Basquete Joinville tem como objetivo inicial se manter no NBB | Foto: Divulgação

Basquete Joinville tem como objetivo inicial se manter no NBB | Foto: Divulgação

Faltavam apenas quatro dias para o Basquete Joinville estrear no NBB quando Daniel Lazier foi anunciado como o novo técnico da equipe. O tempo era curto, mas se engana quem pensa que Lazier caiu de paraquedas em Joinville. A experiência em lidar com jovens atletas é indiscutível. Formado e formador de jogadores na LDB (Liga de Desenvolvimento de Basquete), o jovem técnico está debutando em um NBB com a equipe joinvilense.

Mas o Joinville já estava longe de ser um desconhecido de Lazier. Na temporada 2017/2018, na qual a equipe retornou ao NBB após quatro longos anos, o técnico, então em Curitiba, era presença garantida na primeira fila de cadeiras na quadra. Portanto, ele conhece e muito bem seus “garotos”.

Com uma sequência difícil fora de casa já nos três primeiros jogos, o técnico teve pouco tempo para acertar o time. Mas isso não foi problema. Nos dois primeiros jogos, a equipe joinvilense mostrou consistência, velocidade, amadurecimento e estabilidade – exceto por um único período dos oito disputados. As mudanças táticas de Lazier surtiram efeito e o Joinville estreou com vitória diante do Botafogo, velho conhecido da torcida.

Na sequência, o poderoso Flamengo na Arena Carioca. É possível que nem o mais otimista torcedor tivesse projetado o desempenho joinvilense. Com um primeiro tempo impecável e um quarto período novamente eficiente, o Basquete Joinville chegou a abrir 14 pontos de vantagem e só perdeu nos últimos segundos de jogo, por um ponto de diferença, contra uma equipe com um orçamento muito superior e que conta com nomes de peso, como Anderson Varejão.

Daniel Lazier chegou há 10 dias com a missão de comandar os jovens jogadores | Foto: Divulgação

O resultado pode não ter sido a vitória, mas o desempenho agradou o técnico que ressalta que a forma como os jogadores encaram e jogam é ainda mais importante do que o resultado. “Esse novo projeto é um projeto jovem, é uma comissão técnica jovem e as coisas vão amadurecer com o passar dos anos. A gente não tem tanto tempo assim e temos que tentar diminuir esses erros agora. Eu converso muito com eles sobre desempenho. O resultado pode ser negativo, mas o desempenho tem que ser o melhor possível”, enfatiza.

O diálogo é, inclusive, uma das armas poderosas do técnico. Com pouco tempo para trabalhar antes de estrear, Lazier não dispensou uma boa conversa com os jogadores. Com cada um deles. Individualmente. E a condução das conversas tem uma razão de ser: dar um choque de personalidade e confiança nos garotos.

“Como são muito novos, eu preciso dar muita confiança pra eles e era um time que vinha de um NBB ruim, eles estavam entrando muito inseguros. Essa era mais ou menos a ideia, um choque na atitude, no relacionamento entre eles, comissão técnica, diretoria, todo mundo. Isso já surtiu efeito, eu conversei com eles antes dos jogos e eu os sinto confiantes”, diz. O diálogo somado a alterações táticas e técnicas convergiu para o bom resultado e desempenho nas duas primeiras rodadas.

Lazier destaca ainda que, para aceitar o desafio de conduzir o Basquete Joinville no NBB, sabendo das limitações financeiras e estruturais da equipe, a juventude foi fator fundamental e a experiência que tem no relacionamento com jovens atletas deve impulsionar o amadurecimento dos joinvilenses. “Eu tenho certeza que essa minha experiência é fundamental. Temos uma facilidade em moldar esses atletas mais jovens, é mais fácil convencer eles a fazer o que quer que façam, a mudar uma atitude”, explica.

E atitude diferenciada já pode ser notada nos dois jogos que a equipe disputou no Rio. Um dos destaques de Joinville, Lucas Vezaro, o Vezarinho, entrou em quadra com 22 anos, mas com uma postura muito diferente da temporada passada. Consciente, maduro, sem forçar jogadas, mas respeitando suas características de coragem, impetuosidade e velocidade, o jovem armador é um dos desafios de Lazier.

 

“Eu tive uma conversa de mais de uma hora com o Vezarinho, eu citando os defeitos dele e ele aceitando, preocupado em mudar e ele veio conversar depois. Eles estão preocupados e querem informação sobre como melhorar, eles têm muito potencial”, conta. “A linha do Vezarinho é essa, ele é muito corajoso e eu não posso tirar isso dele, o que eu preciso fazer é com que ele continue tomando as decisões, mas tome as decisões corretas”, salienta.

Um dos lances que chamou a atenção do treinador aconteceu quando a partida se encaminhava para o fim e foi exatamente o lance que originou a “bola da virada” do Flamengo. Posicionado na ala, Vezarinho errou um passe quando estava cercado por quatro flamenguistas. Na hora do lance, até mesmo o técnico questionou a decisão, mas a análise posterior mostrou um Vezarinho consciente, garante o técnico. “O Vezarinho tomou a decisão correta, o passe foi fraco, mas a decisão foi correta. O erro dele não foi de tomada de decisão, foi técnico e erros técnicos sempre vão acontecer. O que não podemos errar é a tomada de decisão”, explica.

