A escola não é exatamente uma escola. A sala que atende à comunidade escolar da Aldeia Tiaraju é pequena e não tem, nem de longe, a estrutura de uma escola, de fato. O que já é pequeno fica ainda menor, já que no mesmo local funciona sala de aula, o espaço em que a merenda é distribuída e área destinada à coordenação. Mas tudo isso passa despercebido aos olhos atentos e curiosos dos mais de 54 alunos que acompanham as lições diariamente.

Crianças, adolescentes e jovens. Todos passam pelos bancos escolares que recebem alunos do 1º ano até aqueles que estão fazendo o ensino médio na modalidade EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Suzana Brizola estuda todos os dias em Guaramirim | Foto Eduardo Montecino
Suzana Brizola estuda todos os dias em Guaramirim | Foto Eduardo Montecino

Além da estrutura deficiente, para o índio Darci da Silva existe um problema que talvez seja ainda maior e que atinge diretamente as crianças e adolescentes que frequentam escolas regulares, como é o caso da jovem Suzana Brizola, que aos 15 anos, se desloca todos os dias até uma escola de Guaramirim onde cursa o 1º ano do ensino médio.

Para o índio que, como diz, “chegou há pouco tempo” na aldeia – ele é de São Paulo e está na Tiaraju há dois anos – é necessário criar um sistema educacional que contemple as necessidades do povo indígena. E quando ele fala em necessidade, entra em uma discussão mais ampla que, além da estrutura, vai a um ponto central, a grade curricular escolar e a maneira de ensino.

O modo de ensino indígena

Darci, que cursa pedagogia na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e projeta um mestrado assim que terminar a graduação, sonha com um sistema que respeite a história e a visão indígena.

“Hoje em dia a gente depende muito do sistema não indígena porque não temos um núcleo específico. Então, para a gente ter uma educação de qualidade para os escolares indígenas, tem que ter um representante no setor educacional para que possa lutar pelo direito a educação", afirma.

"É meu dever lutar por isso e ter uma formação para poder lutar por uma demanda específica para atender os alunos indígenas. Nós temos que seguir um padrão, mas ele não atende o que a comunidade indígena quer e precisa porque nós precisamos ensinar e aprender a nossa história”, explica.

Ele ressalta que não se trata de “não querer ensinar”, se trata de ensinar de acordo com a vida e a história indígena. “Não é que não queremos ensinar a história, por exemplo, do descobrimento do Brasil, mas queremos ensinar da nossa forma, da história indígena, da visão indígena e para isso, precisamos de um sistema específico que atenda a essa demanda”, avalia.

Algumas limitações impostas pelo “padrão tradicional” de educação ferem a relação que a comunidade indígena possui com a terra e com a maneira de se relacionar com a natureza. Darci chama a atenção para a necessidade de reforçar ainda mais essa relação no sistema educacional.

“Tem vezes que a secretaria de educação chega aqui e pergunta por que as crianças não estão sentadas aqui na sala, mas as crianças não vão aprender assim só escrevendo, elas têm que ver na prática, tem que desenvolver a prática. Elas tem que poder estudar lá fora, na casa de reza, na natureza, é isso que a gente quer”, finaliza.

Futuro dos jovens índios

Para o vice-cacique Gabriel Martins Pires, é fundamental incentivar os mais jovens a estudar e pensar no futuro. Incentivador, Gabriel também tem um sonho: ver a comunidade indígena formada, com profissão e lutando pelo seu povo.

“O estudo é muito importante, a gente conversa com eles, explica que se formar é importante, se formar em Direito para defender o povo indígena. É isso que a gente sempre fala porque se hoje nós estamos quase dentro da cidade é porque os não indígenas estão acabando com a mata, com o rio e nós precisamos estudar e continuar lutando para conseguir alguma coisa para o povo indígena porque estão nos tirando muita coisa”, destaca.

Pensando no futuro, a jovem Suzana já escolheu o caminho que deseja trilhar. Embora não seja em meio à constituição e códigos penais e de processos, ela também deverá estar rodeada de livros, mas de anatomia e similares, afinal, o desejo da adolescente de 15 anos é ser médica para atender o seu povo. Sem planos de sair da aldeia, ela escolheu a medicina como futuro.

Para Cecília Brizola, professora e coordenadora escolar, o incentivo é essencial para o futuro dos povos indígenas, para que possam lutar com seus próprios conhecimentos. Além disso, ela ressalta a importância de “ter o papel na mão”. “Por que é importante estudar e se formar? Por que é importante ter o papel na mão? Para mostrar para p não índio também, para provar que nós podemos sim e vamos lutar”, finaliza.

Falta atenção à saúde

A ligação do povo guarani com a natureza é forte. Mais do que isso, para o povo indígena, corpo e natureza são um só e é preciso preservá-lo. Por isso, o conhecimento e o uso da flora é recorrente. É das mãos dos mais antigos que as ervas viram chás e remédios que curam. É das mãos deles que o alimento se transforma.

O conhecimento passa de geração em geração e, graças a ele, os índios possuem uma medicina própria, mas ela está ameaçada. A perda de território e o desmatamento desenfreado estão exterminando a matéria-prima, que são as ervas encontradas na mata.

A saúde indígena sofreu duros golpes com essa perda e, além disso, a aproximação cada vez mais latente da cidade acaba por trazer também doenças incomuns à cultura indígena. Mas a estrutura de saúde não chega na mesma velocidade.

Na Aldeia Tiaraju não existe unidade de saúde. Os atendimentos acontecem semanalmente por uma equipe médica que visita a comunidade, mas ainda não é suficiente. “A gente não tem uma estrutura específica para ser atendido com qualidade, aqui não tem um posto de saúde para atender, não tem lugar específico. O médico vem uma vez por semana, mas não é plantão, então temos dificuldades”, finaliza o índio Darci da Silva.