Nos 11 contos que compõem “Aquela água toda”, do paulista João Anzanello Carrascoza (1962), as descobertas da infância e da adolescência se descortinam com profusão em um cotidiano repleto da força onírica da memória e de nuances quase táteis, potencializadas pelo  lirismo descritivo com que o autor pontua sua narrativa ao mesmo tempo densa e clara. Distante de um tônus que facilmente poderia descambar para a frugalidade do piegas, Carrascoza desenha a simplicidade dos enredos a partir de uma força lírica e expressiva que torna suas figuras frágeis e comuns em seres maiores do que aparentam. Não são mais meninos e meninas na expectativa de seus primeiros amores, suas inquietudes e dramas adolescentes, mas sim a infância e o crescer imbuídos da profundidade que as incertezas da vida e as oscilações da família podem acarretar. O ritmo característico da pontuação, a delirante oralidade da narrativa, com seus diálogos imersos em parágrafos polpudos, parágrafos que por vezes podem conter um conto inteiro, como em Medo ou em Mundo Justo, favorecem uma outra percepção da narrativa, uma percepção atrelada às peripécias da linguagem, dos exercícios de sensibilidade linguística e poética, onde enredos parecem submersos ante a forma do discurso. Ainda assim, com a exuberante volatilidade da linguagem poética de Carrascoza como destaque do volume, a expectativa e o suspense ainda permeiam os contos com eficácia. Não é o desenlace da ação que deixa o leitor em suspenso, é a incerteza e o imprevisível da violência cotidiana, é a tensão da fragilidade infantil, da sensibilidade adolescente que leva marcas para vida toda,  e que a qualquer momento pode emergir em soluções catárticas. Inicialmente publicado pela antiga Cosac & Naif em 2012, “Aquela água toda” foi relançado em fevereiro deste ano  pela Alfaguara, do grupo Cia das Letras, com ilustrações de capa e miolo do artista gráfico Visca. O livro recebeu no ano de sua primeira publicação o prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), tendo recebido também o Jabuti no ano subsequente, entre outros. Afonso Nilson Barbosa de Souza, dramaturgo, curador e crítico.