Maristela mora na residência mais próxima do buraco da SC-108 | Foto Eduardo Montecino/OCP News
Maristela mora na residência mais próxima do buraco da SC-108 | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Na madrugada do dia 18 de fevereiro, o bairro Vila Freitas, em Guaramirim, viu parte de seu território em ruínas após um deslizamento de terra. Passadas três semanas do incidente, os moradores da região ainda lutam para buscar um lar após perderem tudo ou terem suas residências interditadas pela Defesa Civil.

Quem está sentindo na pele o fechamento da SC-108 são os moradores que estão literalmente do lado da cratera que abriu a rodovia, além de verem um cenário de destruição mais abaixo, com pedaços de casas moldando o coração da Vila Freitas.

Deslizamento também prejudicou o tráfego na região | Foto Eduardo Montecino/OCP News

A residência de Maristela Silvestre dos Santos, 42 anos, foi umas das 68 interditadas pela Defesa Civil. Com poucas informações recebidas pelo município, ela se vê em um beco sem saída, sendo obrigada a abandonar seu lar e, consequentemente, seu sustento.

"Não temos como sair e nem onde ir. Eu sou costureira autônoma e dependo daqui, meus filhos estudam nessa região e meu marido também precisa estar aqui para trabalhar", relata.

A interdição da rodovia estadual afetou a atuação profissional de seu marido, que trabalha para uma transportadora. Antes os caminhões passavam na frente de sua casa. Agora, ele precisa ir até o Posto Guaramirim, cerca de 5 quilômetros de sua residência, para arranjar serviço.

Todos os dias, Maristela também percebe a dificuldade dos caminhoneiros, que muitas vezes ignoram a placa de desvio e chegam até o ponto bloqueado. E em um momento melancólico, são obrigados a fazerem a volta e usarem as rotas alternativas.

As lembranças da destruição

Silvina Gonçalves, 63 anos, já conseguiu alugar um apartamento no Centro do município, mas sempre volta à sua casa na Vila Freitas para cuidar de seus pertences. Como no caso da moradora, cerca de 80% das residências da Vila Freitas são alugadas, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social e Habitação.

Ao chegar na residência, ela fica em pé na varanda. Os braços na cintura e olhar atento mostram que as lembranças do dia 18 estão voltando em sua mente. Embora o imóvel não tenha sido atingido, ver o rastro de destruição tão perto é um momento árduo. "Não vai ser fácil voltar a rotina normal", conta.

Silvina volta a casa na Vila Freitas para cuidar seus pertences | Foto Eduardo Montecino/OCP News

No último sábado (9), foi realizada uma reunião entre a comunidade afetada com o fechamento da SC-108 e alguns parlamentares do município. Silvina, uma das vozes mais ativas na reunião, reclamou que muitas pessoas estavam mais preocupadas com questões políticas do que em ajudar as pessoas.

"O que nós queremos são respostas para ver como vão ficar nossas casas e nossas famílias. Todos precisam abraçar essa causa com a Prefeitura", relata

Ela afirma que de vez em quando os funcionários da Defesa Civil passam pelo local e analisam a situação das casas. "Os grandões vem aqui, dão uma olhada e vão embora, sem dar garantia de quando vamos voltar para casa", confessa.

Apesar de conseguir um lar temporário, Silvina se preocupa com as outras pessoas que moram em sua localidade, pois muitos não tem condições de se mudar. "Agora é um momento de união de todos os lados", diz.

Cenário de destruição na Vila Freitas ainda deixa moradores perplexos | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Rodberto Gaedtke, 34 anos, conta que está com dificuldades para arranjar uma moradia provisória, porque todas as imobiliárias que ele procura não querem fazer acordo que envolva a Prefeitura, pois, segundo ele, o município está devendo auxílio aluguel.

"Vamos precisar fazer o negócio de forma particular para conseguirmos uma casinha", destaca.

O prefeito de Guaramirim, Luís Chiodini (PP), confirma a versão de Rodberto e afirma que foi levantando a pendência de quitação de alguns alugueis sociais da gestão passada, mas que na Prefeitura essas dívidas praticamente não existem.

"O que podemos fazer é tentar resgatar as dividas que ficaram perdidas no tempo e devolver a credibilidade da Prefeitura com as imobiliárias", destaca.

