O atendimento logo que aparecem os primeiros sintomas de um acidente vascular cerebral (AVC) é fator determinante na reabilitação do paciente. No entanto, reconhecer os sinais que o corpo dá, que podem se apresentar juntos ou separadamente, nem sempre é fácil. Uma dor de cabeça forte e repentina, dificuldade para falar, dormência num braço ou perna, são sintomas de uma série de doenças. Por isso, muitas vezes, são desconsiderados por pacientes ou familiares. E é aí que mora o perigo. Ao chegar na casa da mãe, Odete Adrovandi, de 56 anos, na terça-feira (10), Andriele Jagelsky, 26, encontrou-a passando mal. Segundo a filha, a dona de casa estava de bruços em cima da mesa e não respondia aos seus estímulos. “Coloquei a mão na nuca e vi que estava gelada. Fui pegar um copo de água e ela começou a vomitar. Vi que a perna estava um pouco para trás e liguei para o Corpo de Bombeiros. Eles vieram e ali ela já não respondeu para apertar a mão nem andar e fomos para o hospital”, revela. Após o atendimento, Andriele recebeu o diagnóstico de que a mãe tinha tido um AVC isquêmico e desde então ela está internada no Hospital São José. Apesar de ser hipertensa e ter colesterol elevado, Odete não havia passado por nenhum evento grave envolvendo a saúde. Conforme a filha, a mãe tem uma rotina bem ativa e não para o dia inteiro. “A única reclamação foi de uma dor na nuca e ela estava até fazendo massagens, porque achávamos que era por conta do estresse, já que ela cuidava da minha avó acamada. O que disseram (no hospital) é que foi uma placa de gordura que se deslocou e obstruiu uma artéria do cérebro”, aponta. Andriele está otimista, pois a mãe reage bem ao tratamento e realiza exercícios para se reabilitar, apesar da voz ainda não ter retornado. “Ela fica feliz quando consegue fazer uma atividade, dá uma risadinha. Aos poucos, está reagindo”, diz. A filha já tinha ouvido algo sobre o AVC, mas não sabia a fundo o que a doença representava. No Hospital São José, uma equipe multidisciplinar atua na Unidade de AVC, cujas atividades tiveram início em 2015, quando o HSJ se credenciou para oferecer o serviço, e é destinada a reabilitação de pacientes com “derrame”. De acordo com a enfermeira da unidade, Camilla Monticelli, o grupo é formado por profissionais de saúde com foco na evolução da reabilitação do paciente. A equipe multidisciplinar é composta por um médico neurologista coordenador, um enfermeiro, 12 técnicos de enfermagem, terapeuta ocupacional, farmacêutica, fisioterapeuta, assistente social, nutricionista, fonoaudióloga e psicóloga. A Unidade de AVC é referência para a região e, além de Jaraguá do Sul, abrange os municípios de Guaramirim, Schroeder, Corupá e Massaranduba.    
Equipe multidisciplinar do Hospital São José atende a pacientes que se recuperam de um AVC | Foto Eduardo Montecino/OCP
  Números do AVC na unidade do HSJ 2015 – Total de 123 pacientes internados para identificação da doença. Desses, 91 foram diagnosticados com AVC e 32 com outras causas neurológicas. Do total, 67 do sexo feminino e 56 do masculino, a maioria da faixa etária entre 70 e 80 anos (77 pacientes de Jaraguá do Sul). 2016 – Total de 234 pacientes internados para identificação da doença. Desses, 181 foram diagnosticados com AVC e 53 com outras causas neurológicas. Do total, 116 do sexo feminino e 118 do masculino, a maioria da faixa etária entre 70 e 80 anos (139 pacientes de Jaraguá do Sul). 2017 - Total de 223 pacientes internados para identificação até o mês de setembro. O que é? O AVC é um déficit neurológico que atinge o sistema nervoso e a circulação cerebral, provocando redução do oxigênio nas células dessa área, capaz de causar até a morte delas. A melhor denominação é ‘acidente vascular encefálico’, termo que abrange outras estruturas do sistema nervoso central que se encontram dentro da caixa craniana. Divido em dois tipos, o derrame é classificado em isquêmico e hemorrágico. O isquêmico é mais comum em idosos. É o mais popular, e atinge 80% das vítimas de acidentes vasculares. Nesses casos, os sintomas costumam ser de perda repentina da força muscular e da visão, sentir dormência no rosto e membros, dificuldade para falar, tonturas, formigamento em um dos lados do corpo e alteração de memória. O acidente vascular hemorrágico é quando há um sangramento local por causa do rompimento de uma artéria ou vaso sanguíneo por conta da hipertensão arterial, traumatismos ou problemas na coagulação no sangue.  