Quantas vezes os visitantes de Jaraguá do Sul já se perguntaram o motivo de o bairro Jaraguá 99 ficar mais próximo do Centro do que o Jaraguá 84? Possivelmente essa é uma curiosidade até mesmo de quem nasceu e foi criado por aqui, afinal, o 84 vem antes do 99, não é mesmo?

Até é, mas depende muito do ponto de vista e à época da demarcação de lotes. Muitos anos atrás, o ponto de partida não era onde hoje fica o Centro da cidade e sim, o município de Rio dos Cedros, mais especificamente a nascente do rio Jaraguá.

A historiadora Silvia Kitta afirma que a confusão é bastante comum e brinca que, inclusive ela, quando chegou a Jaraguá do Sul, tinha essa curiosidade. Ela explica que o nome dos bairros se deu devido à demarcação dos lotes que eram medidos a partir da divisa com Rio dos Cedros.

“A demarcação aconteceu descendo a margem direita do rio, por isso que o 99 fica mais perto da Malwee, porque a medição partiu de lá e não daqui”, diz.

Ela conta ainda que a presença da colonização húngara é muito forte na região da divisa, mas que no Jaraguá 99 a presença de alemães e italianos se misturou. E, independente da descendência, seja ela italiana, alemã ou húngara, os moradores do bairro concordam em um ponto muito específico: o Jaraguá 99 está em ampla expansão.

Hoje, a população do bairro soma 4.253 habitantes, sendo 2.153 mulheres e 2.100 homens. Os dados são do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, censo 2010.

Moradores afirmam quer o bairro está em ampla expansão, e as máquinas trabalhando nos grandes loteamentos confirmam isso. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Para o aposentado Wilson Bruno Hoffmann, 61 anos, essa é uma realidade muito visível no bairro que, para ele, é muito tranquilo, tão tranquilo que é comum ver o aposentado passeando pelas ruas do bairro com o neto Erick, de apenas três anos.

Tímido, o garoto ainda não sabe, mas se as projeções do avô estiverem corretas, ele irá ver um Jaraguá 99 bem diferente do que aquele no qual o avô comprou a casa onde moram, há cerca de nove anos.

Hoffmann ressalta que a tranquilidade e segurança do bairro são características que contam a favor. “É um lugar muito tranquilo e sossegado, a gente não ouve confusão nenhuma”, conta.

O morador Wilson aproveita a tranquilidade do Jaraguá 99, passeando com o neto Erick. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Adepto das caminhadas matinais, foi justamente andando pelas ruas que o aposentado começou a notar com mais intensidade o crescimento do bairro a partir do aumento do fluxo de veículos, pedestres e ciclistas.

“Eu costumo fazer caminhada e estou na rua no horário de pico. Um dia me dei conta e fiquei chocado com as filas que se formam. Então, a gente acaba percebendo pelo movimento o quanto o bairro cresceu”, afirma.

E se o aposentado já notou o crescimento, ele afirma que o desenvolvimento do Jaraguá 99 deve ser ainda maior porque, para ele, “tem muito mais a desenvolver”. Prova disso são os loteamentos que estão sendo construídos no bairro.

Prova do crescimento do Jaraguá 99 são os loteamentos que estão em processo de construção. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Um deles é, inclusive, vizinho do aposentado Ilário Kraft, 64 anos. O grande terreno já alcança os olhos de longe. Sendo terraplanado ao lado da casa do aposentado, ele irá render alguns lotes, inclusive para Kraft, que é dono de quatro.

Morador do bairro há 30 anos, ele acredita que a tendência do bairro é de crescimento e espera que a tranquilidade permaneça intacta. “Quando compramos aqui, não tinha nada, aqui atrás tinha uma lagoa e era mato, roça mesmo”, conta enquanto aponta para o terreno que, de mata, virou um grande espaço aberto sendo preparado para receber o loteamento.

O aposentado Ilário Kraft acredita que, mesmo com o crescimento do bairro, a tranquilidade vai permanecer. |Foto Eduardo Montecino/OCP News

“O bairro está crescendo e deve crescer ainda mais, não sei se o sossego vai continuar porque hoje dá para dormir com a janela aberta. Espero que essa tranquilidade continue”, completa.

