Muita coisa acontecia no Brasil e no mundo quando Felisberto Freiberger chegava de mala e cuia ao bairro em que mora hoje em Jaraguá do Sul. Na Alemanha, o muro que separava o país em oriental e ocidental ia ao chão. No Brasil, Fernando Collor era eleito presidente em eleição direta, o que não acontecia há 29 anos.

Mas o ano de 1989 ficou marcado para a família Freiberger não pelos acontecimentos históricos mundiais e nacionais, mas pela mudança na história da própria família que viu o bairro Três Rios do Sul se transformar em seu lar.

De lá pra cá muita coisa mudou no mundo, no país, na cidade e no bairro. Hoje aposentado e com 69 anos,  Felisberto conta que quando desembarcou com a família, a rua em que mora tinha, mais ou menos, três casas.

“Quando eu cheguei aqui tinha duas casas e uma outra sendo construída, eu sou o mais velho daqui hoje e a gente percebe a mudança. Imagina, antes duas casas, agora o bairro está cheio de loteamentos”, diz.

Inclusive, para Freiberger, os loteamentos devem impulsionar ainda mais o crescimento do bairro, especialmente da região em que mora, na rua Augusto Demarchi. “Esse loteamento aqui atrás promete puxar o bairro, fazer crescer mais”, avalia.

Mas o que deve fazer a região do bairro na qual o aposentado mora ter mais movimentação é a efetivação de uma obra esperada há décadas: a pavimentação. Segundo ele, a promessa do asfalto se arrastava desde que ele e a família colocaram os pés no bairro. “Depois de 28 anos de promessa e espera, o asfalto chegou”, afirma. Ele conta que há cerca de um mês viu a obra tomar o lugar da rua de barro em frente a sua casa.

Para Freiberger, a pavimentação, além de melhorar a qualidade de vida dos moradores, também é um fator determinante para a chegada de empresas. Ele afirma que em pouco tempo, pequenas empresas do bairro fecharam as portas, o que impacta diretamente na economia local e no próprio crescimento do bairro que vê muitos moradores optarem por outros locais com mais infraestrutura e empregos.

Felisberto Freiberger, um dos moradores mais antigos do bairro, acompanha as mudanças ao longo de três décadas | Foto Eduardo Montecino/OCP

Além disso, o asfalto minimizou o trabalho do aposentado que fazia a manutenção da rua de barro com as próprias mãos. “Quando era estrada de chão eu mesmo tapava os buracos. E olha que tinha hein?”, brinca.

Segundo a Prefeitura, a obra de pavimentação que inclui as ruas Augusto Demarchi, Prefeito José Bauer e Waldemar Rau têm um investimento de cerca de R$ 3 milhões, contemplando quase três quilômetros. Ainda segundo o poder público, outras ruas do bairro podem ser contempladas através de programas de parcerias público privadas, que o município pretende instituir.

Agora, com o asfalto novinho, o aposentado direciona sua energia à limpeza da calçada e à manutenção da vizinhança. Debaixo de um sol forte e com o calor intenso que persiste mesmo após a chegada do outono, Freiberger reservou um dia da semana para a poda de árvores que já estavam se chocando com os fios de luz. Depois da poda, era hora de recolher as flores. Tudo isso acompanhado dos cães que acabaram se tornando companhia.

Sem unidade de saúde, população é direcionada a bairros vizinhos

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010, a população do Três Rios do Sul, um dos bairros que contorna o limite com o município de Corupá, era de pouco mais de 2.200 habitantes. Certamente o número aumentou em oito anos, mas o que não mudou muito foi a realidade no que diz respeito ao atendimento de saúde no bairro.

Sem uma unidade exclusiva, os moradores são direcionados aos postos de bairros vizinhos, como o Rau. O que, para o aposentado Felisberto Freiberger torna o atendimento demorado, podendo prejudicar até mesmo a qualidade e afetar a saúde dos moradores. Ele afirma que a companheira entrou na fila para atendimento médico em outubro de 2017 e, ele alega, só foi atendida há algumas semanas.

População do bairro é de 2.213 habitantes (Homens: 1.135 e Mulheres: 1.078), segundo o Censo 2010 | Foto Reprodução

“O que nós precisamos mesmo por aqui é de um posto de saúde. Não temos assistência nenhuma, se fica doente tem que ir lá pro Rau”, argumenta. Usuário do SUS (Sistema Único de Saúde), o aposentado afirma frequentar com regularidade a unidade de saúde, visto que faz uso de medicação contínua fornecida pelo sistema.

Ele conta que para o bairro existe a determinação de atendimento por meio de uma equipe de saúde da família. Mas o atendimento fica apenas na teoria. “Eles até dizem que tem uma equipe direcionada pra cá, mas não vê ninguém por aqui não. Não se houve sequer falar de uma equipe de saúde da família que tenha passado por aqui”, afirma.

A população do bairro Três Rios do Sul é atendida pelas unidades de saúde dos bairros Santo Antônio, Três Rios do Norte e Rau, com a presença dos postos de saúde do Estrada Nova e Nereu Ramos também nas proximidades, afirma a Prefeitura.

O Plano Municipal de Saúde possui estudos para implantar, até 2021, seis novas unidades  na cidade. Dois deles devem ser construídos entre 2018 e 2019, no bairro Ribeirão Cavalo e Jaraguá 84. Outras quatro unidades devem ser construídas entre 2020 e 2021, mas ainda não foram definidos os locais que devem respeitar a demanda.