Lentidão no trânsito

Além dos moradores que moram do lado do buraco da SC-108, outros são afetados pelo número de veículos que utilizam rotas alternativas. Danielle Lima, 20 anos, trabalha como tecelã em uma empresa de Elásticos e precisou mudar sua rotina após a rodovia ser interditada.

Agora, ela precisa sair de casa aproximadamente 30 minutos antes. Na volta, o tráfego faz Danielle chegar em sua residência quase duas horas depois do que estava acostumada. "Eu chegava em casa às 14h, mas com a rodovia parada eu só chego às 15h40", ressalta.

Praticamente todos os dias, o mecânico André Ilhéu, 23 anos, precisa ir ao Centro de Guaramirim para comprar uma peça ou tratar outros assuntos pessoais. Mas a curta viagem de 10 minutos ficou no passado. Dependendo do horário, ele demora cerca de 30 minutos ao passar pela Ilha da Figueira.

A situação caótica do trânsito também afeta quem depende do transporte coletivo. Goretti Richard, 54 anos, saiu de casa às 11h30 de uma segunda-feira para pegar o ônibus. Mas  ela viu o ônibus passar direto e precisou abandonar sua ida ao Centro do município.

Goretti reclama da falta de organização do transporte coletivo | Foto Eduardo Montecino/OCP News

"Ninguém mais sabe onde o ônibus para, cada um diz que é em um local diferente e não tem uma placa definida", reclama.

Aluguel social

De acordo com o diretor da Civil de Guaramirim, Ezequiel de Souza, o município está pagando o aluguel social para 25 famílias que têm o direito desse benefício.

O auxílio é de R$ 690 mensais, que serão pagos até seis meses depois do morador entregar o contrato junto a Prefeitura. "Algumas já foram atrás de parentes e alugaram por conta própria, enquanto outras ainda não saíram de casa", explica.

Movimento de veículos deu lugar a um imenso buraco na SC-108 | Foto Eduardo Montecino/OCP News

O diretor enfatiza que está esperando um posicionamento do governo estadual para fazer uma segunda avaliação e ver quais são as casas com possibilidades de serem liberadas.

"Não podemos fazer nenhuma intervenção no local, porque é uma juridição do Estado. Depois adotaremos uma medida para dizer se as famílias podem retornar às residências", afirma.

Chiodini orienta as famílias a procurarem seus diretos e verem toda a questão de documentações do que possuírem. "É preciso buscar seus direitos para quem sabe conseguir abrir um processo contra o Estado, porque o incidente foi pela falta de manutenção", frisa.

Rotas de desvio

A situação do trânsito na BR-280 e na avenida Izídio Carlos Peixer, no bairro Ilha da Figueira, já era crítica e causava reclamações dos motoristas. Com a interdição da rodovia SC-108, em Guaramirim, as duas estradas viraram rotas de escape e ficaram ainda mais sobrecarregadas.

Segundo o frentista, Carlos da Silva Fagundes, 47 anos, que trabalha em um posto de gasolina as margens da Izídio Carlos Peixer, o movimento no local praticamente duplicou nas últimas semanas. De forma recorrente, ele escuta reclamações de motoristas revoltados com a situação atual.

"Além da perda de tempo que eles sofrem, tem as péssimas condições das rotas alternativas", comenta.

De acordo com informações da Prefeitura, transitavam cerca de 15 mil veículos por dia na SC-108, fluxo que agora precisa ser absorvido em outras vias próximas.

Os agricultores e moradores de estradas do interior de Guaramirim também estão preocupados, pois eles estão em uma das rotas usadas com escape à SC-108.

Segundo o Prefeito, o movimento nas estradas do interior aumentou aproximadamente 10 vezes, o que prejudica as condições dessas vias, que não foram feitas para suportar uma grande quantidade de veículos, especialmente caminhões pesados, além de dificultar as atividades agrícolas.

"Isso dificulta o escoamento de safra e a qualidade de vida das pessoas que moram no interior", relata.

Chiodini afirma não tem mais orçamento para fazer manutenção nessas estradas, porque todo dia surge um problema novo. "Não dá mais para arrumar vias, eu tenho o aluguel social para cobrir, medicamentos para comprar, além de outras áreas", afirma, completando que o momento é de seriedade e não de politicagem.

 

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