A sonoridade ao pronunciar o nome do bairro muda conforme a familiaridade com todas aquelas consoantes reunidas. Escrever corretamente também é tarefa difícil, especialmente para aqueles que não ostentam o nome de Jaraguá do Sul na certidão de nascimento e, até para aqueles que são jaraguaenses da gema, é difícil escrever e falar direitinho o nome dele, que é um dos mais antigos da cidade.

A nomenclatura do bairro foi herdada do sobrenome de uma das pessoas que ajudaram a construir Jaraguá do Sul e, claro, o bairro que hoje abriga espaços importantes da indústria, cultura e saúde, entre outros. O Czerniewicz é carregado de muita história e é visível assim que as construções históricas alcançam a visão.

A família de Jorge Czerniewicz deu nome ao bairro | Foto Eduardo Montecino
A família de Jorge Czerniewicz deu nome ao bairro | Foto Eduardo Montecino

Tradicional família alemã no início dos anos 1900, é da família de Jorge Czerniewicz que o bairro herdou o nome peculiar. Saído de Berlim, Jorge chegou a Joinville em 1884, época do Brasil colônia. 

Os primeiros registros da chegada dele a Jaraguá do Sul datam do início de 1900 e apontam para uma história forte de empreendedorismo, especialmente na região próxima ao Rio Itapocu, onde hoje fica a Scar (Sociedade Cultura Artística de Jaraguá do Sul).

Da chegada de Jorge até aqui muita coisa mudou e, aos 72 anos, tendo vivido 50 anos no bairro, Mário Amaro Eger, não só acompanhou como vivenciou essas transformações. A casa na qual vive com a companheira fica perto de um dos pontos de referência e, como não poderia deixar de ser, de história, do bairro.

A estrutura do famoso Café Sasse permanece lá, embora as atividades tenham se encerrado há muitos anos e é daquela região que o aposentado sai, de bicicleta, quase todos os dias, para fazer as “atividades na rua”, como comprar pão, remédios e todo o resto necessário ao dia a dia da família. Mas, nem sempre a bicicleta era a escolhida. Muitos anos atrás, ele conta que não havia asfalto, não havia trânsito e o deslocamento era feito de outro jeito.

Bairro abriga a Scar e o Cejas | Foto Eduardo Montecino
Bairro abriga a Scar e o Cejas | Foto Eduardo Montecino

“Esse bairro mudou bastante desde que eu mudei pra cá. Essa rua principal era uma estradinha que nem passava carro. Eu andava de trole por aí tudo”, conta enquanto diverte-se explicando o que, afinal, é um trole. Segundo ele, trole é uma espécie de charrete puxada por apenas um cavalo.

Com a memória afiada, o aposentado, que trabalhou muitos anos na Jaraguá Fabril, conta que foi justamente na fábrica que encontrou a companheira de vida e relembra os anos em que conheceu a “alemã” e saía para namorar pelos salões da cidade. Além disso, ele lembra, o bairro tinha um bom ponto para os namorados: a ponte pênsil hoje substituída por tantas outras repletas de ferro e concreto.

“Ah, lá dava pra namorar. Era uma mão na roda pra se locomover, mas era escuro, dava pra namorar”, brinca. Mas, não foi só a ponte que alavancou o relacionamento, os salões com seus tradicionais bailes também deram um empurrãozinho, conta Eger.

População do bairro é de 4.349 habitantes (Homens: 2.112 e Mulheres: 2.237, segundo o Censo 2010

“Eu ia muito aos salões lá em Três Rios, mas aqui tinha o Salão Doering também. Inclusive o prédio ainda está ali, era uma das poucas construções que tinha por aqui na época”, diz.

Ainda puxando pela memória, ele lembra que o Czerniewicz foi berço da primeira fábrica de calçados da cidade, a Calçados Gosch, que também encerrou suas atividades, ficando na história do bairro e de Jaraguá do Sul.

Trânsito é o maior vilão do bairro

A memória do aposentado Mário Amaro Eger, de 72 anos, é rápida ao lembrar da história do Czerniewicz, mas também lembra que as coisas eram diferentes no bairro antes de algumas mudanças no trânsito que, acredita o aposentado, trouxeram dor de cabeça para a comunidade.

“O trânsito realmente está uma vergonha aqui. Pra alguém conseguir sair daqui, dependendo o horário, é quase um milagre. Dessas mudanças todas, a única coisa boa que fizeram foi a ciclovia”.

Para ele, após a retirada do trevo perto da Scar e a construção e abertura da ponte que dá acesso ao Rau fez o trânsito ficar ainda mais intenso, sem que se consiga dar vazão a quantidade de carros que transita durante todo o dia.

Mário Amaro Eger, 72 anos, afirma que o vilão do bairro é o trânsito | Foto Eduardo Montecino/OCP

“O trânsito é o vilão do bairro”. A frase categórica é do aposentado Rubens Kretzer, de 65 anos. E olha que ele, assim como Eger, pôde ver o bairro mudar diante de seus olhos, afinal, já são 44 anos morando no bairro de nome complicado.

Ele conta que a região era, à época de sua chegada, “uma propriedade só”. O que não mudou muito, ele afirma, é a tranquilidade do bairro. “Aqui a gente se sente seguro. Somos muito felizes aqui, temos alguns problemas, claro, mas tudo dentro da normalidade”, destaca Kretzer.

O que não é normal, para ele, é o tal “vilão”. Ele explica que o trânsito pesado é a pior situação enfrentada pelos moradores e, claro, por quem precisa utilizar a principal via como ligação entre trabalho e casa. A rua, que também carrega o nome de Jorge Czerniewicz, é a ligação entre o Centro e outros bairros, como o Amizade.

