Equipamento tem sido utilizado em Joinville pelo CHO. Claudia é uma das pacientes felizes com o resultado da touca | Foto Windson Prado/OCP

Equipamento tem sido utilizado em Joinville pelo CHO. Claudia é uma das pacientes felizes com o resultado da touca | Foto Windson Prado/OCP

O ano era 2016. Um período bastante difícil para a gerente de recursos humanos Claudia Henn Prestini, 37 anos. Foi em janeiro daquele ano, durante uma consulta com seu ginecologista, que ela foi diagnosticada com câncer em uma das mamas. O tratamento foi longo, durou o ano todo, e com muito sofrimento causado pelas intermináveis sessões de quimioterapia e radioterapia. Logo após a primeira dose de quimio, Claudia teve que dar adeus os cabelos.

“Eu sabia que eles iriam cair. É um dos efeitos colaterais mais intensos da quimioterapia. Então, depois de minha primeira sessão raspei a cabeça e utilizei meus próprios fios para fazer uma peruca”, lembra Claudia. Foram 16 sessões de quimioterapia e mais 42 de radioterapia e no final daquele ano ela recebeu o tão esperado diagnóstico: estava curada.

Mas o destino pregou mais uma peça na vida de nossa personagem. No começo deste ano um novo tumor apareceu na mesma mama. Pela segunda vez, Claudia se viu diante de um tratamento sofrido e sabia que teria que dar adeus aos cabelos recuperados. Foi quando ela conheceu uma “touca mágica”, que tem revolucionado o combate ao efeito colateral de alguns tipos de quimioterapia, minimizando a queda de cabelos.

O equipamento é importado do Reino Unido e foi criado pela empresa Paxman. Em Santa Catarina, ele está disponível somente em Joinville. O médico oncologista do CHO (Centro de Hematologia e Oncologia) de Joinville, Célio Kussumoto, fala que a touca promove um resfriamento da cabeça do paciente, antes durante e depois do procedimento de quimioterapia. “A baixa temperatura, impede que as drogas da quimio destruam o folículo capilar, isto ajuda a preservar os fios de cabelo nos pacientes”, explica Kussumoto.

Touca ajudou a Claudia ter os cabelos preservados durante a quimioterapia. Pacote de sessões custa o equivalente ao preço de uma peruca de cabelo natural | Foto Windson Prado/OCP

Foi isso que aconteceu com Claudia. Neste segundo tratamento ela já passou por quatro sessões de quimioterapia e se prepara para uma mastectomia que é a retirada da mama, mas teve o cabelo preservado pelo novo equipamento. “Não é fácil receber o diagnóstico de câncer. Quando a notícia vem, a gente desaba. Com a ajuda de amigos lembramos que é preciso ter forças e lutar. E é nesta hora que a parte estética pesa bastante no tratamento, porque, como dizemos, viramos uma lagartixa. Perdemos cabelos, sobrancelhas, pelos do corpo e quando isso acontece autoestima também é perdida”, relata.

“Quando recebi o segundo diagnóstico e soube que teria que passar por tudo de novo já estava me preparando para raspar a cabeça. Teria que fazer uma peruca nova. Mas então, eu conheci esta touca. Uso desde a primeira sessão e tive boa parte do meu cabelo preservado. Agora o médico indicou fazer a mastectomia. Vou fazer uma reconstrução da mama também e finalmente me livrar do câncer. Estou emocionalmente abalada por conta da doença, mas minha autoestima permanece”, acredita a otimista Claudia.

Preconceito ainda é barreira para pacientes

Tanto a gerente de recursos humanos, Claudia Henn Prestini, quando o oncologista, Célio Kussumoto, são enfáticos em dizer que o preconceito, principalmente devido à perda de cabelos dos pacientes durante a quimioterapia ainda é uma barreira a ser quebrada. “Eu já tive pacientes que se recursaram a seguir com o tratamento mais indicado porque sabiam que teriam queda de cabelo. Foi preciso buscar um tratamento alternativo. Esta touca é revolucionaria neste sentido”, aponta Kussumoto.

"Eu já tive pacientes que se recursaram a seguir com o tratamento mais indicado porque sabiam que teriam queda de cabelo", Célio Kussumoto | Foto Windson Prado/OCP

“Passar pelo tratamento com a possibilidade de prevenir ou minimizar a queda dos cabelos é uma mudança que causa impacto. Com a manutenção dos mesmos, especialmente em mulheres, ocorre uma elevação da autoestima e isso auxilia os pacientes a enfrentarem o tratamento”, enaltece o especialista.

A paciente acrescenta. “As pessoas te olham, te julgam, querem saber se estamos doente, quanto tempo de vida ainda temos. Isso machuca. Ficamos pensando: ‘poxa, se a pessoa está pensando que eu vou morrer, eu vou morrer’”, comenta Claudia.

“Não vou dizer que a touca é gostosa de usar. Os primeiros 15 minutos são ruins, mas nada que seja tão desconfortável assim. Para mim fez toda a diferença, e apesar de este recurso ainda não ter cobertura do plano de saúde, vale a pena, porquê acaba ficando no preço parecido de uma peruca”, esclarece.

Com os cabelos preservados, Claudia garante que tem conseguido manter a vida social que tinha antes de ficar doente. “Isso é importante. Não podemos abandonar nossa vida social, amigos, trabalhos, viagens, por conta de um tratamento. É isso, esta positividade, que nos ajuda a enfrentar o câncer”, finaliza.

Saiba mais: | Como a touca funciona?

O sistema Paxman, uma máquina ligada a uma touca especial, resfria o couro cabeludo do paciente a uma temperatura entre 18°C e 22°C, o que permite a menor absorção dos fármacos nessa região. Por isso, diminui a queda do cabelo. Por inibir a absorção das drogas na região do couro cabeludo, o resfriamento não é indicado para os tipos de câncer hematológicos ou para alguma alergia ao frio.

Desde que surgiu, o sistema Paxman tem sido mais usado em mulheres que sofrem com câncer de mama, mas já começa a ser aplicado em homens e em outros tipos de câncer sólidos. Mais de 100 mil pessoas em 64 países já utilizaram o sistema Paxman desde que foi criado em 1997. No Brasil, cerca de mil pacientes já fizeram uso do método nos principais centros de referências.

A aplicação do sistema é simples: pacientes vestem uma touca que fica conectada diretamente a máquina. A touca é colocada cerca de 45 minutos antes e não pode ser retirada até uma hora e meia depois da infusão das drogas para o câncer. O procedimento completo permite que o couro cabeludo fique estavelmente resfriado, o que causa diminuição do fluxo sanguíneo nos folículos capilares e evita ou reduz a perda dos fios.

Saiba mais: | Câncer

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), mais de 14 milhões de pessoas desenvolvem câncer todos os anos. Em fevereiro, o INCA (Instituto Nacional de Câncer divulgou um estudo que afirma que 1,2 milhões de brasileiros terão câncer até 2019. Mas o avanço da medicina e da tecnologia fazem com que o tratamento da doença seja cada vez mais preciso e com menos efeitos colaterais.

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