Uma família que possui seis dedos nas mãos e nos pés virou uma espécie de amuleto da sorte da seleção brasileira em Brasília. Desde a última copa em 2014, a família Silva decidiu aproveitar a variação genética para incentivar o Brasil no caminho do hexa.

"Hexa nós já somos, falta agora o Brasil correr atrás do dele. Mas dessa vez vai."

Em 2014 a família já tinha sido procurada pelo G1 e ganhou repercussão internacional. De lá pra cá mais uma Silva com seis dedos nasceu na família e eles são procurados para dar palpites sobre a seleção e também para falar sobre a mutação genética.

A anomalia – termo médico para a diferença – começou com um dos pioneiros de Brasília, Francisco de Assis Carvalho da Silva, já falecido. Conhecido como "Six", ele era advogado e músico. Ganhou notoriedade por causa do dedo extra e também por ser um dos fundadores do Clube do Choro, um espaço tradicional da música em Brasília.

Agora vai

A família Silva está confiante para que o Brasil ganhe a copa esse ano. No primeiro jogo do Brasil, no domingo (17), a família se reuniu em um condomínio em Águas Claras. Eles torceram junto com amigos que "infelizmente nasceram só com cinco dedos", brincam.

"O hexa tem que sair, estamos confiantes. A seleção está muito boa", diz a administradora Silvia dos Santos Silva.

Cada um da família vestiu a camisa com o úmero 6 e prometem repetir o ritual nesta quinta-feira (23) e apostam na vitória.

"Pelo menos, 2 a 0 a favor da seleção brasileira."

Seis dedos

A polidactilia é a variação genética que fez com que 15 dos 22 membros da família nascessem com seis dedos nas mãos e nos pés. Filhos, netos e bisnetos herdaram a anomalia e dizem estar acostumados a lidar com olhares curiosos de quem percebe, mas não entende, a "marca da família", como cita a advogada Ana Carolina Silva.

"Muita gente presta a atenção, vê que tem algo de diferente na mão, mas não entende. Outras pessoas não têm coragem de perguntar."

"A clássica é se na manicure eu pago mais caro".

A advogada explica que por ter a mão maior do que a média das pessoas, escuta com frequência brincadeiras com o sexto dedo.

"A clássica é se na manicure eu pago mais caro, digo que não, porque lá se paga pela mão e pelos pés feitos".

"Para fazer a unha decorada é mais caro, cobram por quatro dedos a mais, nas mãos e nos pés."

Aceitação e adaptação

A família "hexa" conta que aprendeu a ver e conviver com a mutação genética. Desde cedo as crianças Silvas são ensinadas a valorizar a diferença. Maria Morena, de 12 anos, toca piano desde os 10 e lembra que o professor precisou adaptar as técnicas para ensiná-la a usar o instrumento.

A mãe da menina recomendou sempre usar o dedo nos exercícios. "É um dedo funcional, tem que usar". Maria conta que quando aprendeu as técnicas sentiu que ter o "dedo extra" tornava o movimento "mais fácil".

"Consigo alcançar mais teclas do que a maioria das pessoas e ter mais agilidade entre as notas".

Arquivo pessoal

Algumas práticas do dia a dia também foram adaptadas. Na hora de escrever, Silvia segura a caneta entre o segundo e o terceiro dedo. A família até encontrou um jeito de fazer o número cinco, ao invés de só mostrar a mão completa, eles dobram um dedo.

Mas quando vão apontar para alguma coisa, às vezes geram um certo incomodo. Silvia explica que a eles usam o dedo do meio, que desempenha a função do indicador.

"Mas gera confusão", diz ela.

"Acham que estamos fazendo 'aquele gesto'."

No ambiente escolas, os mais novos da família Silvia aprenderam a naturalizar bem a condição. Com seis dedos também nos pés, os meninos dizem lidar bem com a situação, mas evitam usar sandálias de dedo. "Não ficam bem".

Já as meninas, a família optou por retirar um dos dedos do pé ainda quando eram bebês. O motivo, além de estético, é a dificuldade em encontrar sapatos femininos mais largos, feitos para quem tem seis dedos.

Com informações do G1