Embora seja tão ignorado, tão rejeitado, tão incompreendido, temos o dia dele. O Dia Nacional do Livro é celebrado hoje, 29 de outubro, em todo Brasil. Se podemos nos orgulhar de ter, de acordo com a Unesco, uma das 10 maiores Bibliotecas Nacionais do mundo (Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro), considerada a maior da América Latina, devemos lamentar, paradoxalmente, em exibir, nessa mesma dimensão, um dos piores índices de leitura. Apesar da tímida melhora verificada nos últimos cinco anos, pesquisas recentes apontam que ainda 44% dos brasileiros não leem e 30% nunca compraram um livro. Portanto, não temos o que comemorar nesse dia. O imortal José Mindlin, cuja compulsão patológica pelos livros a denominava de “loucura mansa”, sabiamente nos deixou um alerta providencial: “precisamos mostrar para a juventude que a leitura é uma fonte de prazer, e não uma obrigação. A maior parte da população vive com salário-mínimo, não tem condições de comprar livros. Num país como o nosso, ter um livro não deveria ser condição de leitura. Deveríamos disponibilizar milhares de bibliotecas por todo país. Então, de forma figurada, se o Brasil fosse um livro, o capítulo “cidadania” estaria redigido em mal traçadas linhas. O capítulo “liberdade” soaria sombrio e inacabado. O capítulo “alienação” seria o mais objetivo, cristalino e conclusivo. Não se concebe cidadania com acesso limitado a informação e conhecimento. Não se concebe liberdade, se a essência desta repousa na carga de conhecimento que acumulamos, significando que, quanto menos lemos menos livres somos. Por decorrência teremos, como produto desta equação, um reconhecido grau de alienação social. Portanto, não vislumbro outro caminho senão pelo livro que nos livre. Nos livre do mundo diminuto, nos livre do vácuo cultural, nos livre da caverna platônica do conhecimento, nos livre da servidão dogmática, nos livre da miopia política, nos livre do viver lacônico, em suma, nos livre do niilismo existencial. Então, se o Brasil fosse um livro de conteúdo relevante, com um povo sedento por leitura, teríamos uma Nação mais cidadã e mais livre. Mas percebe-se que é uma estrada de mão dupla, onde o Estado ideal deveria prover o irrestrito acesso ao livro, cabendo ao povo, por sua vez, o ávido desejo em absorvê-lo, já que o livro por si só, é um mero objeto decorativo, bonito, diga-se de passagem. A propósito, como bem nos preconiza o saudoso Mario Quintana, “livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. Portanto, nossa maior Biblioteca Nacional da América Latina e uma das dez do mundo, não nos significa, ainda, grande coisa. No dia de hoje ainda não temos o que comemorar. Enfim, se o Brasil fosse um livro, seria “um amigo que espera”.