Em tempos de polarização geopolítica, onde temor e liberdade testam a República, nos aproximamos de uma data histórica. Dia 15 de novembro comemoraremos a proclamação de nossa República. Evasivo seria aqui, discorrer sobre “República” e seu sentido, sem recorrer a Platão, mesmo que en passant. Então, anestesiado pela ficção, viajei na máquina do tempo e desembarquei na Grécia, por volta do ano 380 a.C. Imaginava encontrar o brilhante pupilo de Sócrates num banco de uma ágora ateniense, contemplativo, ao cair da tarde. Sentaria ao seu lado, falaria sobre minha origem, nação, sociedade e tal. Ele, por sua vez, curioso como lhe é peculiar, me indagaria sobre o panorama por aqui. Ousaria responder ao tom de Elis made by Rita Lee: “a coisa tá ficando russa, muita patrulha, muita bagunça, o muro começou a pichar, tem sempre um aiatolá pra atolar Alá. Tá cada vez mais down the high society”. E, sabendo ser um homem de viagens e conhecedor do mundo, quem sabe até o desafiaria a uma jornada tupiniquim ao longínquo futuro do ano 2016. Mas encontrei-o em assembleia na casa de Polemarco, o senhor da guerra. Lá estavam então meu prodigioso amigo Platão, seus dois irmãos Glauco e Adimanto, seu reverenciado mestre Sócrates, Nicérato, Lísias, Trasímaco e o velho Céfalo. Como pode-se ver, nenhum néscio, a não ser este errante vindo do futuro, diga-se de passagem. Para meu deleite, versavam sobre política, justiça, virtude, ética e sociedade. Dialogavam, à luz da filosofia, acerca de um inédito e revolucionário tratado. A relevante e atemporal obra intitulada “A República” era compartilhada e dialeticamente analisada. Acomodado a uma distância respeitosa, eu aguardava ansioso o encerramento da assembleia para uma breve consulta à obra recém-publicada. Assim feito, passei a correr os olhos pelo rico texto. Ligeiramente dei-me conta de que não se tratava de uma obra para ser simplesmente lida, mas, estudada, refletida e absorvida. Ao folheá-la, buscava por vezes no conteúdo, alguma relação projetada para minha realidade de 2016. Alguns postulados fixaram-se em minha mente: “O verdadeiro governante não está destinado pela natureza a considerar o seu próprio bem, mas o bem dos governados”. Senti o primeiro golpe. Então, outro postulado prendeu-me a atenção: “até mesmo a democracia se arruína por excesso de democracia. Seu princípio básico é o direito igual para todos”. Mais um cruzado no baço. Só mais uma olhadela e: “enquanto os filósofos não forem reis ou os reis e príncipes não possuírem o espírito e a força da filosofia, de forma que a sabedoria e a liderança política se encontrem num mesmo homem, as cidades e a raça humana, jamais se libertarão do mal”. Nocaute. Exortei Platão a ficar em seu “passado” e retornei a meu “futuro”. Futuro?