O arroz, produto base da alimentação do brasileiro e par perfeito para o feijão, é o segundo principal cultivo em Jaraguá do Sul, tendo à sua frente somente a bananicultura. O município produz cerca de 6,5 mil toneladas por ano do grão, em área de 900 hectares.

No Brasil, a recente crise econômica aumentou a procura pelo produto. E, de acordo com o Ministério da Agricultura, o consumo médio per capta do grão em maio do ano passado era de 3,5 quilos. Em 2017, inclusive, os agricultores celebraram uma supersafra, com aumento na produção em alguns estados.

Mas, se à mesa o arroz não pode faltar e faz sucesso nas mais diversas receitas, seja como prato principal ou como acompanhamento, para o produtor rural o quadro atual está longe do ideal.

É da rizicultura que vem o sustento dos Mathias, que também aderiram à piscicultura e plantação de eucalipto para complementar os negócios e aproveitar melhor a terra. Foi no bairro Rio da Luz que o OCP encontrou Paulo colhendo os grãos para outro produtor em área lindeira ao seu cultivo.

-

Leia mais sobre Riqueza Rural:

https://ocponline.com.br/riqueza-rural-a-historia-do-jovem-jaraguaense-que-optou-pelo-campo/

-

O agricultor, de 28 anos, conta que desde pequeno acompanhou o trabalho do pai, Valdir, 62 anos, na lavoura de arroz. Como normalmente acontece com as famílias de produtores rurais, o ofício atravessou gerações.

Segundo Paulo Mathias, hoje a produção está ficando cada vez mais complicada em razão da variação do preço do produto e dos adubos em geral. Em anos anteriores, os problemas climáticos afetaram a produção, que teve boa recuperação em 2017, havendo superprodução.


Produtor diz que apesar da produtividade, preço do arroz desanimou agricultores antes mesmo da colheita. (Fotos: Eduardo Montecino/OCP News)

No ano passado, explica, os preços foram muito bons e a melhora no panorama animou os produtores. “Mas, os adubos e insumos subiram (o valor) e na hora que foi abrir o preço inicial da saca de arroz para a safra, desanimou completamente. Como o investimento foi feito, a gente tem que colher para ver o que sobra pra nós”, declara.

Embora essa oscilação do mercado já seja prevista pelos rizicultores, a situação atual não deixa de ser desoladora. Com o arroz sendo comercializado a R$ 31,50 a saca, o prejuízo é certo. Para que o produtor tire o custo de operação, de acordo com os cálculos de Mathias, o mínimo teria que ser R$ 35. “Esse seria o valor mínimo, só para pagar o investimento”, destaca.

A maior dificuldade hoje, ele aponta, é custear o manejo, porque o diesel é caro – e todas as máquinas trabalham com esse combustível – assim como adubo e insumo. No fim das contas, o preço da saca de arroz não cobre os custos.

“O mercado abriu esse ano com R$ 32 – se não me engano – e foi para R$ 31,50. Você já sabe que vai tomar prejuízo antes de começar a safra. Aí você nem olha mais para a produção que vai ter na lavoura”, lamenta.

Clima favorável à produção

Neste ano, o clima ajudou no desenvolvimento do arroz e em muitas áreas que a família plantou a produtividade atingiu quase o patamar do ano anterior, quando houve supersafra. O arroz produzido pelos Mathias é comercializado junto à Cooperativida Juriti, de Massaranduba, e a jaraguaense Arroz Urbano.

Pai e filho plantam em terra arrendada e terra própria, totalizando uma área de 70 hectares. Nesta safra, colheram aproximadamente 160 sacas por hectare. Em 2017, a produtividade ficou entre 160 e 170 sacas por hectare.

“O mercado abriu esse ano com R$ 32 – se não me engano – e foi para R$ 31,50. Você já sabe que vai tomar prejuízo antes de começar a safra. Aí você nem olha mais para a produção que vai ter na lavoura”, lamenta.

Durante a colheita, o trabalho foi feito por Paulo, junto ao pai e um funcionário. Na rizicultura, a falta trabalhadores aptos a lidar com a terra também é recorrente. “Não é fácil conseguir mão de obra, porque você trabalha mais de oito horas por dia, de dez a 12 horas em época de plantio”, admite.

Na safra, o tempo de serviço se estende por até 15 horas por dia. “Geralmente, quem trabalha é a família, porque hoje em dia o funcionário dificilmente quer trabalhar 12/13 horas, sem sábado, domingo ou feriado. Na safra, a gente tem que aproveitar o dia de sol. Toca direto, não tem folga. A gente só olha para o céu quando aparece alguma nuvem de chuva”, afirma.