Além do fluxo intenso, Kretzer aponta a colocação de tachões como um problema. “Os caminhões não conseguem passar simultaneamente pela via. Quando isso acontece, um deles precisa desviar e acaba passando em cima dos tachões. Isso acaba emitindo uma espécie de frequência que prejudica as edificações”, reclama.

Rua Jorge Czerniewicz liga o Centro a outros bairros | Foto Eduardo Montecino
Rua Jorge Czerniewicz liga o Centro a outros bairros | Foto Eduardo Montecino

Apesar disso, ele é categórico ao afirmar que não troca o bairro por outro. “Sempre digo: quero morrer aqui”, ressalta.

De acordo com o diretor de trânsito Irio Riegel, em médio prazo não existe nenhuma previsão de melhorias significativas na região. Segundo ele, o maior empecilho é a estrutura física do local que não permite a continuidade, por exemplo, da terceira pista.  “A pista é estreita, tem 10 metros apenas. A gente não tem espaço físico para ampliar uma rua ou fazer uma continuação de pista”, explica.

Segundo Riegel, alguns projetos estão sendo pensados para tentar minimizar o impacto do intenso fluxo de automóveis na região, mas muitos deles dependem de liberação de recursos. O diretor garante que planejamento e vontade de melhorar o trânsito não faltam, mas as limitações físicas impedem o avanço em médio prazo.

Tranquilidade e segurança são marcas do Czerniewicz

Criado no Czerniewicz, o comerciante Sérgio Luís Schulz, de 32 anos, conhece bem o bairro e sua história e, além disso, também acompanhou o crescimento de um dos bairros mais antigos da cidade.

Tão antigo que abriga o primeiro cemitério da cidade onde, na infância e adolescência, o comerciante costumava brincar com os amigos. “A gente ia ali brincar. Naquela época a gente vivia na rua e olha ali, é um morro, é bom pra brincar. Hoje não tem mais isso, é só tecnologia”, confessa.

O mercado da família já completa três décadas de atividade, nascido justamente no período em que, conta ele, o bairro começou a se transformar. “Tem lugar aqui que era só mato mesmo, eu vi quando era criança e meu pai sempre conta. Agora, é praticamente uma cidade”, diz.

Apesar do crescimento, ele afirma que o bairro continua seguro. “É um bairro muito tranquilo e seguro, a polícia passa direto e nós aqui no mercado não tivemos grandes problemas não”, diz.

É no Czerniewicz que ficam o Hospital e Maternidade Jaraguá, o Pama (Pronto Atendimento Médico Ambulatorial), além de unidade básica de saúde | Foto Eduardo Montecino/OCP

Morando em outro bairro há seis anos, ele vê como ponto forte, a união da comunidade. “O povo aqui é muito bom e unido. São as mesmas famílias praticamente”, conta. Embora ele sinta falta de unidades bancárias, como bancos e lotéricas, Schulz não reclama do bairro que tem uma das, se não a melhor, estrutura de saúde da cidade.

É no Czerniewicz que ficam o Hospital e Maternidade Jaraguá, o Pama (Pronto Atendimento Médico Ambulatorial), além de unidade básica de saúde. “Perto de outros lugares, isso aqui é o paraíso”, destaca.

Assim como para o comerciante, para a estudante Tainara Lopes Garcia, de 17 anos, o Czerniewicz também é um exemplo a ser seguido. Para ela, que mora no bairro há sete meses, “é um lugar muito calmo e tranquilo”.

Tainara já morou em outros bairros de Jaraguá do Sul e é enfática ao escolher o seu preferido e não apenas por gosto pessoal, argumenta ela, mas por organização e estrutura. “Se esse não for o melhor bairro da cidade, eu não sei, porque é muito bom e bem estruturado”, ressalta.

Para Tainara, bairro oferece tranquilidade, acesso a serviços e transporte coletivo | Foto Eduardo Montecino/OCP

Usuária do transporte coletivo, ela garante que os horários e a estrutura nesse setor atendem a demanda da população. Inclusive, é no bairro que fica a sede da empresa responsável pelo transporte coletivo da cidade. “Os horários são bons e pelo que eu percebo dão conta da demanda sim”.

Mas, nem tudo são flores e ela também aponta o “defeito” do bairro. Assim como para outros moradores, na avaliação da estudante, o trânsito é a maior ferida. “O trânsito é muito complicado, dá pra perceber que em todos os horários tem engarrafamento praticamente”, finaliza.

Bairro já foi palco de importantes empresas

Se para o aposentado Mário Amaro Eger, o Café Sasse serve como referência para aqueles que não conhecem sua casa chegar até lá, já que ele é praticamente vizinho da antiga fábrica, a estrutura guarda um pouco da própria história do bairro que viu, aos poucos, importantes e históricas indústrias ir, aos poucos, fechando as portas.

Além da “vizinha” de seu Mário, alguns nomes certamente despertam memórias nos jaraguaenses, como a Koback Motores, a Jaraguá Fabril – que foi inclusive palco do começo de namoro entre o aposentado e a companheira – a Calçados Gosch e a Têxtil Cyrus são apenas algumas delas.

Um dos bairros mais antigos Czerniewicz abriga o primeiro cemitério da cidade e construções históricas | Foto Eduardo Montecino/OCP

Além dessas, a Fábrica de Pólvora Pernambuco Powder Factory entrou para a história da cidade de forma trágica. No dia 6 de novembro de 1953, dez trabalhadores morreram após uma explosão na fábrica que ficava na rua João Doubrawa, localidade hoje conhecida como Tifa da Pólvora.

À época, ela era a terceira maior produtora de pólvora do país. Para homenagear os trabalhadores mortos na explosão, em 2013 foi inaugurado um monumento no Cemitério Central.

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