Foto Arquivo Pessoal
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O plano do casal blumenauense Ana Paula Krieck Cascaes, 31 anos, e Pedro Cascaes Neto, 34 anos, era ter filhos biológicos e depois adotivos, mas a história da família se desenvolveu com um outro enredo, tão belo, inspirador e que deve servir de exemplo para outras pessoas. Após quatro anos de casamento, uma estrela chamada Clara apareceu no caminho, e mudou completamente a vida dos dois.

Ana conheceu a recém-nascida no hospital em que trabalhava, em 2014, e foi amor à primeira vista. Ela tinha certeza que a menina - fruto de uma violência sexual e que iria para adoção - seria do casal, contudo, como eles não estavam na fila de adoção, a bebê acabou sendo acolhida na semana seguinte. No entanto, duas semanas depois, a família adotiva a devolveu.

Clara veio ao mundo com hidranencefalia (acúmulo de líquido na cabeça no lugar de parte do cérebro), mas só foi diagnosticada semanas após o nascimento. "A Clarinha teria pouco tempo de vida e como se fosse uma mercadoria com defeito, eles a devolveram", conta Pedro. Ana tinha certeza que a bebê havia voltado para eles, entretanto se convenceu de apenas apadrinhar a pequena enquanto ela estivesse internada no hospital.

O despertar de um sentimento paternal

Na primeira vez em que Pedro a viu, no dia do batismo feito no berçário, ela teve uma crise de espasmos e no momento em que ele a abraçou, Clarinha simplesmente dormiu. A reação inesperada e milagrosa eternizou a relação deles. "Até ali, eu não sabia qual era o sentimento de ser pai, eu nunca tinha tido um filho até então, mas naquele momento era como se eu tivesse me desconstruído e reconstruído de volta", relembra.

Foto Arquivo Pessoal

Pedro e Ana se revezavam nas visitas até o dia em que o hospital recebeu um ofício determinando que a menina fosse para o abrigo. Em quatro dias, eles agilizaram os documentos, fizeram exames, entrevistas e o pedido de adoção, pela situação atípica, foi aprovado. Infelizmente, a relação com Clara foi curta, pois ela faleceu após 4 meses e 27 dias de seu nascimento.

"Gostamos de contar a história dela, pois foi ela quem virou a nossa chave. A gente brinca até hoje que 'todo dia é dia de Clarinha', porque foi ela quem mudou a nossa vida", conta Ana.

Mais quatro anjos na vida do casal

Entretanto, a história deles não acaba por aí. Não demorou para que quatro crianças cruzassem o caminho dos Cascaes. Pedro, que é advogado, estava no fórum de uma comarca do Vale do Itajaí, quando, ao despachar um processo com a juíza daquela unidade, acabaram entrando no assunto sobre filhos. Foi neste momento que a magistrada brincou perguntando se ele não aceitaria ser o pai de quatro crianças irmãs que aguardavam por um lar. Ele riu na ocasião, e lembra que, ao chegar em casa, comentou com Ana o quão remota seria essa possibilidade.

Dias depois, o assunto voltou à tona. A juíza entrou em contato, apresentou a histórias dos pequenos e questionou se eles aceitavam ser os pais. O casal pediu uma semana para decidir e, caso não aceitasse, as crianças corriam o risco de serem separadas para lares diferentes.

Pedro, Ana Paula e Clarinha | Foto Arquivo Pessoal

"O processo de destituição do poder familiar ainda não havia transitado em julgado e, com a adoção, nós mudaríamos a vida por completo, de seis pessoas, sabendo que nos apaixonaríamos pelas crianças, numa adoção ainda incerta, que poderia ser revertida. Por essa razão, temerosos, consideramos não ficar com as crianças, mas, num domingo, durante o jantar, um olhou para o outro aflito e disse: ‘essa pode ser a última vez que estamos fazendo isso. Vamos adotar? Vamos! '", sorriem, ao lembrar.

Seis meses antes, Ana havia sofrido um aborto espontâneo. A perda foi um grande baque, mas agora eles entendem que era para acontecer, pois talvez hoje a casa não seria o lar dos quatro irmãos.

Uma família feliz e unida

Faz dois anos que a família de dois integrantes passou a ter seis. Hoje, Rafael, 13 anos, Ana Patrícia, 8 anos, Pedro, 5 anos, e Isabela, 4 anos, completam e deixam a casa da família Cascaes ainda mais iluminada.

"Os pais escolhem adotar, as crianças não escolhem ser adotadas. Não há como cobrar um comportamento ou buscar preencher um vazio. A escolha é nossa e nós devemos nos adaptar. Quando a pessoa impõe uma restrição para adotar, ela não tem essa mesma possibilidade se quiser ter uma filiação biológica, você também não sabe como a criança virá, se saudável ou não, teimosa ou não, arteira ou calminha", finaliza Pedro.

Não há um dia que a família não pense e lembre da Clara. Os seus quatro filhos conhecem a história da pequena e sempre que visualizam uma estrela brilhante lá no céu dizem que Clarinha está olhando por eles.

*Informações colhidas pela assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de Santa Catarina

Encontro Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção

Blumenau será sede do 24º Encontro Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Enapa), nos dias 20, 21 e 22 de junho, na Vila Germânica. O evento traz o tema "Construindo histórias, transformando vidas". A programação contará com workshops, mesas-redondas e palestras que irão promover uma discussão entre diferentes profissionais e ONGs acerca da adoção. As inscrições e a programação você encontra aqui.

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