As cortinas do palco 2017 abrem-se vagarosamente. A primeira peça em exibição, intitulada “violência”, vem retratar a facínora realidade do sistema prisional brasileiro, para uma plateia atemorizada, mas, ao mesmo tempo, extasiada pela curiosidade mórbida. Contracenando frente a frente, em notável atuação, lá estão os antagônicos protagonistas: de um lado o “Estado de direito impotente” e, de outro, o “sedicioso estado paralelo”, na mais original representação de seus papéis. Do conjunto da obra, difícil saber o que se desnuda mais impactante: a barbarização da cena em si, ou a atroz reação da plateia exprimindo o sinal negativo do polegar romano. Portanto, é desalentador, mas a violência coabita, em essência, as duas dimensões desse trágico espetáculo: os protagonistas e os espectadores. Então, isso nos prova que figuramos uma mesma condição natural, ou, uma mesma tragédia humana, quando o enredo é a “violência”. No dito popular, “estamos no mesmo barco”. Nessa perspectiva, o que nos separa é, tão somente, o espaço físico, aberto ou fechado, livre ou encarcerado. Assim, dessa tensão natural que envolve a decisão de qual desses espaços habitar, revelam-se, “face to face”, dois novos personagens importantes da peça: nosso próprio “arbítrio ou juízo”, e o temível e soberano “Leviatã” de Thomas Hobbes, determinando, sob coerção, um contrato de convivência contendo as regras do jogo e tornando, só assim, a vida em sociedade possível. Figurativamente “Leviatã”, já nem tão temido, representa aqui, nosso Estado soberano de direito. Enquanto isso, buscando algum fundamento sobre a tese de que a natureza humana é desorganizada, conflitante e sempre à espreita de alguém para execrar, encontramos em Victor Hugo, no seu clássico “Os Miseráveis”, a convicção de que, “se as almas fossem visíveis aos olhos, veríamos distintamente essa estranha coisa de cada um dos indivíduos da espécie humana corresponder a alguma das espécies da criação animal; e poderíamos reconhecer facilmente esta verdade, observada apenas pelos filósofos, de que, desde a ostra até a águia, desde o porco até o tigre, todos os animais estão no homem, e cada um deles está em um homem. Algumas vezes, vários deles ao mesmo tempo”. Vemos que identificar o âmago da violência é uma tarefa complexa, porém, alguns fatores contribuem significativamente para promovê-la. Desprovido de ideologia, ouso evidenciar dois: o nível de “desigualdade” e o voraz “progresso”. Oportuno lembrar que, os pensadores Adorno e Horkheimer já nos advertiam que “a maldição do progresso irrefreável é a irrefreável regressão”. Nessa lógica, “o auge da civilização é sua própria aniquilação”. Enfim, o que nos provoca desassossego, a propósito, é o fato de que, a dinâmica desses dois referidos fatores é intrinsecamente regida pelo Estado soberano, hoje um tanto robusto e inoperante. Logo, como conclusão da peça, fica-nos a indagação: quem punirá esse Leviatã?