Foto Arquivo OCP News
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O desenvolvimento econômico da região de Jaraguá do Sul está em risco, no curto e longo prazo, e o problema não é – apenas - infraestrutura viária precária.

Estudos técnicos mostram que a oferta de água para a produção industrial, agrícola e abastecimento da população nos rios da região já está deficitária hoje.

Os dados preocupantes sobre a condição atual da oferta de água na região, em quantidade e qualidade, foram apresentados nesta quarta-feira (17) pela equipe do Comitê Itapocu (Comitê de Gerenciamento Bacia Hidrográfica do Rio Itapocu) durante a assembleia da Associação de Câmaras e Vereadores do Vale do Itapocu (Avevi), em Jaraguá do Sul.

O geógrafo, mestre em desenvolvimento regional e consultor técnico do Comitê Itapocu, Felipe Augusto H. D. de Oliveira, aponta que em toda a bacia hidrográfica da região – que abrange cinco municípios inteiros e mais parte de sete cidades -, apenas uma pequena porção, localizada em áreas montanhosas, cabeceiras de rio, florestas e reservas naturais, tem água suficiente para a demanda local.

Nessas áreas, situadas mais ao norte e oeste da bacia – pegando municípios como Corupá, São Bento do Sul e Schroeder – a concentração urbana não é muito grande e há água disponível para o uso dessas regiões, como para agricultura, principalmente o cultivo da banana, e para atender à pouca densidade populacional.

No entanto, de forma praticamente abrupta, a partir de um certo ponto dos rios que passam por esses locais – Rio Novo, Rio Vermelho e Rio Itapocuzinho, por exemplo -, chegando até a área mais urbana da bacia, como grande parte de Jaraguá do Sul, a demanda de água já não é mais atendida.

“O rio não está conseguindo atender tudo o que precisaria para os usos que a gente tem hoje, ou seja, de agricultura, de indústria, de abastecimento e assim por diante. Então, essa é uma situação muito preocupante”, alerta o especialista.

Agricultura tem maior demanda de água na região

Conforme mostram os dados levantados em estudo, a maior necessidade de água na região hoje se concentra em três principais finalidades: agricultura – principalmente a cultura irrigada do arroz -, abastecimento urbano – com Samae, Casan e Serrana fazendo a distribuição -, e aquicultura.

Contrariando o senso comum, a indústria não figura como uma das principais consumidoras de água, pondera o geógrafo. O setor produtivo é o quarto em maior uso de água, na bacia, não chegando a 10% da demanda total.

Como comparação, as três principais atividades de consumo juntas são responsáveis por mais de 80% do uso da água (veja quadro).

No entanto, a atividade industrial, assim como as outras demandas, já sofre atualmente com a impossibilidade de expansão e crescimento, seja para ampliação de empresas já instaladas como também para comportar novas indústrias.

Na região do Rio Jaraguá, que passa por bairros como Barra do Rio Cerro, Oliveira explica que a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico Sustentável (SDS) já não concede mais autorização para instalação de empresas no local, pois o rio já está com sua capacidade de atendimento esgotada.

Outro exemplo apontado pelo geógrafo é o caso da região do bairro Vila Nova de Joinville, na região do Rio Piraí. A Casan, que faz parte do Comitê Itapocu, teve dificuldade para conseguir aumentar a captação de água na localidade também pela situação deficitária do rio.

 Usos da água na bacia do Itapocu

  • Irrigação: 51,76%
  • Abastecimento público: 23,76%
  • Aquicultura: 12,16%
  • Industrial: 7,85%
  • Mineração: 4,41%
  • Criação animal: 0,06%
  • Outros usos: 0,01%
Fonte: Comitê Itapocu

Equilíbrio entre preservação e desenvolvimento 

Esse equilíbrio entre a preservação dos rios para manter e até aumentar a qualidade e quantidade de água e também prover a demanda, seja das atividades econômicas e, prioritariamente, o consumo humano, é o principal objetivo do estudo e plano desenvolvido com recursos do governo estadual e apoio do Comitê Itapocu e Amvali (Associação dos Municípios do Vale do Itapocu).

Intitulado Plano de Recursos Hídricos da Bacia do Rio Itapocu, o documento funciona de forma muito parecida a dos planos diretores dos municípios.

“Ele traz os dados de quanto de água tem [na região], quanto a gente usa e quanto a gente vai precisar no futuro, dependendo de como queremos nos desenvolver”, explica Oliveira.

Além de propor medidas para aumentar as reservas de água, como exigir cisternas em novas construções, e projetos para preservação do recurso – como programas de proteção de mananciais e revitalização de mata ciliar -, Oliveira destaca como fundamental a mudança cultural por meio da educação ambiental.

A redução no uso convencional de água por pessoa – como da água da torneira, chuveiros e mangueiras -, é importante, mas é apenas uma parte menor em relação a todo o cenário.

Oliveira aponta para a falta de consciência das pessoas sobre seu consumo, já que cada produto comprado precisou de uma quantidade considerável de água em sua fabricação.

Como a maior parte da água da região é utilizada na agricultura, diz o geógrafo, as pessoas entendem quem não são responsáveis diretamente por esse consumo de água, no entanto, elas consomem o arroz.

“O Brasil é um pais riquíssimo, mas um terço do que produz de alimento ele joga fora, se estou jogando fora um terço do que produzi, estou jogando fora um terço da água que utilizei para fazer aquele arroz, aquela carne, e isso vale para tudo”, pontua.

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