Menos comum, atinge 20% das vítimas do derrame e acontece também em pessoas mais jovens. Causas, sintomas e prevenção A terapeuta ocupacional Luanne Decker esclarece que o AVC, popularmente chamado de derrame, ocorre devido a alguma doença cérebro-vascular e está relacionado à hipertensão, pressão alta, diabetes, colesterol, álcool, tabagismo, anticoncepcional, sedentarismo, obesidade, estresse, entre outros fatores. A profissional relata que a doença pode se manifestar de duas formas: isquêmica e hemorrágica. No primeiro caso, ocorre a obstrução de um vaso sanguíneo e, no segundo, esse vaso se rompe. “Aí, determinada área do cérebro deixa de receber sangue e oxigênio e acaba morrendo, acarretando sequelas para o corpo, dependendo da área do cérebro que foi atingida”, explica. Além das causas modificáveis, que são estes fatores de risco (hipertensão, diabetes, sedentarismo...), existem as não modificáveis, que são hereditariedade, raça, sexo e idade. “Então, a prevenção ocorre para os fatores de risco, sendo a hipertensão um dos principais fatores que desencadeiam o AVC”, enfatiza a profissional. No Hospital São José, os números de 2015 e 2016 indicam que a faixa etária mais atingida está entre os 70 a 80 anos. Mas, apesar do derrame ainda impactar os idosos de forma mais recorrente, hoje, vem acometendo pessoas mais jovens. “Temos aqui uma paciente de 28 anos internada devido a um AVC. Até por conta desses fatores já citados, como tabagismo, obesidade, sedentarismo e estresse é que as pessoas mais jovens estão na zona de risco”, aponta o fisioterapeuta Carlos Roberto Campregher. Entre os sintomas para se observar, explica o fisioterapeuta, um dos principais é a dor de cabeça não comum quando, por mais que a pessoa já tenha enxaqueca, é acometida por uma dor súbita e de forte intensidade. “Também já começam a aparecer sinais como desvio de rima (boca torta), perde a força do braço, perde a força da perna, pode ficar com a visão turva, visão embaçada, alteração de sensibilidade, não consegue sentir mais o membro, não sente a mão se pega algum objeto, a fala arrastada ou pode haver dificuldade de sair a voz, confusão mental, por isso às vezes a pessoa consegue falar, mas não consegue entender e nem dar uma resposta para alguma pergunta”, explica Campregher. “O principal também é saber que nem sempre vem tudo junto, às vezes aparece apenas um sintoma isolado. Pode ser só um braço que está pesado, há um formigamento no braço e isso já é um indicativo de que pode ser um AVC, que precisa ser identificado e tratado o mais rápido possível. Nosso coordenador sempre fala de uma expressão da neurologia que diz que tempo é cérebro”, complementa Luanne. O problema é que muitos pacientes, ao sentirem algum sintoma isolado, como o braço dormente, vão protelando a sua ida ao hospital. Com o passar dos dias, o quadro vai se agravando e as sequelas podem ser bem maiores. Por isso, a equipe multidisciplinar orienta que, diante da suspeita, deve-se ir ao hospital investigar. Além do AVC, existe o AIT, que é o ataque isquêmico transitório, onde um sintoma pode se normalizar em pouco tempo. Isso porque o vaso sanguíneo que foi obstruído volta ao normal e o sangue volta a circular. “Mas, isso já é um sinal de que algo pior pode estar por vir. E, muitas vezes, mesmo que o paciente tenha se recuperado rapidamente, ele é internado para investigação”, salienta Luanne. Com a reabilitação da sequela, explica a enfermeira Camilla, é preciso também que se descubra a causa, pois tratando a causa evita-se que o paciente retorne com outro evento. “É importante reconhecer os sintomas do AVC para buscar atendimento o quanto antes. Assim, é possível obter um diagnóstico preciso e já iniciar a reabilitação. O sucesso dos pacientes que conseguem ter as atividades diárias mais independentes depois depende de que a reabilitação comece o mais rápido possível”, conclui.   Programação da Semana até o Dia Mundial do AVC As atividades voltadas à Semana de Combate e Prevenção têm início neste sábado (21), com o Simpósio AVC e a Multidisciplinaridade, das 8 às 16h, no auditório do Sesi. O evento tem como público-alvo os profissionais de saúde e os acadêmicos dos vários cursos de saúde. No dia 29, haverá caminhada, realizada em parceria com o Sesi, envolvendo colaboradores, pacientes, familiares e comunidade em geral, às 9h. O trajeto inicia na praça Ângelo Piazera, seguindo pela av. Marechal Deodoro até a rua Domingos Rodrigues da Nova, retornando ao ponto de partida pela rua Reinoldo Rau. Neste dia, das 8h às 12h, o Sesi fará uma ação comunitária, verificando peso, altura e repassando informações. Missa em ação de graças ao combate do AVC, às 19h, na Igreja Matriz São Sebastião.   Fatores de risco De acordo com a literatura médica, são várias as causas que podem provocar os derrames. Segundo a Rede Brasil AVC, algumas condições facilitam a sua ocorrência, o que significa que ter o controle da saúde e manter hábitos saudáveis é capaz de evitar o acidente vascular cerebral. Confira os fatores de risco:
  • Hipertensão arterial
  • Colesterol elevado
  • Diabetes
  • Tabagismo
  • Histórico Familiar
  • Ingestão de álcool e drogas
  • Sedentarismo
  • Anticoncepcional
  • Obesidade
  Dicas de como prevenir um AVC:
  • Mudanças no estilo de vida por meio da redução do consumo de sal, gorduras e álcool.
  • Adoção de hábitos alimentares saudáveis, com ingestão de mais vegetais: frutas, legumes e verduras com redução das carnes e gemas de ovos.
  • Realização de atividade física regular.
  • Controle do peso corporal.
  • Tratamento e controle da hipertensão arterial, das doenças do coração e do diabetes.
  • Largar o cigarro.
  • Tratamento de dislipidemias (presença de níveis elevados de lipídios: moléculas gordurosas)