A híbrida cultura brasileira, enquanto legado da colonização, forjou e institucionalizou, historicamente, o fenômeno Carnaval como uma de suas principais manifestações. Embora a convicção e retórica ortodoxa conservadora insistam em evidenciar sua origem pagã, cunhando pechas como folia, orgia, depravação, malandragem e promiscuidade, seu retrato contemporâneo vem revelando outra imagem, que aos pouco tem suplantado essa visão reducionista. No desfile apoteótico dessa realidade, enquanto a “ala” fiel fundamentalista, tendo como adereços suas carolices e beatices retrógradas, resiste empacada, proferindo o antagonismo, dicotomia e distância entre o sagrado e o profano, o “bloco” clerical segue em frente surpreendendo e já admitindo moderada tolerância e aproximação. Se isso configura uma estratégia da Cúria como forma de não perder ovelhas, ou então uma prova demonstrativa de que a Igreja deve evoluir com a sociedade, prefiro a associação das duas possibilidades. A escola paulista Unidos de Vila Maria, ao homenagear a padroeira do Brasil, lembrando em seu enredo os 300 anos de sua aparição no Rio Paraíba do Sul – SP, com aprovação do Clero, quer nos proclamar, imaculadamente, que o profano e o sagrado podem desfilar de mãos dadas.  Quer nos convencer de que, na diversidade carnavalesca, há espaço para acolher e respeitar todas as crenças. Quer nos desvendar, ainda, o milagre do samba em romaria. Transmite-nos, ademais, a mensagem de que o Carnaval, em sua essência, representa um campo de polissemia social com sentido extra racional, onde a única realidade é a fantasia. A Igreja, por sua vez, quer nos demonstrar, com essa iluminada parceria, que sua missão máxima evangelizadora deve ultrapassar fronteiras, e chegar “a toda criatura e em todo mundo” (Mc 16.15). Particularmente, vejo no Carnaval o meio mais didático e democrático de transmitir história e cultura a um povo tão carente de tais conhecimentos, estrategicamente alienado pelo “establishment”. A propósito, com a benção da padroeira, as Sodoma e Gomorra bradadas pela beatice, não estão personificadas na Nego Quirido catarinense, na Anhembi paulista, tampouco na Sapucaí carioca. Sequer possam estar representadas nos trios elétricos do Axé e Olodum baianos, no Boi-bumbá amazonense, nos bonecos e Frevo pernambucanos, ou no Bumba-meu-boi maranhense. Essas entidades são verdadeiros “cases” de organização, gestão, geração de empregos, rendas e alegria. Portanto, não serão punidas por isso. Aos que buscam apontar o dedo para as pecaminosas Sodoma e Gomorra, recomenda-se redirecionarem o olhar. As encontrarão visivelmente incorporadas no profano e palaciano carnaval de Brasília. Esse sim merece excomunhão.