Time já demonstra poder de reação e melhora estatística

Amadurecer os atletas, sem tirar deles a coragem e a ousadia, esse é o desafio de Lazier, que ressalta ainda que o Joinville precisa encontrar o equilíbrio nas partidas, além de manter o poder de reação demonstrado nas duas partidas. “Somos o menor investimento da Liga toda, não podemos errar, precisamos achar esse equilíbrio e manter a reação. Contra o Botafogo, o time abriu, eles viraram e nós viramos de novo. Contra o Flamengo também e isso já é uma mudança de postura. Essa reação é muito importante, esse poder de reação”, enfatiza.

A mudança de postura é visível, mas as estatísticas também chamaram a atenção, especialmente defensivamente. O número de rebotes alcançados nas partidas foi muito superior ao que a equipe costumava ter na última temporada. No jogo contra o Botafogo foram 43 – 26 defensivos e 17 ofensivos – e contra o Flamengo, o número melhorou: 44 – 32 defensivos e 12 ofensivos. Para Lazier, o rebote é um dos fundamentos mais importantes em um jogo de basquete. “O time que domina rebotes, costuma dominar os jogos”, ressalta.

A forte presença dos pivôs Thiago Mathias e Jerônimo impulsionou os números, além da efetividade de Jefferson Socas nos rebotes, destaca o técnico.

Mas nem tudo são flores. Se nos rebotes o time tem melhorado, a eficiência nos lances livres ainda é um problema e, para Lazier, há dois fatores que colaboram para o baixo aproveitamento da equipe: o condicionamento físico e o equilíbrio dos jogos. “Eles não acostumados a passar por esse tipo de situação. Eles não estão habituados com jogos pau a pau, jogos equilibrados o jogo inteiro e isso psicologicamente afeta. Eles precisam se acostumar, baixar a adrenalina e criar um ritual de lance livre”, avalia.

Além disso, o relaxamento no momento dos treinos de lances livres afeta o desempenho, pontua o técnico, que credita esse “desleixo” a uma cultura nacional. “Isso pra mim é mal de jogador brasileiro, ele acaba sendo um pouco relaxado com o treino de lance livre. E eles são tão fundamentais quanto qualquer outro treino. É com isso que precisamos nos preocupar e partindo desse princípio, colocamos treinos individuais para ter mais atenção”, conta.

Técnico reconhece limitação financeira para fortalecer elenco que sofreu com lesões na temporada passada

Problema constante na temporada passada, as lesões atrapalharam a equipe. Maxwell perdeu praticamente o NBB inteiro e ainda não está pronto para voltar. Jefferson Socas, Vezarinho e Jerônimo também frequentaram o Departamento Médico. Apesar de saber que esses problemas podem acontecer e são prejudiciais, Lazier tem o pé no chão e sabe que a equipe não tem orçamento para aumentar o elenco, ação preventiva que poderia minimizar o impacto das lesões durante a temporada. “É uma coisa que foge do nosso controle, eu não tenho o que fazer, eu tenho que repor com o que tenho no banco. Isso se diminui com novas contratações e infelizmente não temos essa condição hoje”, analisa.

O reforço na comissão técnica, avalia o técnico, já é um indicativo que a diretoria está atenta a criar uma estrutura mais organizada e preparada. Atualmente, além dele, o Joinville tem George Salles e Guilherme Prates Roma como assistentes.

A empolgação com os bons jogos, a vitória e o desempenho do último jogo é natural, avalia Lazier, mas ele também ressalta a importância de manter os pés no chão e focar no objetivo, que segue sendo permanecer no NBB. “Está todo mundo empolgado, mas a gente tem que colocar o pé no chão e lembrar que nosso primeiro objetivo é fugir do rebaixamento. A partir do primeiro objetivo alcançado, aí podemos pensar em playoffs”, diz.

Pé no freio

Vivendo um bom momento, o Joinville encara na noite desta sexta-feira (19), um adversário direto, que tem tudo para “brigar contra o rebaixamento” e Lazier ressalta que é preciso frear essa empolgação. “Temos um momento em que não posso tirar a alegria deles, mas tenho que frear essa empolgação. Continuamos sendo um time que briga pelo objetivo. Eu tenho que cuidar para que eles não relaxem, achando que vão entrar e ganhar porque jogaram bem o jogo passado. No basquete não tem nada a ver uma coisa com a outra, eles tem que entender isso, tem que estar felizes com o desempenho, mas não podem estar satisfeitos nunca”, destaca.

Depois do Vasco, é hora de retornar para casa e a estreia diante da torcida, na segunda-feira (22), quando recebe o Pinheiros, já é motivo de expectativa, porém, mais uma vez, de acordo com a realidade. Lazier destaca a preparação da equipe paulista, que disputa um campeonato muito mais competitivo do que o carioca. “A expectativa é enorme e esperamos muitos torcedores empolgados no ginásio, mas encaramos um fortíssimo Pinheiros. É um time muito estruturado, muito forte, será um jogo dificílimo. O Pinheiros já vem muito melhor preparado”, analisa.

Garotos de entrega

A chegada de Daniel Lazier mudou a postura do Basquete Joinville, mas antes de desembarcar na cidade para ficar e não apenas para sentar na cadeira da primeira fila, ele já conhecia o projeto e conversou com muita gente antes de tomar a decisão. “Todos me falaram a mesma coisa, cada um pontuou um problema, mas a única coisa em comum dita por todos é que o time é bom de treino, que gosta de trabalhar e não tem como um projeto dar errado se o time trabalha”, conta.

A juventude, o comprometimento e a dedicação da equipe conquistaram Lazier. “Uma palavra para esse time pode ser entrega. Esse time acredita muito, se entrega muito”, finaliza.

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