Próprio de uma democracia que resiste e insiste em avançar, vivenciamos mais uma semana marcada por manifestações de toda ordem e dimensão territorial. Entre reivindicações legítimas, questionáveis e ilegítimas, o que nos fica é a persistente sensação de país estagnado e sem direção. Mesmo que a voz do povo já ecoe mais retumbante, o quadro geral da nação, muito longe do status varonil, é de paralisia econômica, falência financeira e degradação das instituições.

Vêm-nos, então, inquietantes indagações: oras, se o povo já se faz ouvir com maior ressonância, porque não saímos dessa inércia? Porque somos tão passivos ao establishment? Tão tolerantes às injustiças sociais? Obviamente teríamos muitas respostas, mas, substanciamos três: i) a voz do povo ecoa sim, mas ainda se mostra desorganizada e, notadamente, polarizada; ii) não há uma unidade coletiva de atitude e direção, ou seja, a massa popular fala alto, mas não diz muita coisa; iii) o povo não tem consciência de seu poder. Sua submissão catequizada pelo histórico “discurso da inferioridade latino-americana” o faz manso.

Talvez resida aqui a origem de nossa acanhada chama nacionalista. Nossa Constituição Federal estabelece, propositalmente em seu Art. 1º, Parágrafo único, que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Se o brasileiro compreendesse e absorvesse, de fato, a dimensão de poder que esse Parágrafo único lhe confere, as manifestações não se limitariam às redes sociais e pontuais passeatas. Elas seriam, objetivamente, de “ocupação”.

Não está se sugerindo aqui, o termo “ocupação” enquanto apologia à violência, mas, no sentido de inquisição popular legítima da ordem e justiça. Não há como negar que as redes sociais tenham intensificado, realmente, a voz do cidadão. Por outro lado, é utópico pensar que este mesmo canal, tenha desencadeado ações e mobilizações objetivas e efetivas capazes de promover mudanças estruturais significativas. Ao tempo que concede voz, também confina o cidadão a protestar em seu sofá.

Temos daí, a vultosa classe dos frívolos manifestantes. Aqueles pedantes disseminadores de conteúdos anônimos ou de fontes apócrifas que, além de configurar postura ilícita, não ajudam em nada. Assim, quanto mais polarizada vai se tornando a sociedade, tanto mais desfocada das prioridades. Enquanto se reivindica tudo, não se reivindica nada.

E nessa condição, nos tornamos politicamente míopes e vamos digerindo, passivamente, contradições irracionais como: subtrair remuneração de professores ao invés de ascendê-los à classe mais bem remunerada; consentir um governo de transição questionável e ineficaz, ao invés de eleições diretas imediatas; aumentar impostos ao invés de reduzir o tamanho do Estado. Enfim, fechando a rima, a balbúrdia é intensa, mas não damos destaque ao que faria a diferença.