As tecelagens, os bordados e os crochês costumam ser associados com os tempos dos nossos avós, remetem a uma sensação de nostalgia e de lembranças da infância.

Estas práticas têxteis são realmente antigas e acompanham a humanidade desde que ela começou a incorporar as vestimentas no dia a dia, mas ainda hoje, são importantes para reproduzir o passado e, no caso da artesã de Joinville, Scheila Laís Eggert, de 27 anos, para tecer o futuro.

Fotógrafa e com formação em artes visuais e design de moda, Scheila sempre teve uma forte ligação com o campo criativo e depois de mergulhar no universo teórico das técnicas com fios durante a faculdade, ela decidiu adotar a tecelagem como forma de expressão.

Jaraguaense tecendo no tear de pente liço | Foto Scheila Laís Eggert

A artesã trabalha com as técnicas de tecelagem feitas em tear de pente liço e de tapeçaria que são bordados em tela talagarça, mas também deixa a criatividade fluir em outras práticas como os painéis em macramê e até mesmo a pintura.

Entenda os métodos de tecelagem

  • Tear de pente liço: estrutura com dois rolos, um frontal - chamado de "rolo de tecido" onde o que está pronto vai sendo enrolado - e outro rolo no lado oposto - chamado de "urdidor", de onde saem os fios que serão tecidos
  • Tela talagarça: tela feita em tecido grosso com fios ralos, espaçados - ideal para bordar e tecer

Ambas as técnicas são usadas por ela para criar tapetes de parede decorativos. Atualmente, a artesã cria peças tanto para portfólio quanto sob encomenda.

"A área têxtil tem muitas possibilidades e uma das coisas que mais me encanta é maleabilidade dos materiais, por serem flexíveis é possível criar desde tapeçarias planas, até tapetes com relevos e texturas", conta.

 

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Como inspiração, Scheila gosta de pesquisar referências de outros artistas e movimentos de arte, além de filmes, livros e até mesmo vídeos no YouTube. "Sempre que posso, vou a museus, ter o contato com a obra de outros artistas é muito forte e inspirador", declara.

Agora, ela trabalha em uma coleção de tapeçarias inspiradas no movimento concretista. "Sempre planejo as peças antecipadamente, e para tecer vou seguindo os desenhos", explica sobre o processo de criação de cada peça.

A tecelagem como ganha-pão

A tecelagem ganhou espaço na vida de Scheila durante um período de incertezas. "Recém-formada, me vi sem emprego e em um cenário de começo de pandemia", lembra.

Com o apoio da família e de amigos, ela decidiu dedicar-se integralmente a criação de tapeçarias. Quando começou a receber um volume considerável de encomendas, ela percebeu que poderia trabalhar apenas com isso.

Foi aí que as práticas têxteis deixaram de ser apenas uma paixão para virar um negócio. Scheila criou um perfil no Instagram para divulgar suas produções, dando mais um passo em direção a profissionalização da sua arte.

Foto Scheila Laís Eggert

Surgia então o Fiõm Ateliê. "O nome FIÕM é a junção das palavras 'fio' e o som 'om', simbolizando o trabalho feito em harmonia e equilíbrio com corpo e mente na produção artesanal de peças", explica.

Em julho, a artesã lançou o site de seu ateliê e agora também realiza vendas pela internet. Gradualmente, ela vai ganhando espaço e trazendo novos significados para a prática da tecelagem.

"Tenho recebido feedbacks muito positivos sobre o meu trabalho. Algumas pessoas acham interessante e outras, acham inusitado um tapete para a parede", se diverte.

Apesar da boa recepção, Scheila, que é natural de Jaraguá do Sul, considera que não tem sido fácil se estabelecer em meio à pandemia. "O que de certa forma facilita são as vendas online, já que me possibilita alcançar pessoas de todos os lugares", avalia.

Um contraponto necessário

Um dos propósitos de Scheila com a tecelagem é apresentar um contraponto para o senso comum de que os trabalhos manuais, especialmente na área têxtil, são apenas passatempos.

"Por mais que as técnicas sejam antigas, acredito que é importante ressignificar a tecelagem, dar um novo olhar sobre técnicas ancestrais, fazer com que elas acompanhem a nossa atualidade", defende a artesã.

Foto Scheila Laís Eggert

Para o seu trabalho de conclusão de curso, que teve como tema "Arte Têxtil e a Produção Feminina em Santa Catarina”, Scheila investigou as criações feitas por mulheres e descobriu casos de artistas brasileiras com muita visibilidade internacional, mas com pouco reconhecimento no Brasil.

"A história feminina na arte é pouco documentada e se tratando da presença na arte têxtil é menor ainda", argumenta.

Pensando em promover a importância do trabalho feminino nesta área, a artista iniciou uma série de publicações no Instagram e Facebook apresentando a biografia e as principais obras de mulheres que são referências no assunto.

 

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"As obras delas representam mais que uma técnica, são a livre representação das ideias feitas por mãos femininas, são a forma com que elas se comunicam com o mundo e mostram como elas resistem enquanto artistas que trabalham com uma técnica milenar", acredita a artesã.

Processo lento e imersivo

As tapeçarias criadas por Scheila são feitas seguindo o movimento de "slow design" ou de "criação lenta".

As peças são feitas uma a uma, com muito planejamento, escolha dos materiais e a execução que é toda feita à mão", explica. "Uma única peça leva dias para ficar pronta", completa.

Este processo mais demorado não acontece sem alguns desafios. "É muito difícil estar nesse mercado, que vai à contramão do que temos hoje que é a produção e o consumo em massa", afirma.

Foto Scheila Laís Eggert

Conforme a artesã, o ato de tecer é imersivo e o tempo passa diferente quando se está trabalhando. "Pode ser solitário, mas, também é profundo e isso cria uma conexão do artista com o trabalho", revela.

Para o futuro, a artesã pretende desenvolver ainda mais as técnicas utilizadas para criar mais peças únicas e com uma maior complexidade. "E se algum dia surgir a oportunidade, gostaria de expor minha arte em museus", confidencia.

Assista ao vídeo e conheça mais do trabalho da artesã

 

 

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Você pode acompanhar o trabalho de Scheila pelo Instagram, Facebook e Pinterest.

 

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