Apesar do desenvolvimento, algumas demandas ainda incomodam os moradores do Jaraguá 99, casa da Sociedade Recreativa e Desportiva 25 de Julho. Entre elas está o pedido de construção de ciclofaixa, atenção à rede de esgotamento sanitário e manutenção de áreas de lazer.

É no Jaraguá 99 que fica a famosa Sociedade 25 de Julho, que ajuda a resgatar as tradições trazidas pelos colonizadores. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Bairro não possui rede coletora de esgoto

Se ao lado da casa do aposentado Ilário Kraft o desenvolvimento bate à porta ao som de tratores que preparam o loteamento que deve estar concluído em breve, não se pode dizer o mesmo da rua que termina, justamente no portão de casa.

Uma das reclamações do morador, que vive há três décadas no local, é também, segundo ele, motivo para muitas casas ostentarem placas de “vende-se” ou “aluga-se”: a rede coletora de esgoto.

“Não temos tubulação de esgoto e por mais que a gente cuide, há o mau cheiro e todos os problemas que vêm disso. Aqui na rua mesmo a maioria das casas está pra vender justamente por isso”, diz.

De acordo com o Samae (Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto) de Jaraguá do Sul, a região realmente não possui rede coletora de esgoto, mas ressalta que as casas devem possuir fossa e filtro. Segundo o Samae, já existe um projeto desenvolvido para a implantação da rede coletora do esgoto sanitário no Jaraguá 99 e no Jaraguá 84.

O Jaraguá 99 dá acesso aos bairros Chico de Paulo e Parque Malwee, além da localidade Ribeirão das Pedras. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Atualmente, o projeto tramita no Ministério das Cidades e no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) com o objetivo de buscar recursos financeiros par a execução da obra.

A previsão é de que sejam necessários R$ 8,8 milhões. “O projeto executivo prevê a execução imediata de 1.474 ligações de esgoto em 50 ruas e atenderá mais de seis mil jaraguaenses. A rede terá extensão total para os dois bairros de 25 km e será ligada na Estação de Tratamento de Esgoto do bairro São Luis”, esclarece em nota.

Área de lazer carece de manutenção

O neto de três anos é ativo e mora muito próximo a uma área de lazer, mas o aposentado Ilário Kraft não costuma levá-lo até o local que possui quadra de futebol e parquinho. O motivo é visível de longe: o mato.

O bairro possui áreas de lazer, como essa e a academia da melhor idade, mas no caso da área destinada às crianças a manutenção deixa a desejar. “Está muito feio, ninguém cuida. Eles até vieram roçar, mas fazem assim: roçam uma parte e deixam, aí quando vem roçar a outra parte, a primeira já está no meio do mato de novo”, reclama.

Moradores sentem falta da manutenção nas áreas públicas de lazer. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Para o presidente da Ujam (União Jaraguaense das Associações de Moradores), Valmir Ferreira Cristóvão, esse é um dos grandes problemas da cidade e não apenas do bairro, porém, ele minimiza a responsabilidade da Prefeitura, chamando a atenção para a equipe reduzida de trabalho.

Apesar de garantir que a Ujam já se manifestou a respeito e já iniciou conversas com o novo secretário de Cultura, Esporte e Lazer, Augostinho Ferrari,  para tentar achar uma solução para esses pontos de lazer, Cristóvão pede também a colaboração da comunidade na manutenção desses espaços.

“A comunidade precisa ajudar a manter esses locais”, destaca.

Um dos pedidos do presidente é criar espaços integrados de lazer, com, por exemplo, parquinhos, quadras, Cras, assim como o CEU (Centro de Artes e Esportes Unificados) Mestre Manequinha, na Vila Lenzi. Para ele, além de centralizar os serviços facilitando o acesso, também torna a manutenção mais simples.

A Prefeitura destaca que existem quatro áreas de lazer no entorno do bairro Jaraguá 99 e recentemente um processo de aquisição de areia para manutenção dos espaços foi finalizado.

