Estava eu num bar e chegou um sujeito que conhecia de vista, mal olhou na minha cara e me apresentou para uma guria: “Esse é o Marcelo Lamas, o escritor”. A guria disse “Oi”, respondi “Oi” e vazaram. Acho que ele quis se pagar de que conhecia alguém ali, ou talvez a menina gostasse de ler, até hoje não entendi.

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Num final de tarde, fazia compras e topei com outro conhecido, este acompanhado de uma criança de colo. Apontou pra mim e bradou: “Esse aqui trabalha com o papai. Ele é um poeta!”. Ficamos com cara de espanto: eu que não fazia / não faço poesia e a criança que ainda nem tinha passado pela festinha de um aninho, na qual também viria, igualmente, a não entender nada. Bem, o cara não era obrigado a ter lido o que eu escrevia, tampouco a conhecer os gêneros literários.

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O que eu quero dizer com esses dois acontecimentos é que “cronista” é a minha posição no esquema tático das letras. Cheguei a consultar a União Brasileira de Escritores (UBE) se seria possível colocar “cronista” na minha credencial. Não foi.
Virei cronista porque herdei o gosto de contar histórias dos velhos da família. Diz a mãe que comecei com quatro anos. Já o apreço por colocar no papel foi lendo os textos do Luis Fernando Verissimo, publicados no jornal de domingo que eu lia na casa do tio militar Aroldo Octavio.
Em setembro passado, o LFV completou 80 anos. Um dos seus leitores, o Marcelo Dunlop, sugeriu a editora Objetiva, que juntasse as máximas, tiradas e elucubrações que ele mesmo havia recortado e guardado numa pasta azul, que conseguiu resgatar intacta da casa dos pais. A editora o convidou a participar do projeto, como organizador e lançou o imperdível: “Ver!ssimas, frases, reflexões e sacadas sobe quase tudo”. A obra de 207 páginas – e capa azul – vem recheada de cartoons que retratam o cotidiano através dos olhos, do pensamento e do traço de LFV.
Como também sou colecionador dos textos do Verissimo, num momento de inveja, pensei: “Eu poderia ser o dono dessa ideia!”. Mas fui consolado pela poesia do Quintana: “O poeta é aquele que diz o que os outros poderiam dizer, só que eles não disseram”. Pensando melhor, tanto faz o gênero literário, o que importa é o que o leitor compreenda e faça a sua interpretação. A propósito: o verbete “gênero” está bem ultrapassado e logo cairá em desuso.
Parabéns ao LFV pelo aniversário e parabéns ao Marcelo Dunlop pelo extraordinário trabalho.
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Marcelo Lamas, autor de “Indesmentíveis” (Camus Ed. 2015).
marcelolamas@globo.com
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Foto: Marcelo Curia