O celular desperta às 4h40 e às 4h41 mensagens de bom dia estão nos grupos de amigos. Apesar do horário, a jaraguaense Rafaella Schalinski, 17 anos, acorda e já trata de pegar o celular para se comunicar com seus contatos. Grudada no celular praticamente 24 horas por dia, a jovem integra a Geração Z, também conhecida como centennials, formada por jovens nascidos entre o fim de 1990 e começo dos anos 2000. De Youtube a Snapchat, passando pelo Instagram e uma rápida olhada no Facebook, e, claro, muitas trocas de mensagens via WhatsApp. No dia a dia de Rafaella, ficar longe do celular e rede sociais é algo raro, que só é trocado por boas conversas pessoalmente ou nas refeições de família – já que os pais estipularam a regra de que na cozinha, o celular não entra. “Se estou com eles em alguma festa ou viagem, até deixo o celular de lado, mas às vezes dá aquela ‘coçada’ para dar uma olhada”, revela. Viciada declarada pelo aparelho, ela faz parte do grupo de jovens que vê nas redes sociais uma das melhores formas de comunicação e “usa tudo o que tem direito”, se referindo às funcionalidades dos aplicativos. A cada dois minutos, Rafaella dá uma olhada básica no celular e, segundo ela mesma, 20 minutos é o máximo que consegue ficar sem mexer no aparelho. Como estuda em Blumenau, mas mora em Jaraguá do Sul, ela admite que o uso do smartphone estreita a comunicação com os amigos e família. “Meus amigos moram em diferentes cidades e dependemos disso para manter a comunicação diária. Faz com que eu me sinta mais perto deles”, defende. Além do WhatsApp, um aplicativo que usa praticamente o dia todo é o Snapchat. “O legal dele é que posso mandar fotos que não postaria em nenhum outro aplicativo, fotos ‘zoadas’. É algo que você não espera um retorno, a pessoa vê e responde se quer, sem compromisso. Já o Instagram pede uma imagem bonitinha”, avalia. Já quando o assunto é a maior rede social do mundo, o Facebook, Rafaella diz considerar a ferramenta algo dispensável em seu dia a dia. Em geral, a rede só tem espaço na rotina à noite. “Acho que hoje o Facebook está forte na questão de levantar discussões, campanhas. É o lugar onde mais temos voz. Se eu sair na rua sozinha não vai fazer a diferença, mas nele é possível fazer uma movimentação positiva”, acredita. Um exemplo apontado é a campanha #EuNãoMereçoSerEstuprada, que tomou as redes sociais há dois anos e lutava contra a cultura do estupro no País. A relação da Geração Z com a internet virou alvo de pesquisa realizada pela McCann, divulgada pelo G1 na última semana. A pesquisa observou o comportamento de jovens e atualizou o status dessa galera de “nativos digitais” para “sempre disponível”. Após ouvir 33 mil pessoas de 18 países, com idade de 16 a 70 anos – no Brasil foram 1.811 entrevistados –, a pesquisa chegou a conclusão que para os centennials separar a vida real da digital faz pouco sentido. Em média, jovens da Geração Z enviam 206 mensagens por dia no Brasil enquanto a média mundial de troca de mensagens por dia é 120. Já os nascidos nos anos 80, pontua a pesquisa, mandam só 73 mensagens. Os centennials brasileiros, “perdem” apenas para os espanhóis, mas estão à frente de americanos, chineses e russos, por exemplo. Quando se trata do Snapchat, considerada a rede social preferida dessa geração, eles dizem responder até 40 snaps em um minuto. GRAFICO Equilíbrio na hora de usar o smartphone Na rotina do estudante Lucas Schmitt Reguelim, 19 anos, o smartphone surgiu como uma ferramenta para substituir o computador. “Ele otimiza a absorção de informações. Agora, dificilmente ligo o computador para procurar uma notícia. O acesso maior é pelo celular mesmo”, afirma. Estudante de Publicidade e Propaganda e usuário fiel do Instagram, sua rede social favorita, Reguelim sabe da importância do uso do celular e seus aplicativos durante o dia a dia, mas também diz não ser “dependente” dele. “Acho que o uso do aparelho e internet é muito presente na vida do pessoal da minha faixa etária porque é uma geração que cresceu tendo acesso a ela. Por isso acredito que seja natural que nós tenhamos um envolvimento significativo com isso, mas não sou favorável do uso excessivo por crianças, por exemplo”, diz.
