De acordo com estatísticas internacionais, México e Brasil são os maiores produtores de novelas do mundo. Sem a pretensão de tecer julgamentos ou críticas acerca desse produto televisivo, tampouco condenar seus milhões de apreciadores, impossível não considerar que certa dosagem de nossa identidade, ou brasilidade cultural, seja estampada pela teledramaturgia. Um meio de conteúdo facilmente absorvido pela massa, por explorar o que há tempo se tornou clichê, enredos como casos amorosos, conflitos familiares, sociais, o herói e o vilão. Somamos a isso, a participação exacerbada da televisão no cotidiano do brasileiro, tendo esta, assumido a tarefa de compensar o déficit histórico de instrução e cultura, lacuna derivada da limitada disponibilidade de boa literatura, teatro, ópera ou cinema. Soa-me pífio o argumento sustentado por produtores, de que os enredos, e aqui incluo nosso BBB, têm o propósito de retratarem e discutirem temas da realidade. Penso que produtos televisivos desse padrão, se configuram meramente como espaços ou meios de exposição, ou seja, os temas relevantes e delicados que envolvem pessoas e sociedade são apresentados sim, porém, longe de serem debatidos ou de provocarem discussões com a profundidade que merecem. Então, dessa equação, presumo que tenhamos como produto, em tese, uma massa crítica “padrão novela”. A propósito, o que está se exibindo atualmente em nosso Congresso Nacional é digno de uma autêntica novela. Recordemos os últimos capítulos: Carta de Temer à Dilma, cujo roteiro aparece os personagens principais Dilma, a vítima e Cunha, o vilão. Segue um próximo capítulo com os coadjuvantes Kátia, Serra e a taça de vinho, retratando a ousadia machista e a reação feminista. No capítulo seguinte, os deputados partem para a ignorância inspirados “par le modèle Zidane”. Passada a turbulência, surge o herói paladino Fachin e, na sequência, a cena inusitada de Delcídio propondo a fuga de Cerveró. Agora, um capítulo um tanto monótono, vem exibindo Dilma e Temer buscando acertar ponteiros. E para quebrar a monotonia do telespectador, eis que surge o “santo” ofuscando o brilho do herói paladino, anunciando que não há alma viva mais honesta no Brasil, no mundo, quiçá no céu. O que pretendo diante do exposto, é instigar a seguinte reflexão: Se de um lado temos o gênero novela que, por sua peculiaridade, não estimula discussões profundas e ações concretas de transformação social; E de outro lado temos a massa crítica “padrão novela”, passiva e ávida pelo próximo capítulo; Não lhe parece estrategicamente proposital que o enredo da trama “Congresso Nacional” nos seja exibida em capítulos, seguindo fielmente os ingredientes do gênero novela?