Da consulta no Pama, Adriano Roberto Correa, 39 anos, foi direto para uma ambulância.

Foram poucos minutos de consciência no Hospital São José, onde acordou sete dias depois sem ter a menor noção da batalha travada naquela semana na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo).

Mesmo sabendo que o mundo estava em meio a uma pandemia, Adriano nunca imaginou que o Covid-19 pudesse levar ele, jovem e saudável, à beira da morte.

A esposa Roselaine, 41 anos, ainda tenta se recuperar do trauma que foi viver aquela semana isolada em casa com a filha de sete anos.

As duas, também infectadas, só sabiam de Adriano pelos telefonemas da equipe médica. Ao mesmo tempo que lembravam Roselaine que não seriam medidos esforços para salvar a vida dele, davam o dia a dia do quadro.

“Eu orei muito para Deus guardar a vida dele. Pude ver que foi Deus que tirou ele de lá porque o médico toda vez que ligava, dava notícia de uma piora”, relembra.

E foi assim até um dia antes de Adriano finalmente acordar.

“Nem acredito que eu estava lá. A gente pensa que vai para o hospital tomar um remédio e vai voltar para casa. Você até fica meio assustado. Nunca tinha passado por uma UTI”, diz Adriano.

Quadro a quadro

Adriano é proprietário de uma empresa que transporta estudantes para as faculdades e desde o início da quarentena, está sem trabalhar.

A rotina estava restrita a casa, ir ao mercado, posto de gasolina, visitar familiares. Como o contágio aconteceu, ele nem imagina.

No dia 5 de junho, uma sexta-feira, depois de uma semana com sintomas leves e se automedicando, o empresário foi para o Pama com febre, mal-estar e dor de garganta.

De lá, foi encaminhado ao hospital, onde bateu um raio-x do pulmão.

Foto Natália Trentini/OCP News

Sem sinal de infecção no órgão, falta de ar e outros sintomas mais graves, ele foi medicado e liberado para ficar casa. A família se tranquilizou no sábado e domingo, até que na segunda-feira veio o resultado positivo do exame. Era coronavírus.

“Eu não queria acreditar porque sou asmática”, relembra Roselaine. “Eu não sabia como agir com ele, até fiquei com medo. Ele se isolou num quarto”, comenta.

“Naquele momento, ainda tinha esperança que eu não estava contaminada”, completa.

Foi então que ela e a filha também fizeram o exame e nos dias seguintes Roselaine comenta que foi difícil. À distância, tentava cuidar de Adriano ainda sem ter o resultado do exame dela e da filha.

Ele conta que naquela semana seguiu passando mal todos os dias. Náuseas, vômito, diarreia, dificuldade de respirar e febre.

Adriano seguiu em casa até que percebeu que o quadro estava difícil quando passou a madrugada de quarta para quinta em claro.

“Até que dia 11 pedi para o meu irmão me levar no Pama. Fui tomar banho antes de ir, passei mal no banho”, comentar.

“Cheguei lá no Pama e mediram o oxigênio em mim. Começou atacar o pulmão. Foi onde que ela [médica] me chamou, chamou meu irmão também, ia encaminhar com a ambulância para o hospital porque o caso é grave”, recorda.

Foto Natália Trentini/OCP News

Adriano diz que já se sentiu mal novamente no caminho do São José e estima ter ficado acordado por menos de 10 minutos. Ele chegou ao hospital com uma pneumonia grave, foi direto para a UTI, onde foi sedado e precisou ser entubado.

Dias de luta pela vida

Nesse meio tempo, Roselaine recebe os exames e fica sabendo que ela e a filha também contraíram Covid-19 e precisam ficar em isolamento domiciliar. A mãe temia pela saúde.

“Tinha dias que eu passava mal e eu pensava, eu tenho que ficar de pé pela minha filha. Ela não pode ficar com ninguém”, conta.

Os sintomas físicos eram leves - náuseas, diarreia e dor de garganta -, mas o emocional estava severamente abalado.

“Ele na UTI passando mal e a cada dia só notícias ruins. Entrei em pânico e desespero, é uma situação muito complicada. Eu só chorava e pedia para Deus”, afirma Roselaine.

Nessa semana de isolamento e notícias difíceis, ela conta que o amparo da equipe médica, tanto da rede municipal de saúde, quanto do hospital, foi importante.

“Me deu crise de ansiedade e nervosismo, eu liguei no Pama num domingo e conversei com um médico muito querido. Esse médico que me deu uma palavra de força. Eu me acalmei”, agradece.

Sequelas no corpo e na mente

Adriano conta que acordou completamente desnorteado, sem a menor noção do que havia acontecido e muito debilitado. Roselaine lembra que quase não acreditou quando o médico disse que ele havia reagido.

Foi um retorno a vida, onde teve que relembrar coisas básicas.

“O cérebro apagou e ficou uma semana pagado. Nos primeiros dias na UTI eu nem conseguia trazer a comida na boca. As mãos e os braços não querem obedecer”, relata.

Adriano conta que foi recuperando a respiração pouco a pouco, ainda sentia muita dor na garganta e uma fraqueza muscular pelo tempo sem se mover.

Com toda a agressividade da doença, a recuperação de um quadro tão intenso só foi possível, segundo disseram os médicos a Adriano, por ele ter um coração e corpo fortes.

Depois de alguns dias internado, ele já se recuperava em casa com medicamentos básicos e acompanhamento médico. Todos já estão sem a infecção pelo vírus.

Para Roselaine, o que ainda fica é o trauma de ter visto o marido em situação tão crítica, de ter contraído a doença junto da filha.

Foto Natália Trentini/OCP News

“Temo muito ainda, tenho aquele medo de sair, de ir ao mercado. Quando vou, parece que tenho que voltar correndo. É um processo que sei que vou ter que passar. Tenho que recompor meu psicológico. Foi um pesadelo o que eu vivi”, conta.

Mais consciência

Adriano afirma que estava consciente da pandemia e tomando alguns cuidados, mas nunca imaginava que seria tão afetado.

“A gente pensava que não ia afetar muito a gente. Eu errei. O vírus provou que realmente pode dar uma balançada na gente. Isso serve de alerta para outras pessoas também”, ressalta.

Roselaine acredita que as pessoas não têm a real dimensão do quanto essa situação pode ser grave.

“As pessoas não estão levando a sério, pensam que é coisa alimentada pela mídia, mas é real e se não cuidar é fatal”, declara.

 

 

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