"Atualmente, das quatro áreas, apenas uma não está com a manutenção em dia", ressalta em nota.

Ciclovia é demanda já solicitada pelo bairro

A rua Bertha Weege corta o bairro de ponta a ponta e por ela o movimento que já é considerável, deve se tornar ainda mais intenso com a projeção de crescimento feita pelos moradores. Por ela transitam pedestres, carros e bicicletas, muitas bicicletas, afirma o aposentado Wilson Bruno Hoffmann.

Para ele, que exalta a tranquilidade e a facilidade de acesso a comércio e serviços, um ponto que pode ser melhorado e que já foi, inclusive, alvo de pedidos da associação de moradores, é a instalação de uma ciclofaixa que possa dar mais segurança aos ciclistas. “Eu diria que essa é uma das prioridades do bairro”, ressalta.

Foto Eduardo Montecino/OCP News

O presidente da Ujam, Valmir Ferreira Cristóvão, admite que esta é uma demanda antiga e que já foi protocolado um pedido junto a Diretoria de Trânsito.

“A resposta que nos veio é de que é preciso concluir as obras de tubulação e realizar o recapeamento total da vida ates de construir a ciclofaixa”, diz.

A Secretaria de Planejamento e Urbanismo, por meio da Diretoria de Trânsito e Transportes, esclarece que “a implantação de uma ciclovia naquela região está contemplada num projeto protocolado dentro do Avançar Cidades do Ministério das Cidades, em Brasília”.

Além da ciclovia, a falta de pavimentação em algumas ruas importantes de acesso incomoda os moradores. Para a autônoma Gabriela Fernanda Herrmann, 26 anos e que mora há dois no bairro, a rua que dá acesso à unidade básica de saúde, por exemplo, deveria ser pavimentada, devido ao movimento intenso.

Algumas ruas ainda esperam por asfaltamento. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

“A rua de trás do posto não tem asfalto e ela é importante porque dá acesso ao postinho de saúde. As pessoas utilizam muito pra fugir do trânsito da principal e em dias de chuva fica só lama”, conta.

Para Gabriela, que já utilizou os serviços da unidade de saúde e utiliza o transporte coletivo, os dois serviços são de qualidade. “O posto consegue atender a demanda e o atendimento é muito bom. O transporte também é bastante acessível, com horários de ônibus que conseguem atender a população”, diz enquanto espera justamente pelo ônibus.

Para a moradora Gabriela, tanto os serviços de saúde como de transporte público atendem bem a população. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Segundo a Prefeitura, a vistoria da rua Alwin Mayer para pavimentação já foi realizada, mas resta a liberação de verba oriunda do Ministério da Integração Nacional.

A manutenção das vias, afirma o governo municipal por meio de nota, está sendo realizada regularmente com patrolamento e macadamização. Ainda de acordo com a Prefeitura, algumas ruas devem ser pavimentadas em breve ou com asfalto ou com lajotas, em parceria com a comunidade.

Desassoreamento de rio pode evitar alagamentos

Se a história do nome do bairro está diretamente ligada ao rio Jaraguá, o cotidiano dos moradores e, infelizmente, alguns problemas também.

Entre os principais pedidos do aposentado Wilson Bruno Hoffmann para melhorar ainda mais a qualidade de vida no bairro que, para ele, é “muito bom, só tem uma ou outra coisa que poderia melhorar”, está o desassoreamento do rio.

Segundo ele, embora essa manutenção já tenha sido feita, o acúmulo de resíduos na encosta já causa transtornos e, em alguns casos, alagamentos.

“O desassoreamento pode amenizar um pouco a questão da inundação que acontece em algumas ruas aqui do bairro”, afirma.

De acordo com Valmir Ferreira Cristóvão, presidente da Ujam, essa demanda já foi levada à associação mas ele chama a atenção para os recursos necessários neste tipo de trabalho.

“É um pedido que a gente tem, mas esse exige um recurso maior e envolve licenças ambientais”, explica.

De acordo com a Prefeitura, não há previsão para a realização de obras de desassoreamento nos próximos dias.