As palavras escritas por João Cabral de Melo Neto em 1950 no poema ‘Cão sem plumas’ serviram como base e inspiração para o mais recente trabalho da renomada coreógrafa Deborah Colker. Homônimo ao texto do poeta pernambucano, o espetáculo, que buscou na união da dança, música, cinema e literatura uma forma de reafirmar a denúncia feita pelo escritor há mais de 67 anos, chega a Jaraguá do Sul para uma apresentação especial. Apesar de retratar a região árida nordestina e trazer bailarinos tomados de lama, questionando a relação da terra e das pessoas, a coreógrafa Deborah Colker considera que a temática é universal. "O poema é contundente e me arrebatou: o poema é atual e universal. Ele fala do Capibaribe, mas fala de todos os rios do mundo, ele fala do ribeirinho e fala de todos que vivem à margem. Ele fala sobre o inadmissível e o inconcebível", defende. Durante quase todo o tempo em que os bailarinos estão no palco, as imagens de um filme produzido durante a vivência da companhia de dança em Recife, dirigido por Claudio Assis, são projetadas e dialogam com a coreografia. Em entrevista ao "O Correio do Povo", a coreógrafa, uma das responsáveis pela cerimônia de abertura dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro e única brasileira a receber o Laurence Olivier Award, na categoria Oustanding Achievement in Dance (realização mais notável em dança no mundo), falou sobre as motivações para esse espetáculo. "O cinema invade o palco e o palco invade a tela: a poesia é dita e cantada. As proporções das imagens e trazer os lugares (para a tela do espetáculo) contribuem para a sensação e intenção da palavra", afirma. Para esse trabalho ela chamou ainda Jorge Dü Peixe, da banda Nação Zumbi e um dos expoentes do movimento mangue beat; Lirinha, ex-cantor do Cordel do Fogo Encantado; e o carioca Berna Ceppas para compor a trilha sonora.  Considerada uma das mais famosas e respeitadas coreógrafas do Brasil, Deborah fala sobre o contexto social atual e de movimentos contrários à liberdade de expressão.
Sob direção de Deborah Colker, companhia dança a poesia de João Cabral de Melo Neto no palco do Grande Teatro da Scar na próxima semana | Foto Cia. Deborah Colker/Divulgação/OCP
Como surgiu esse espetáculo? Conheço Cão sem Plumas e João Cabral desde os anos 80. Ali ouvi pela primeira vez que o sangue de um homem é mais espesso do que o sonho de um homem, mas foi relendo em 2014 que fui arrebatada e decidi o desafio de dançar Cão sem Plumas. Tenho uma ligação muito forte com Pernambuco há muito tempo. Muitos amigos, adoro a efervescência artística de Pernambuco: a música, o cinema, a dança, os poetas. Esse poema é de uma beleza, humanidade e transparência da condição humana. Como foi a produção e o tempo que passaram no Nordeste para a concepção? Fizemos algumas viagens a Pernambuco conhecendo o Rio Capibaribe, os ribeirinhos suas histórias e sua geografia. Em novembro de 2016 passamos três semanas com a Cia e fizemos uma residência filmando (guerrilha, filmamos tudo na lama) e fazendo oficinas, saraus, trocando experiências, conhecimento. Já não sabíamos quem era professor e quem era aluno. E filmamos todo espetáculo que eu já havia construído em todas as locações: na seca, na terra craquelada, no rio, na lama, no canavial, no mangue e na cidade. Qual o impacto que o poema de João Cabral de Melo Neto, escrito há mais de 65 anos, causou em você e como observa a importância dele nos dias atuais? O poema é contundente e me arrebatou: o poema é atual e universal. Ele fala do Capibaribe, mas fala de todos os rios do mundo, ele fala do ribeirinho e fala de todos que vivem à margem. Ele fala sobre o inadmissível e o inconcebível. Como foi traduzir a denúncia sobre a pobreza e a exclusão social da população que vive às margens do rio, feita pelo poeta, para a linguagem da dança junto com cinema? Escolhi esse 4D: dança, cinema, poesia e música. As quatro juntas dançam esse poema. João Cabral nos uniu para olhar para o Cão sem Plumas. O cinema invade o palco e o palco invade a tela: a poesia é dita e cantada. As proporções das imagens e trazer os lugares contribuem para a sensação e intenção da palavra. O carangueja vai descendo o rio e trazendo a lama, a pele e construindo o bicho – homem. Aliás, como foi unir esses gêneros neste trabalho? Não tive medo e sei que é briga potente entre dança e cinema. Fiz ensaios sem as imagens do filme e tinha um espetáculo de dança e vi o filme sem o palco e também tinha um filme. O espetáculo é intenso, forte e eu segui João Cabral o tempo todo. Claudio (Claudio Assis, diretor de longas-metragens) muitas vezes me disse: vamos usar no máximo 15 ou 20 minutos de filme para não brigar com a dança e eu sempre soube que faríamos: dança-cinema e não fiquei com medo de nada. Ao contrário, acho que foi uma contribuição maravilhosa. Considera o espetáculo um ato político? Considero o espetáculo uma experiência de pensamento, de reflexão, e de sensação. Como observa o futuro da arte, principalmente levando em consideração os últimos atos de censura a obras e espetáculos? Temos que tomar muito cuidado com o fascismo. O mundo inteiro está tendo retrocessos terríveis. A falta de informação e a ignorância geram esse tipo de coisa. A arte precisa produzir caminhos consistentes e de qualidade e ela sempre quando boa provoca, faz ruído. A liberdade de expressão já é algo reconhecido como fundamental e a censura como algo abominável. SERVIÇO: O quê: espetáculo "Cão sem plumas" da Cia. Deborah Colker Quando: terça-feira (24), às 20h Onde: Grande Teatro da Scar Quanto: R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia-entrada). Ingressos podem ser comprados no www.ticketcenter.com.br ou na bilheteria do Centro Cultural