A bola não é redonda, a mais conhecida no nosso país. É marrom, de couro e com um formato oval. Com estes simples aspectos já pode-se perceber que estamos falando do futebol americano. Uma modalidade, cada vez menos, visto com estranheza no Brasil.

E que diga o público jaraguaense. Uma cidade que antigamente pouco conhecia sobre o esporte, mas hoje vê uma ascensão significativa de aficionados e se orgulha de ter um time que atingiu seu auge após levantar a taça de campeão nacional em 2013.

Façanha que levou mais de 6 mil pessoas ao estádio João Marcatto na ocasião e foi conquistado de forma heroica pelo Jaraguá Breakers, um clube que apresentou o football para muitas pessoas até se tornar uma grande marca esportiva do município. Mas para chegar a tal status, o caminho foi árduo, cheio de obstáculos e momentos emblemáticos.
Tudo começou com um grupo de amigos da Escola José Duarte Magalhães que resolveu tentar jogar futebol americano com um pedaço de cartolina, que pouco tempo depois foi substituída por um estojo de lápis. Com o passar do tempo, a brincadeira começou a ficar séria e logo surgiu a primeira bola, ainda muito longe dos padrões oficiais, mas  que serviu para dar início ao projeto do primeiro time da cidade, fundado oficialmente no dia 13 de março de 2003.
Idealizado por Tiago Dalcanale, Everton Gnewuch, Richard Bryan Franzner, Claudio Adriano Starosky e Rodrigo Boeder, a equipe foi evoluindo gradativamente até realizar seus primeiros treinos, com um grupo enxuto de 10 a 12 pessoas. “Não tinha ninguém para nos ensinar e fomos aprendendo com as poucas coisas que tínhamos para ler e assistir”, lembra Gnewuch, atual presidente e wide receiver dos ‘Quebradores’.

Fundadores do Breakers permanecem no clube até hoje: Rodrigo Boeda (E), Everton Gnewuch, Claudio Starosky, Tiago Dalcanale e Richard Franzner I Foto: Divulgação

Aos poucos, o esporte começou a se difundir, mesmo que lentamente, e com o descobrimento da existência de outros times, o Breakers ajudou na grande guinada da modalidade no Estado. Em 2006, as equipes de Jaraguá, Joinville, Florianópolis e Brusque criaram a LCFA (Liga Catarinense de Futebol), atual FCFA (Federação Catarinense de Futebol Americano).
A partir daí, surgiram as partidas oficiais do novo esporte catarinense na época, que eram jogados ainda sem equipamento, o chamado ‘No Pads’. A estreia dos jaraguaenses foi contra o Istepôs, em São José, onde viajaram com apenas 13 jogadores e acabaram perdendo por 28 a 26. “Ali entendemos que precisávamos de muito mais do que vontade e estudo. Depois desse jogo começamos a fazer seletivas para chamar mais gente e tivemos uma caminhada longa de aprendizado”, disse Gnewuch.

Até 2008 em Santa Catarina, jogadores não utilizavam equipamentos I Foto: Henrique Porto 

RECESSO E RETORNO

Após um 4º e 5º lugar nas Ligas de 2006 e 2007, além de um vice-campeonato em 2008, o Breakers não participou da FCFA em 2009, devido a falta de equipamentos (ombreira e capacete), que passaram a ser obrigatórios na competição. Com a aquisição dos itens, a equipe voltou à campo no ano seguinte, tendo sua primeira aparição no cenário nacional ao disputar o Torneio Touchdown, um campeonato brasileiro de futebol americano, no qual figurou na 7ª colocação por duas temporadas consecutivas (2010 e 2011).

ASCENSÃO 
Apesar da inédita participação em um torneio nacional, a equipe jaraguaense carecia de uma estrutura para alçar voos mais altos. Com isso, em 2012, a diretoria contratou o primeiro treinador de forma profissional: Dennis Prants. “Quando cheguei no Breakers, a equipe não tinha campo para treinos, academia para os atletas e nem fisioterapia. Era uma bagunça dentro e fora de campo”, conta Prants.
Com grande experiência como atleta na modalidade, o head coach arregaçou as mangas e deu início ao projeto mais vencedor da história do clube. Com um plantel de 38 atletas, Prants comandou a equipe numa ótima campanha no Touchdown daquele ano, somando cinco vitórias em sete jogos e classificando a equipe para seu primeiro playoff, perdendo nas quartas de final para o Vasco da Gama Patriotas por 7 a 6.

