenta coloração predominantemente negra, com algumas partes brancas como uma grande mancha sobre a asa, no contorno dos olhos, e uma espécie de “cabeleira grisalha” no alto da cabeça. Tem bico azulado e uma barbela, mais ou menos como a dos perus, de coloração vermelha e azul.

Observar aves

Observar e registrar aves é uma atividade que tem ganhado adeptos. É chamada de muitos nomes: observação de aves, birdwatching e até passarinhar.

Juliana e Elenice Griboski são adeptas dessa atividade e compartilham os registros da fauna local por meio da página Aves de Jaraguá do Sul.

Áreas de mata proporcionam experiência | Foto Elenice Griboski

O hobby acabou se tornando uma verdadeira paixão e tem papel importante na ecologia, pois tem contribuído para catalogar aves através de fotos e gravações de vocalizações das espécies.

“Acreditamos que a observação de aves é uma ótima ferramenta de conscientização, já que cria um vínculo entre as pessoas e o meio ambiente. Isso desperta a consciência sobre alguns temas como desmatamento, tráfico de animais silvestres e até mesmo sobre o descarte correto de resíduos sólidos e reciclagem, visto que a poluição ambiental também interfere nos ambientes onde vivem estes animais”, descreve Juliana.

 

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