Paulo Mathias diz que está acostumado com a lida. Ao observar a planta florescer, já vê se a safra vai ser boa ou não. De acordo com ele, o prenúncio de uma boa colheita vai gerando uma expectativa de preço.

“Ficamos de olho no mercado e manejando a lavoura. Por isso, quando percebemos que o mercado não viria com boas proporções de preço deu uma desanimada antes mesmo de começar a safra”, destaca.


Na safra, produtores chegam a trabalhar cerca de 15 horas por dia, normalmente com o auxílio da família

Melhor aproveitamento das terras

Diante dessa insegurança em relação ao preço do produto, mesmo com alta produtividade, a solução é diversificar e aproveitar melhor as terras. Geograficamente, o território jaraguaense é propício à variedade no plantio.

Por isso, a família também possui reflorestamento de eucalipto, com cerca de 10 mil pés, e piscicultura, com produção anual de aproximadamente 5 a 6 mil quilos de peixe.

“Eu diria que hoje a diversificação na agricultura é essencial para a sobrevivência, pois você tem um carro-chefe, mas se ele quebra você tem de onde tirar o sustento. Se você trabalhar com uma opção só e o carro-chefe quebrar ou der prejuízo, não há para onde recorrer”, enfatiza.

Segundo o agricultor, a diversificação de culturas na propriedade é uma tendência que vem aumentando. “Aqui na nossa região, o pessoal sabe muito bem usar a propriedade que tem”, ressalta.

A capacitação do agricultor também é essencial na busca pelo melhor aproveitamento das áreas de cultivo e implantação de novas tecnologias. Com foco na evolução dentro do campo, Paulo Mathias participou de diversos cursos da Epagri.

“Eu diria que hoje a diversificação na agricultura é essencial para a sobrevivência, pois você tem um carro-chefe, mas se ele quebra você tem de onde tirar o sustento. Se você trabalhar com uma opção só e o carro-chefe quebrar ou der prejuízo, não há para onde recorrer”, enfatiza.

“A gente sempre acaba trazendo novidades e algo para implantar na propriedade que viu no curso. Mesmo que no começo pense que não tem sentido, mas no longo prazo, cinco, seis anos, você começa a notar diferença”, comenta.

Ele acredita que a maioria dos jovens têm ideias expansivas, mas é sempre bom ter alguém com experiência ao lado, administrando junto, para evitar perdas no negócio. “Tem que ter equilíbrio. Eu e o pai trabalhamos muito nesses termos. A gente põe no papel, faz o projeto, analisa e bota em prática por um tempo para ver se funciona”, explica.

Mathias ressalta que o sustento de uma família com a plantação de arroz  demanda de uma grande área. O que vem acontecendo, segundo ele, é que os produtores de áreas pequenas alugam as terras para os maiores.


Produtor rural diz que no período da safra os agricultores ficam de olho no mercado enquanto manejam a lavoura

“Tem que ir modernizando o maquinário. O giro financeiro na produção do arroz é altíssimo e você investe valores altos que, depois, em grande quantidade, há um retorno satisfatório. Tem produções, por exemplo, hortaliças, que dão retorno bom em área menor”, opina.

O produtor revela que já testou a plantação de arroz irrigado com a criação de peixes para aumentar a produção, mas que muitos projetos esbarram na questão da mão de obra.

“O custo de hora/máquina diminui muito e o peixe ajuda alimpar as ervas daninhas, os insumos caem bastante também. O problema é que a mão de obra aumenta. E a mão de obra é uma questão burocrática hoje para os produtores rurais”, aponta.

-

Leia também:

Riqueza rural: programador jaraguaense abandona tecnologia para viver do campo

-

Arroz com feijão

De onde surgiu a tradição do arroz com feijão no Brasil? Difícil afirmar com precisão. Entretanto, a história indica que o Brasil foi o primeiro país a cultivar o arroz no continente americano.


Foto: Divulgação

O alimento era o "milho d'água" (abati-uaupé) que os tupis colhiam nos alagados próximos ao litoral, enquanto o feijão passou a ser parte da alimentação no país também pelos índios e depois pelos escravos negros.

O certo é que, além do sabor, o alimento é altamente nutritivo e recomendado como opção saudável por especialistas em nutrição.

-

Acompanhe a série Riqueza Rural:

Família Strenner é referência no cultivo de aipim

https://ocponline.com.br/oito-anos-depois-empreendedor-celebra-sucesso-na-atividade-em-que-comecou-do-zero/