Bairro é tranquilo, mas carece de áreas de lazer para crianças e adolescentes

A tranquilidade que a família do aposentado Felisberto Freiberger encontrou ao chegar ao Três Rios do Sul em 1989 continua. O bairro, assim como a maior parte dos outros de Jaraguá do Sul, tem uma paisagem mista, que flutua entre o cenário urbano, com movimento de comércio e terrenos separados por muros, e o cenário rural, onde o concreto das casas dá lugar ao verde das pastagens repletas de animais e casas de madeira, acompanhadas, muitas vezes, de ranchos.

Para o aposentado, a calma continua e ele não percebe o bairro como inseguro ou com índices de violência. E é justamente esse clima que fez Freiberger permanecer no local. “É muito sossegado e tranquilo. Até já pensei em sair daqui algumas vezes, mas eu acabei fincando minhas raízes por aqui mesmo”, conta.

Mas o aposentado reconhece que falta infraestrutura em alguns segmentos. Segundo ele, não existem áreas de lazer e, para piorar, ele afirma que cobriram o local em que a criançada costumava correr na escola por brita. “Não tem área de lazer para as crianças, só na escola e ainda colocaram brita onde elas brincavam”, afirma.

Mato toma conta da academia ao ar livre | Foto Divulgação

De acordo com a prefeitura, o bairro Três Rios do Sul deve ter sua realidade alterada em breve, graças aos investimentos que se aproximam dos R$ 10 milhões. O valor se refere à construção do Centro de Inovação, Centro UP! e do Parque das Águas. A intenção é de que a obra seja finalizada no último trimestre deste ano.

“O parque terá uma área total de 210 mil metros quadrados, sendo que cerca de 50 mil metros quadrados de área útil, onde serão instaladas choupanas, quadras multiuso, playground e os demais espaços de recreação, pista de caminhada, estacionamento, lanchonete, banheiros, churrasqueiras e outros equipamentos", comenta o governo municipal, por meio de nota.

"Os demais 160 mil metros quadrados são de mata preservada, onde serão abertas as trilhas para caminhadas e contemplação da flora e fauna. Dois lagos complementam a área”, continua a nota.

Morador sente falta de comércio local

Morador do bairro desde 2013, o turismólogo Antônio Carlos Gonçalves Junior, 37 anos, enxerga um problema, mas também acredita que a solução está a caminho. Para ele, uma carência séria do bairro é a falta de opção de comércio de primeira necessidade, como farmácias, mercados e padarias, por exemplo.

“É complicado, você tem que se deslocar bastante, em alguns casos chega a dar cinco quilômetros de distância. Se você considerar que tem pessoas que não possuem carro, é um deslocamento grande e complicado para se fazer”, avalia.

Para ele, falta incentivo para que o comércio se instale na região, o que, segundo o turismólogo, poderá ter um avanço com a conclusão da obra de asfaltamento da rua Augusto Demarchi, a principal da região conhecida como “rodeio”. “Seria interessante ter alguma coisa de comércio voltado para aquela região. Talvez agora, com o asfalto, algum local voltado para o desenvolvimento do comércio possa abrir para incentivar os comerciantes a investirem no bairro”, avalia.

Outro ponto importante e que ganha com a pavimentação, na visão do morador, é o deslocamento de crianças e adolescentes que frequentam a escola da região. Ele destaca a importância da via em boas condições para a segurança dos estudantes que trafegam em grande quantidade nos horários de entrada e saída das aulas.

“O asfalto ajuda muito na questão escolar porque nós temos uma escola com um fluxo intenso de crianças toda manhã. Elas andavam no barro ou comendo poeira quando tem muito sol. Tudo isso sem acostamento, sem calçada. Era bem perigoso. Além disso, a infraestrutura do bairro tende a melhorar bastante com a chegada do asfalto”, ressalta.

Moradores chamam atenção para a educação infantil

Se o relógio aponta para sete horas da manhã, o movimento já começa a aumentar nas áreas escolares, e no bairro Três Rios do Sul não é diferente. O que pode ser considerado atípico são as condições de lotação da escola que, de acordo com o aposentado Felisberto Freiberger, está abaixo da capacidade. Para ele, “a escola dá conta do recado”.

Mas, para ele, o que precisa ser motivo de atenção do poder público é a educação infantil que, de acordo com o aposentado, é um problema para as mães do bairro. Segundo Freiberger, é comum ver mães e filhos pequenos se deslocando por grandes distâncias de bicicleta para chegar ao centro de educação infantil ou, até mesmo, mães que não conseguem vagas. “Falta, vaga em creche falta bastante e para quem mora aqui, é longe ainda por cima”, diz.

Mesmo sem ser usuária do serviço, a comerciante Fernanda Gurgel, 28 anos, está atenta às condições do bairro e concorda com o olhar do aposentado. Mantendo contato direto com os moradores do bairro, Fernanda afirma que “sempre dá para melhorar”. “A gente sempre acha que dá para melhorar. Eu não preciso no momento, mas vejo e ouço pessoas que precisam se deslocar por distâncias consideráveis para levar as crianças até a creche”, conta.

A Prefeitura esclarece que, atualmente, o Centro Municipal de Educação Infantil Alvina Karsten Schwedler atende a 162 crianças e não há previsão para a construção de uma nova unidade de educação infantil no bairro. “No entanto, no próximo ano, a Secretaria Municipal de Educação pretende entregar o CMEI Gustavo Mathedi, ao lado do Residencial Érika Modrock Menegotti, no Ribeirão Cavalo”, informa por meio de nota. A obra, segundo a Prefeitura, deve abrir vagas que podem atender até 170 crianças da região.