Em italiano, famiglia. Em português, família. É assim que as já nonas Dorina Ronchi Campigoto, de 75 anos, Valda Melchioretto, 83, Rosa Campigoto Feder, 64, e Carmelina Melchiretto, de 89 anos, resumem o espírito e a cultura italiana, carregadas no sangue de cada uma delas, que os sobrenomes não deixam esconder.

As quatro têm fortes raízes no país europeu, afinal, os avós, ou melhor, os nonos de cada uma delas, atravessaram o oceano em busca de melhores condições de vida ainda nos anos 1.800.

E a ligação delas é tão forte entre si quanto com a cultura italiana, tanto que não é incomum encontrá-las reunidas na casa de Carmelina, em Massaranduba.

Município mantêm fortes traços da cultura italiana | Foto Eduardo Montecino/OCP News

O município foi, inclusive, ocupado, em boa parte, por italianos que começaram a chegar à região por volta de 1887, na região da comunidade de Braço Direito e Primeiro Braço, berço da ocupação italiana de Massaranduba.

Atualmente, são sete as comunidades que preservam suas origens e, segundo a gerente de Cultura e Turismo do município, Maria Ivone Campigoto, aproximadamente 30% dos cerca de 16,7 mil habitantes da cidade – segundo última estimativa do IBGE, são descendentes de italianos.

Os italianos que ocuparam o município chegaram via Luís Alves e tiveram como ponto de partida as regiões de Vêneto e Lombardia, no Norte da Itália. Foi do norte italiano que os nonos de Dorina, Carmelina, Valda e Rosa saíram antes mesmo de 1900.

Eles não estão mais vivos, mas elas fizeram questão de preservar cada detalhe da cultura italiana, desde o espírito de “famiglia”, até as receitas típicas e famosas de polenta e fortaia.

Para Dorina, a característica mais forte e que mais identifica um italiano é a união.

“Sem dúvida o que mais chama a atenção é esse espírito de família. Na comunidade, todo mundo se trata e se gosta como se fosse pai, mãe, filho”, fala ela com o sotaque arrastado denunciando que o italiano está na ponta da língua.

E não apenas na dela, as “nonas”, como são chamadas as avós em italiano, não dispensam uma boa conversa no que elas chamam de “língua madre”.

Mesa farta

Polenta pra cá, fortaia pra lá, e o “mangiare” sai com naturalidade. A culinária é um dos pontos fortes dos italianos, com seus pratos típicos famosos.

É possível que todos já tenham escutado que “em casa de família italiana, a comida é farta”. E é realmente. “Italiano costuma ser exagerado, nunca faz pouca comida”, denuncia Rosa, que é sobrinha de Carmelina.

As duas são cozinheiras de mão cheia e eram Carmelina, junto com Dorina, as responsáveis pela produção da fortaia, protagonista da tradicional festa massarandubense. E, claro, a polenta, essa está sempre à mesa. “Eu gosto de comer polenta com feijão, com tudo”, revela Carmelina.

Se religião, os laços familiares e a culinária são as principais marcas da Itália, as quatro fazem jus e contam que não deixam de comparecer a missa ou receber a “hóstia”.

Em casa, preservam o costume de visitar uma à outra e, durante as visitas, o que não falta é o café e a cuca, delícias que foram servidas à nossa equipe de reportagem. “Ninguém entra e sai de uma casa italiana sem tomar café”, finaliza Rosa.

As comunidades massarandubenses mantém firmes a tradição e a preservação da cultura italiana com marcos que apontam a ocupação das famílias vindas da Itália. Além disso, a história está presente pelas estradas de chão do interior do município.

Contato com as origens

A conversa em italiano rola solta enquanto Dorina lembra a viagem que fez à Itália em 2006. A ligação entre os descendentes de Massaranduba e os italianos foi retomada nos anos 1990 depois de décadas de rompimento involuntário.

Maria Ivone explica que houve uma “ruptura” na ligação durante a Segunda Guerra Mundial, quando as cartas foram interrompidas.

Depois da reaproximação, os laços se estreitaram e é muito comum que as viagens aconteçam para os dois lados do oceano.

Rosa Campigoto Feder tem muito orgulho de suas origens | Foto Eduardo Montecino/OCP News
Rosa Campigoto Feder tem muito orgulho de suas origens | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Em 2006 foi a vez de Dorina que ressalta o bom tratamento recebido tanto lá, quanto aqui. “Ninguém chega lá ou vem aqui como turista, sempre é como família”, destaca.

Na memória das quatro, o idioma, as receitas e a religiosidade sempre serão as marcas dos italianos, mas elas temem pelo desaparecimento da cultura e das tradições, apesar de a comunidade manter firmes os laços geração após geração.

“Os mais novos continuam, nosso nono morava aqui, nossos pais, nós e assim é em muitas famílias que os filhos permanecem aqui e mantêm os costumes”, conta Valda sentada ao lado da irmã, Carmelina.

 

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