Prants ficou seis temporadas no clube I Foto: Henrique Porto

Mais do que isso. Ajudou a estruturar o clube dentro e fora de campo, com um centro de treinamento fixo e um campo extra para treinos; trouxe reforços de outras cidades do Estado e estrangeiros; executou treinos quatro vezes por semana; conseguiu duas academias e fisioterapia de forma gratuita; levou o apoio da extinta FME com ônibus e alimentação aos atletas; além de promover eventos em shopping e escolas para aproximar a comunidade do clube. “A chegada do Dennis em 2011 foi muito importante pela sua organização em treinos e com a equipe, que era algo que não tínhamos”, exaltou Gnewuch.
ANO GLORIOSO 
Com o clube estruturado e um roster (elenco) mais encorpado, o Jaraguá Breakers comemorou seus 10 anos de história da forma mais especial. Liderados por Prants fora de campo e contando com as estrelas dos norte-americanos Julian Banks e Jacob Payne, que tiveram atuações impecáveis durante toda temporada, os ‘Quebradores’ chegaram ao tão sonhado título nacional, em 2013, tornando-se a primeira equipe do sul do país a alcançar o feito.

Elenco na comemoração do título de 2013 I Foto: Henrique Porto 

A conquista veio da forma mais dramática possível. Quando restavam apenas 15 segundos para o fim, os jaraguaenses perdiam por 11 a 8, e Prants sacou Banks para colocar seu QB reserva Jackson Kestring para um último lançamento. E deu certo. Kestring lançou a bola para end zone para Payne, que segurou e deu a vitória por 15 a 11 sobre o Flamengo FA, fazendo o João Marcatto com mais de 6 mil pessoas tremer de alegria. “Nada foi de graça, nada foi dado. Tudo foi extraído de treinos organizados, intensos e com um grupo que desejava o mesmo”, destacou Prants.

NOVA SAÍDA E VOLTA A TORNEIOS

Apesar da conquista inédita do Torneio Touchdown, o Breakers não conseguiu manter o mesmo padrão nos anos seguintes. Com a falta de apoio e saída de alguns jogadores importantes, a equipe fez campanhas modestas na competição nacional, caindo na fase de grupos em 2014, e na primeira etapa do mata-mata de 2015.

Em 2016, veio uma notícia triste e inesperada aos fãs da equipe. Já sem o comando do head coach Dennis Prants e enfrentando graves problemas financeiros, a diretoria anunciou a ausência da equipe em campeonatos, reservando a temporada apenas para treinos. Porém, o recesso durou apenas um ano. Em 2017, a equipe voltou à ativa em grande estilo.

No Catarinense, os ‘Quebradores’ pararam na semifinal em uma partida muito equilibrada contra o Timbó Rex. Mas a redenção veio mesmo na Liga Nacional. Com o título da Conferência Norte e o vice geral, o time jaraguaense garantiu seu retorno à divisão de elite do futebol americano do Brasil, hoje intitulada de BFA, que vai começar no próximo mês de julho.

Time campeão da Liga Nacional de 2017 I Foto: Lucas Pavin/Agência Avante!

“Foi um ano de muito trabalho e bons resultados, que mesmo com todas as adversidades conseguimos voltar muito bem e com respeito no cenário nacional”, afirmou Tiago Dalcanale, um dos fundadores e atleta da equipe. “O que mais estamos sofrendo é com o apoio dos empresários. Não conseguimos dar uma base forte de treinamentos, trazer reforços de fora e isso acaba dependendo do potencial da região, que não é muito forte. Então estamos nos virando com o trabalho de base, que foi retomado neste ano”, completou.

FLAG FEMININO
Engana-se quem pensa que o futebol americano é só para homens. O esporte da bola oval também caiu nas graças do público feminino. E aproveitando esse crescimento, o Breakers montou em 2016, sua primeira equipe de Flag Football, modalidade similar ao futebol americano.
No início, o grupo comandado pelo running back Giovane ‘Buiu’ Takanage era formado pelas namoradas dos atletas do time masculino. “O começo foi super divertido por ser algo novo e diferente. Todas nós aprendemos a jogar em todas as posições até vermos onde cada uma se encaixaria melhor”, declarou a quarterback Marcela Ribas de Lara Hinkeldey.

Flag do Breakers é atual campeão estadual I Foto: Geraldo Takanage/Overtime FA

Hoje, a equipe é composta por 20 atletas, que treinam todos os fins de semana. Após uma evolução gradativa nas atividades e jogos-treinos, as meninas participaram do Troféu Flag SC e Campeonato Catarinense de 2017, faturando o título em ambos os torneios. “Queremos que mais times surjam para disputar os próximos campeonatos e queremos muito manter nosso lugar no Estadual desse ano”, finalizou a QB.