Por Ana Paula Gonçalves  Estudante do curso técnico em produção e design de moda do IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina), Daiane Wisznieiwski, 28 anos, vai se formar em agosto. Para ela, essa é mais uma etapa vencida com louvor. Para a instituição, é a conclusão de uma impactante jornada na formação de pessoas surdas. Embora não tenha sido a primeira não ouvinte a iniciar um curso na instituição, Daiane é a pioneira em muitos aspectos, inclusive por completar a formação. Surda desde o nascimento, Daiane frequentou uma escola especial até os 11 anos e depois continuou em escola regular, sem repetir um ano. Contando com a leitura labial e alguma ajuda, sem um intérprete, ela sempre viu o estudo como algo difícil. Há seis anos morando em Jaraguá do Sul, foi no Senai, no primeiro curso de modelagem e vestuário que frequentou, que ela teve auxílio de um intérprete da língua dos sinais (Libras) pela primeira vez. Hoje, sua jornada no IFSC mostra que, com as condições básicas, é possível às pessoas portadoras de necessidades específicas almejarem um futuro mais promissor.
Integração da turma e da equipe de profissionais deu a Daiane o contexto ideal para desenvolver suas habilidades como profissional de moda | Foto Eduardo Montecino
Integração da turma e da equipe de profissionais deu a Daiane o contexto ideal para desenvolver suas habilidades como profissional de moda | Foto Eduardo Montecino
Auxiliada pela a intérprete Kelly Pinho, umas das que atua na instituição e que acompanhou a estudante ao longo dos anos de formação, Daiane revela que o início não foi fácil. “Tudo começou quando meu marido me inscreveu no curso sem eu saber, porque acreditou no meu potencial para a carreira da moda. No dia da prova (processo seletivo), fui auxiliada por uma intérprete e fiquei muito feliz por ter sido aprovada”, revela. Entretanto, Daiane não tinha vontade de estudar. Quando passou a frequentar as aulas do curso, não havia intérprete, o que a desestimulou ainda mais. “Os professores explicavam e eu não entendia nada. Então, eu praticamente não tinha conhecimento nenhum, eu vinha só para ganhar presença mesmo”, conta. Esse foi o cenário entre outubro e dezembro de 2015. Depois, houve greve e os alunos retornaram às aulas em fevereiro do ano seguinte. “Quando voltei, havia duas intérpretes e aí fiquei muito feliz. As duas revezavam de 20 em 20 minutos. Ficou tudo mais claro, passei a entender tudo, foi maravilhoso”, salienta. Dificuldades com alinguagem superadas Ao longo do curso, os desafios foram aparecendo. Conforme explica a professora Talita Borges, o fato de não haver intérprete no começo complicou o processo de aprendizagem para Daiane. “Quando o IFSC trouxe esses profissionais, nós, professores, acabamos entendendo que não é tão fácil quanto parecem esses dois mundos, de ouvinte e não ouvinte. Foi preciso adaptar o nosso ensino, tanto para compreender a aluna, quanto para que ela nos compreendesse”, aponta. A produção de texto, segundo a professora, era uma grande dificuldade. “Eu escrevia no quadro, era traduzido para a língua dos sinais, mas se eu pedisse para ela ler o que estava no quadro não tinha sentido, porque existem algumas preposições e artigos que a gente coloca para dar sentido à frase, que ela pega palavras isoladas”, explica. Foi então que os professores e a aluna optaram por fazer vídeos para auxiliar o processo, com as seguintes etapas: tradução para a língua dos sinais; compreensão do contexto pela aluna; a estudante falar em vídeo para si mesma com os sinais; assistir o vídeo e transcrever. “Optamos, também, por não traduzir essa linguagem própria que ela descrevia no vídeo para o português correto, porque a gente percebia que, mesmo lendo o significado que ela trazia, era bem o que precisávamos que ela trouxesse, mas na linguagem dela”, destaca Talita.
Daiane no desfile de formatura na Scar | Foto Divulgação
Daiane (esquerda) em desfile na Scar | Foto Divulgação
Faltava apenas o contexto ideal para o entendimento acontecer, e as barreiras foram sendo superadas, uma a uma. “Quando estamos aprendendo uma língua, acabamos fazendo associações que às vezes o surdo não consegue. Na linguagem de moda, temos expressões muito usadas, como ‘tendência’ e ‘fashion’, que não fazem parte do mundo deles”, diz. Ao entender os termos, Daiane criou um sinal para cada um deles, pois a estrutura linguística da língua dos sinais e do português é diferente. Inclusão é possível “Aprendemos muito com ela e verificamos a necessidade de que essas ferramentas sejam mais desenvolvidas por nós, proporcionando mais facilidade nesse processo. A Daiane é muito inteligente e capta muito bem, além de ter uma afinidade com a moda. Mas, outros alunos podem ter mais dificuldade”, pontua a professora Talita Borges. A coordenadora do Núcleo de Apoio a Pessoas com Necessidades Específicas (Napne) do IFSC - Câmpus Jaraguá do Sul, Veridiane Pinto Ribeiro, ressalta que toda a instituição abraçou a causa. “Temos sete alunos com necessidades específicas, surdos ou com baixa visão, há também um caso de síndrome de Aspenger no ensino médio. A Daiane nos mostrou que não é somente ter um intérprete, mas sobre a necessidade de todo um suporte e envolvimento”, garante a coordenadora. Veridiane tece elogios ao desenvolvimento da estudante. “A Daiane é um orgulho para nós, porque ela não está se formando ‘do jeito que deu’, ela está se formando com excelência. Ela realmente pode ir para o mercado de trabalho porque está plenamente capacitada”, defende. No último dia 9, durante o desfile realizado na Scar para conclusão do curso, Daiane apresentou sua coleção com quatro looks. No momento de mostrar suas criações, a aluna optou por um desfile sem música, em silêncio, mostrando ao público que ser surda não significa não ter capacidade de evoluir como profissional e em outros aspectos de sua vida. “Futuramente, quero ter meu próprio atelier”, projeta a futura técnica em moda.