Lucas Reguelim (E) acha que as redes sociais ajudam a debater temas relevantes (Fotos: Eduardo Montecino)
Lucas Reguelim (E) acha que as redes sociais ajudam a debater temas relevantes (Fotos: Eduardo Montecino)
Ele defende que as redes sociais são muito úteis, mas que não são necessidades básicas do ser humano. Entre as que mais usa, estão o Instagram – apaixonado por fotografia, gosta de acompanhar o trabalho de profissionais por meio desse aplicativo – e também o WhatsApp, que facilita a comunicação instantânea. Lucas Reguelim também faz parte da parcela de jovens que utilizam as redes para discutir e propor reflexões acerca de temas de interesse coletivo. De acordo com a pesquisa realizada pela McCann, os jovens entre 16 e 20 anos são os que mais se preocupam com questões raciais (30%), feminismo (17%), direitos LGBT (14%) e transgêneros (6%). “A internet se tornou um meio de comunicação de massa bem poderoso e é uma ferramenta que podemos e devemos usar para defender as causas que a gente acredita, esses debates estão presentes e precisamos levar essa discussão para o maior número de pessoas”, defende. Ambiente digital é parte do mundo real Diante da hiperconectividade do mundo moderno, uma mudança profunda de comportamento começa a marcar as novas gerações. Mais do que um ambiente de novas possibilidades, a Geração Z vê o universo digital como uma parte do mundo em que vivem. Para eles, faz pouco sentido separar a vida real da digital – a internet está em todo o lugar e, por isso, as interações online ganham uma dimensão tão grande quanto as vividas offline. De acordo com a doutora em psicologia e professora da Univali, Marina Corbeta Benedet, hoje não existem aspectos da vida humana que não sejam afetados pela tecnologia. Neste contexto, as relações se alteram: com o mundo, com o tempo, com o espaço e entre as pessoas. “Nascer e viver neste contexto coloca essa geração em outro território, outro tempo – imediatismo, multifuncionalidade, dispersividade e fragmentação são condições comuns as gerações que nasceram com as tecnologias atuais”, explica. E esta percepção está presente nos âmagos mais profundos da vida dos jovens. Prova disso é que, segundo a pesquisa, 25% dos centennials já receberam “nudes” ou trocaram “sexting”. Em resumo, mesmo as relações mais íntimas agora passam pelo ambiente digital e, diferente da conotação que teriam no passado, essas práticas são vistas como uma forma mais transparente de se viver no ambiente virtual. Esta forma de pensar é reflexo da ampliação contínua do contato humano, proporcionada pelas ferramentas móveis. “Temos um apagamento das fronteiras entre o público e o privado, a possibilidade de estar em diferentes lugares ao mesmo tempo e a dialética do estar presente, mas não estar presente”, afirma Marina, apontando algumas das perspectivas trazidas pelo mundo moderno. Neste cenário, o que precisa ser debatido não é necessariamente a sexualização (que já acontece de maneira massiva na televisão, por exemplo), mas distinguir os espaços público e privado, defende a psicóloga. “Aos pais, sempre digo que falem das suas experiências e que procurem validar e reconhecer as experiências dos filhos.  Demonstrar o impacto do uso dessas ferramentas é primordial”, aconselha. Tecnologia traz novas formas de expressão Os jovens que integram a Geração Z também estão criando novas formas de se expressar no ambiente digital. Segundo a pesquisa, ferramentas como a música e os emojis estão entre as preferências deste público – é a busca do jovem por uma linguagem própria, rápida e feita sob medida para os aparelhos móveis. Não é a toa que os centennials são o grupo que menos se sente à vontade escrevendo. Outro aspecto importante está ligado à percepção que estes jovens têm da vida adulta. De acordo com a pesquisa publicada pelo portal G1, hoje a maturidade está muito mais relacionada a desempenhar certas tarefas, do que necessariamente a alcançar uma fase da vida. É comportar-se como adulto que importa. Mas e quando esse comportamento passa a ser ditado pelo que os outros pensam ou como os outros reagem? Não é segredo que, em alguns casos, a pressão social destes ambientes pode ser extremamente nociva. Conforme Marina, tudo depende de como as pessoas encaram esses espaços. “A questão da aprovação pelos outros já era presente antes mesmo das novas tecnologias com seus likes. O reconhecimento pelo outro nos forma, nos constitui, então sempre existirá. O cuidado é apenas para que isso não nos impeça de encontrar outras formas de reconhecimento, vindas por outros caminhos: um papo ‘ao vivo’, um elogio de alguém que consideramos importante, um bom dia quando chegamos ao trabalho”, afirma a doutora em psicologia. “Então por si só não podemos considerar a tecnologia como boa ou ruim, isso depende do uso que faremos dela”, salienta Marina. Como a Geração Z vê as redes sociais O estudo mostra que a Geração Z possui uma visão distinta de cada plataforma que utiliza na internet. Para ilustrar a interpretação destes jovens, a McCann fez um paralelo entre esses serviços e o mundo animal, descrevendo o perfil de cada rede social. REDES