Waldirene Goetten caminhava em meio a aldeia Madzi, na cidade de Le Longue, no Malawi, quando uma das milhares de crianças do local cruzou seu caminho.

Com a mão fechada, a menina guardava com todo cuidado o grão de milho cozido que havia recebido de Oziel, marido de Waldirene - ao invés de comer sua soca, a refeição do dia, ele debulhou e dividiu, um a um, entre as crianças que o cercavam.

De frente com Wal, a pequena revelou seu pequeno tesouro. Segurando o grãozinho entre os dedinhos, comeu metade e levou a outra à boca de Waldirene. Um gesto que ela jamais vai esquecer.

De um lado a miséria extrema, de outro a abundância de partilhar o mínimo que se tem. Foi nesse cenário que Waldirene pode colocar para fora a vocação de doar, um ímpeto que habita sua alma.

Waldirene não mede esforços para ajudar o próximo | Foto Natália Trentini/OCP News

Em 2015, ela, o marido e a filha Kathleen venderam carro, deixaram empregos e apartamento em Jaraguá do Sul para embarcar para uma missão voluntária na África. Na época, Waldirene trabalhava como enfermeira no Hospital e Maternidade Jaraguá.

Foram nove meses trabalhando na aldeia. Oziel fez a construção de uma escola e Waldirene ensinava higiene pessoal, crochê, entre outras lições que não podem ser contabilizadas ou definidas. A temporada no continente foi a realização de um sonho muito antigo para ela, que se realiza ao poder fazer algo pelo próximo.

Le Longue é muitíssimo diferente de Jaraguá do Sul, cidade onde ela decidiu viver. Tudo é muito caro, apesar da pobreza. Na aldeia onde Waldirene passava os dias, o contraste era ainda maior. O cenário era de milhares de casas minúsculas, com teto de palha e chão batido.

Sem luz elétrica ou água encanada. As camas são esteiras de palha. O nada, é realmente nada. O pó se espalhava por todo lado diante da ausência de chuva, que não caiu uma única vez durante a estadia. Mas nada disso importava. “Lá eu me senti em casa, mais do que em casa”, conta.

| Fotos Arquivo Pessoal

Entre as inúmeras missões, Waldirene acredita que a possibilidade de quebrar algumas pontes foi a mais importante. Segundo ela, existe muito preconceito entre os aldeões, quase como castas, que separam os mais e menos importantes. Como brancos e detentores de dinheiro, eles foram colocados como superiores pelos líderes, acostumados com o distanciamento.

“Eu cheguei abraçando, beijando. Eu não fui lá para fazer esse tipo de coisa. Eu fui lá por amor, eu amo pessoas e eu tinha mais essa carência do que eles, de distribuir isso”, ressalta. E foi assim, pouco a pouco, que Waldirene construiu uma segunda família do outro lado do oceano.

Para isso, o casal - a filha voltou ao Brasil dois meses após a chegada - viveu o mais próximo possível da realidade daquelas pessoas. Lá, é feliz quem pode comer uma vez por dia. Eles faziam o mesmo.

O prato principal e único na aldeia é a “nsima”, uma espécie de polenta feita com uma farinha branca de maizena, cozida em panelas batidas sobre fogueiras feitas com quatro pedrinhas. É água e farinha, sem sal ou qualquer tempero - não há dinheiro para isso.

“Dá uma mistura de sentimentos, de indignação, porque você vê o ser humano que tem mais tirando daquele miserável. Que no Brasil não é diferente no nosso Nordeste”, conta, ressaltando a corrupção que toma conta do Malawi.

Waldirene aprendeu com sua família da aldeia o valor das pequenas coisas. Eles mal sabem o pouco que têm, sem nunca terem sido confrontados pelo excesso, pelo consumo desenfreado que toma conta de tantas partes do planeta.

Antes e depois da África

A missão voluntária foi um divisor na vida de Waldirene, que hoje visita a aldeia pelo celular, com o Google Earth. Desde pequena ela falava sobre ir à África, sem nem saber como isso aconteceria.

Waldirene nasceu em Otacílio Costa e em 1990 chegou a Jaraguá do Sul, prestes a completar 17 anos. Os pais escolheram a cidade pela promessa de oportunidades, pensando no futuro dos cinco filhos. Mas três anos depois ela conheceu o marido, que era de Taió, e deixou a cidade. “Não gostava de Jaraguá do Sul. Não consegui me adaptar”, lembra.

Passaram 14 anos. Em 2006 uma oportunidade de emprego para Oziel, que é construtor, os trouxe de volta para uma temporada de seis meses. Ao fim do período, Waldirene se confrontou com a mesma questão do pai: resolveu ficar na cidade pelas oportunidades para Kathleen, então com 10 anos.

Aos poucos, o casal foi construindo uma realidade melhor. Waldirene terminou o ensino médio enquanto passava por trabalhos como descascadora de bananas na Duas Rodas e copeira no Hospital Jaraguá. Na unidade, a vontade de ser enfermeira aflorou.

Quando as finanças colaboraram, Waldirene foi para a faculdade. Só saiu do trabalho no hospital, agora como enfermeira e também coordenadora do Banco de Leite, quando o chamado para o voluntariado foi mais alto.

De volta em 2016, a aptidão para trabalhar com amamentação e tamanho amor pelas crianças a levou a criar a empresa Mamy Baby - em que trabalha dando orientações preciosas no pós-parto, vencendo muitas inseguranças ao lado das mães.

Apesar de estar de volta e tocando a vida, parte do seu coração ficou na África e a saudade de muitas pessoas com quem conviveu aperta forte.

Por mais confiante realidade a ser enfrentada, que muitas vezes faz Waldirene contestar seus bens materiais. “A experiência foi muito boa, iria novamente, não precisaria nem esperar a minha resposta”, finaliza.

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